1 TECNOLOGIAS DIGITAIS E A CONSTITUIÇÃO DOCENTE EM TEMPOS DE PANDEMIA Kelly Vergani1 Cineri Fachin Moraes2 RESUMO Este artigo apresenta os resultados do estudo realizado durante o Trabalho de Conclusão de Curso – TCC que tem o objetivo de analisar como o uso das tecnologias digitais potencializa a constituição docente de professores do ensino fundamental em tempos de pandemia. A metodologia utilizada para a realização deste estudo foi qualitativa exploratória, com apoio bibliográfico e utilização de questionário online, destinado a professores do ensino fundamental, com o intuito de conhecer a realidade vivenciada pelos docentes. O apoio teórico contou com autores como Gatti, Vasconcellos, Freire, Citelli, Aranha, entre outros. Os resultados encontrados revelam que as tecnologias digitais e docência se complementam, mas é preciso que se compreenda o papel de cada uma no processo de ensino e aprendizagem. Palavras-chave: Tecnologias digitais; Docência; Educação. 1. Introdução A motivação para escolha desta temática está relacionada com as emergentes mudanças no ensino3 devido à ocorrência da pandemia da Covid-19, e o fato de vivenciar está realidade como estagiária de ensino fundamental, onde escolas, professores e estudantes precisaram se readaptar a uma nova maneira de ter e fazer aula. Assim se fez necessário que o professor se reinventasse na maneira de organizar suas aulas e conseguintemente de ensinar. Em virtude de ser preciso dar sequência ao ano letivo, uma das possibilidades foi a opção pelas aulas remotas para continuar com o processo de ensino e aprendizagem sem quebrar as regras de distanciamento social. Tendo em vista a dificuldade de alguns professores de se distanciar da maneira tradicional de ensinar, e de repentinamente serem aproximadas do uso das tecnologias digitais foi que surgiu a proposta deste estudo. O conhecimento da realidade das aulas remotas4 perpassa o cotidiano dos estudantes e suas famílias, desse modo consideramos importante investigar o uso das tecnologias digitais a partir das experiências docentes no ensino fundamental e de que modo essas contribuem para a constituição docente. Para tal, 1 Acadêmica do curso de Pedagogia da Universidade de Caxias do Sul. 2 Professora orientadora do Trabalho de Conclusão de Curso. 3 Segundo decreto Nº 55.118 de março de 2020 do governo do Estado do Rio Grande do Sul. 4 Levando em conta o parecer nº 11/2020 do Conselho Nacional de Educação. 2 a metodologia utilizada contou com estudo bibliográfico e de campo, com a realização de questionário elaborado pelo Google Forms, constituído por perguntas objetivas e dissertativas, respondidas por 29 professores. Este texto aborda inicialmente uma breve contextualização da educação e da docência, em seguida trata das tecnologias digitais e, por fim, apresenta os resultados dos dados construídos a partir do questionário realizado com professores do Ensino Fundamental. 2. Educação e docência: uma breve contextualização A educação é o processo contínuo que envolve aprendizagens ao longo da vida. Desta forma, facilita e aumenta a aquisição de conhecimentos, habilidades, hábitos, crenças e valores. A educação garante também que tenhamos possibilidades para valorizar escolhas, ler o mundo, ampliar o campo do conhecimento e por consequência permite ter mais clareza sobre os acontecimentos em geral. A educação é garantida por lei na Constituição Brasileira em seu artigo 205: A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. (BRASIL,1988, p.1) De acordo com estudos de Aranha (2006), a história da educação é datada de cerca de 4.000 A.C., com o surgimento das primeiras escolas no Egito, que tinham como objetivo a organização do Império. Esse processo visava ensinar ofícios como: pesca, caça, plantação, construção. Já no Brasil, segundo a historiografia tradicional, e de acordo com os estudos de Aranha (2006), foram os jesuítas que, em maior número e atuação efetiva, obtiveram resultado mais significativo, porque se empenharam na atividade pedagógica. Os jesuítas possuíam a visão de que os povos brasileiros eram pessoas selvagens e atrasadas, visão europeia. Por esse motivo surge a ideia de ação educativa que era nada mais do que partir da catequização. Segundo Aranha (2006), para que o processo de ensino se tornasse bem-sucedido, primeiramente foi necessário compreender a lógica da cultura indígena, e de suas 3 dificuldades que se apresentava, a língua local dos nativos era a maior dificuldade encontrada pelos jesuítas, por esse motivo, esses passaram a morar em aldeia indígenas. Foi a forma que encontraram para entender como realmente funcionava a vida e as tradições dos índios. Para fornecer tal educação os jesuítas criaram alguns colégios pela colônia, sendo estes, colégios internos que recebiam órfãos portugueses e filhos da elite colonial. Nesses locais a pedagogia praticada era baseada na repetição, memorização e provas. A educação dos colonos era muito rígida, a disciplina era duramente cobrada e em caso de desobediência os estudantes eram punidos através de castigos. Conforme menciona Aranha (2006), essa influência dos jesuítas durou 210 anos no Brasil. Em 1759 deu-se seu fim, pois Marques de Pombal, acusou os jesuítas de conspirarem contra o reino e os expulsou de todas as terras sob a influência de Portugal. A metodologia que era utilizada pelos jesuítas, foi substituída pelo pensamento pedagógico da escola pública e laica com criação de cargos como o de diretor de estudos, visando à orientação e fiscalização do ensino, ou seja, introdução das aulas regias, isto é, aulas isoladas. Com a ordem do Marques de Pombal de abolir as escolas jesuítas, em seu lugar forma criadas as Aulas Régias de latim, Grego e Retórica que não possuíam a mesma finalidade das aulas ministradas pelos jesuítas. Com a expulsão dos jesuítas, a educação voltou a ser destinada somente para a elite, com aulas ministradas por um único professor, que possuía pouca formação e era muito mal pago, não sabendo assim que rumo seguir no ensino e nem quanto tempo cada aula duraria. As aulas Régias possuíam objetivo de suas disciplinas estarem relacionadas para a vida cotidiana do homem e a criação de um sistema escolar, com aulas avulsas. Essa educação era sustentada por um novo imposto colonial e tais aulas deveriam suprir as disciplinas antes oferecidas nos extintos colégios. Com isso o interesse das escolas úteis que antes serviam para a fé, agora seria para interesses do estado. (ARANHA,2006) Aranha (2006) destaca que, em 1808 devido aos atritos da corte portuguesa com Napoleão, a família real mudou-se para a colônia sob proteção da Inglaterra. Com a vinda de D. João VI, o Brasil passou por modificações consideráveis, entre elas a ruptura do pacto colonial. As primeiras medidas tomadas por D. João VI assim que chegou ao Brasil, foram a criação de escolas de nível superior para atender as necessidades do momento, ou seja, formar oficiais do exército e da marinha, engenheiros militares, médicos, e a abertura de cursos especiais de caráter pragmático. A tensão entre a alta taxação de 4 impostos e as ideias iluministas contra o absolutismo real criaram um clima de animosidade que preparou a Independência do Brasil. Com o retorno de D. João VI para Portugal, o príncipe que permaneceu no Brasil, declarou Independência em 1822, assumindo assim o nome de D. Pedro I. Com isso em 1824, D. Pedro I, outorga a primeira Constituição Brasileira, que trazia em seu artigo 179 que a “instrução primaria é gratuita para todos os cidadãos”. Já em 1823, em uma tentativa de suprir a falta de professores, foi instituído o Método Lancaster, pelo qual um estudante que era treinado, ensinava um grupo de 10 estudantes sob a inspeção de um instrutor. Ainda segundo Aranha (2006), em 1826, um decreto institui três graus de instrução a saber: Pedagogias (escolas primárias), sendo elas Liceus, Ginásios e Academias. Em 1827 um projeto de lei propõe a criação de pedagogias em todas as cidades e vilas, além de prever o exame na seleção de professores, para nomeação, propunha ainda a abertura de escolas para meninas. No mesmo ano em agosto, o imperador D. Pedro I cria duas faculdades de Direito no País. Por todo o império pouco se fez pela educação brasileira e muitos reclamavam de sua qualidade ruim. Com a Revolução de 30 o Brasil entra no modelo capitalista de produção, a nova realidade brasileira passou a exigir uma mão de obra especializada e para tal era preciso investir na educação. Sendo assim, em 1930, foi criado o Ministério da Educação e Saúde Pública e, em 1931, o governo provisório sanciona decretos organizando o ensino secundário e as universidades brasileiras ainda inexistentes. Em 1934, a nova Constituição, dispõe que a educação é direito de todos, devendo ser ministrada pela família e pelos Poderes Públicos. (ARANHA,2006) Trazendo tendências fascistas é outorgada uma nova Constituição em 1937, e com isso, a orientação política- educacional para o mundo capitalista fica bem explicita em seu texto sugerido a preparação de um maior contingente de operários para as novas atividades abertas pelo mercado. Por isso, a constituição enfatizava o ensino pré- vocacional e profissional. Por outro lado, a constituição trazia que a arte, a ciência e o ensino fossem livres à iniciativa e a associação de pessoas coletivas públicas e particulares, tirando do Estado o dever da educação, mas mantêm ainda a gratuidade e a obrigatoriedade do ensino primário. Esse novo contexto político faz com que as discussões a respeito da educação, profundamente ricas no período anterior, entrassem em uma espécie de hibernação. Nesse período o ensino era composto, por cinco anos de curso primário, quatro de curso ginasial e três de colegial, podendo ser na modalidade 5 clássico ou cientifica. O ensino perdeu seu caráter preparatório para o ensino superior e passou a se preocupar mais com a formação geral. No período que detém a Nova República, retorna a obrigatoriedade de cursar o ensino primário, e a União coube legislar a respeito das bases e diretrizes da educação. Em 1946, baseando suas ideias na Carta Magna, o Ministro Clemente Mariani, tenta reformular toda a educação brasileira. Após 13 anos de discussões foi então promulgada a lei 4.024. Já em 1953 a área da educação ganha um ministério próprio, intitulado de Ministério da Educação e Cultura. Com o Regime Militar em 1964, várias tentativas de mudar a educação são praticadas, utilizando de pretexto os dizeres de que as antigas propostas eram comunistas e subjetivas. Mas ao mesmo tempo em que essas mudanças ocorriam, a educação espelhava um caráter antidemocrático, e com isso diversos professores foram presos, estudantes confrontados e universidades invadidas. Esta foi a maneira que a união encontrou de calar o povo naquela época, no mesmo período que as universidades estavam se expandindo pelo Brasil. Todas essas mudanças, conduziram para um método de ensino baseado na transmissão e memorização, identificado por Freire como Educação Bancária. A concepção bancária da educação é um bom exemplo de educação antidialógica, uma situação que perpetua a contradição entre educador e educando. Esta concepção educativa define a ação do professor em dois momentos distintos: o primeiro, o educador adquire conhecimentos para, num segundo momento em sala de aula, os transmitir ao estudante, que arquivam o que ouvem ou copiam, memorizando o conhecimento pronto. (FREIRE, 1983, p.66) Nesta concepção, o ensino tinha como objetivo, fazer com que os estudantes acatassem ao professor, memorizassem e repetissem os conteúdos, tornando o docente a fonte do conhecimento, a figura central em sala de aula, tornando-se um depositário de palavras na mente do estudante. Nesta educação tradicional, não era possível o diálogo entre professor e estudante. Aquela apresentação oral feita pelo professor de introdução do assunto, escrever no quadro alguns apontamentos, acaba por transformar alguns professores em ditadores e praticamente deixa de existir relação entre estudante professor. A escola é o local onde o estudante tenha a possibilidade de vivenciar experiências, ter acesso a conhecimento e conhecer o mundo físico e social. Por isso, a sala de aula se transforma em um ambiente, onde o professor pode ser um mediador da aprendizagem, e para que isso seja possível se faz necessário a ação docente. 6 A docência é uma das profissões mais antigas que existem. Na Pré-história, muito embora sem ter consciência de que estavam educando, os anciões passavam para os jovens conhecimentos e habilidades necessárias para a sobrevivência. Está concepção de docência, forma indivíduos capacitados a buscarem aprendizados constantes para posteriormente transmitir essas informações aos demais. Mas qual é a função do docente? Segundo Roldão (2007, p.94) a função docente se caracteriza pela ação de ensinar, sendo que o conceito de ensinar não é definido de modo simples e fácil, pois há diferença entre “professar o saber” e fazer os outros aprenderem algo. Docentes são todos aqueles que de alguma maneira, passam o conhecimento para frente. Estes conhecimentos serão aperfeiçoados de geração a geração, seguindo um raciocínio lógico. Marcelo (2009, p.8) diz que a docência é “uma profissão do conhecimento” sendo que o conhecimento e o saber legitimam tal profissão. O trabalho docente é baseado no “compromisso em transformar esse conhecimento em aprendizagens relevantes para os estudantes”. Mas, o papel do professor não é o mesmo como era antigamente. No atual momento, devido as mudanças do mundo e a inserção da tecnologia, professores sentiram a necessidade de se inteirar do mundo virtual. Porém a maior parte dos professores que lecionam não tinham ou não tiveram conhecimento de nada a respeito da tecnologia, fato que dificulta essa adequação. Carvalho (1999) afirma que, à docência é uma atividade extremamente relacional, onde há envolvimento afetivo dos professores com seus estudantes, desta forma, a preocupação com a aprendizagem destes acaba tornando-se um fato desgastante. Nesse ponto a autora confirma o que defendia o filosofo e pedagogo Paulo Freire ao afirmar que “o diálogo pressupõe o amor ao outro. Sem diálogo não há comunhão, sem comunhão, não há educação. Educar (e ser educado) é um ato de colaborar, trabalhar em conjunto.” (FREIRE, 1982, p.66). A tese defendida por Freire, pressupõe o envolvimento de pessoas com diferentes níveis de conhecimento, que se propõe a compartilhar suas ideias. Com isso o aperfeiçoamento do professor é necessário pois, o mesmo necessita ter um perfil de pesquisador, que permanece em constante aprendizagem, fazendo com que a partir do momento que surja uma dúvida no dia a dia escolar, ele vá em busca de conhecimentos que auxiliem a diminuir as problemáticas, pois como sabemos concepções de aprendizagens diferentes, permitem aprendizagens diferentes. Não basta que este saiba o 7 conteúdo, é preciso que haja o desenvolvimento dele na sala de aula e que o estudante consiga interpretar e compreender a explicação. Por isso, é imprescindível a relação entre professor e estudante, porque só a partir do momento que o professor dialogar com o mesmo, ele saberá o que foi aprendido e o que precisa ser reforçado. Segundo Marcelo (2009) atualmente existe um considerável volume de investigação que indica que a qualidade dos professores e a forma como ensinam é o fator mais importante para explicar os resultados dos estudantes. Nos estudos como o de Sá e Neto (2016), percebe-se que os resultados que desagradam a sociedade a respeito do ensino e aprendizagem, são de culpa dos professores. Os mesmos dizem que isso se dá pelo fato da carga horária extensa, dificuldade de diálogo em sala de aula, falta de reconhecimento da profissão, entre outros. A profissão docente é vista como necessária, mas pouco valorizada e pressionada para obter bons resultados com parcos recursos. Essa desvalorização é uma das causas de ter poucos interessados em ser docentes. A docência é cobrada por constante aprimoramento, para que seja possível disponibilizar o melhor aprendizado, mas, ao mesmo tempo, faltam investimentos, sejam eles econômicos ou materiais. Para que um professor se aprimore é necessário investimento da sua parte tanto intelectual como financeiro, e sendo ele um profissional que obtém pouca renda, alguns ainda possuem baixa autoestima, esse aprimoramento muitas vezes se torna desnecessário. Isso pode contribuir que suas aulas tenham um caráter mais tradicional, ou seja, ao adentrar na sala de aula, o que normalmente se percebe de subsídios para ministrar os conteúdos são somente, a lousa, livros didáticos e cadernos. Ao se permitir conhecer novas maneiras e recursos, dentre elas o uso das tecnologias digitais, é possível que o professor consiga modificar e avançar no seu modo de atuação pedagógica, e quem sabe possa deixar de se tornar escravo do livro didático para se tornar um autor de sua jornada, e com isso levar o estudante com ele. A partir do momento em que a tecnologia se aproxima da aula, é possível perceber que a educação não se processa somente dentro da sala de aula e não deve depender unicamente do pensamento do docente, pois, tudo o que adicionar conhecimento pode ser considerado educação. E é através da educação que formamos seres pensantes detentores de ideias e saberes e assim potencializa o ensino. Ainda que as transformações educacionais ocorram de maneira gradual, muitos educadores e professores ainda não 8 avançaram neste sentido, até mesmo as próprias instituições encontram dificuldades de adentrar no mundo das tecnologias digitais por diversos fatores. 3. Tecnologias digitais e a constituição docente As Tecnologias Digitais são entendidas como “aquelas tecnologias mais utilizadas pelas pessoas como televisão, jogos eletrônicos, computadores e seus acessórios multimidiáticose a internet.” (PESCADOR, 2010. p.20). Desta forma, podemos dizer que tecnologia digital é um agrupado de tecnologias que permitem a conversão de qualquer linguagem ou dado em dados binários (0 e 1). Ou seja, uma foto, uma música ou a união de todos eles. Segundo Fagundes (2005), o caminho mais curto e eficaz para introduzir nossas escolas no mundo conectado passa pela curiosidade, pelo intercâmbio de ideias e pela cooperação mútua entre todos os agentes envolvidos no processo. Sem receitas preestabelecidas e os ranços da velha estrutura hierárquica que rege as relações entre professores e estudantes.5 Entretanto, para educar era necessária a presença do estudante e do professor no mesmo ambiente, e que somente assim era possível aprender. Desenvolver um conteúdo em sala de aula, munido minimamente de livros didáticos e giz já era trabalhoso, agora com o surgimento da pandemia da Covid-19 os mesmos docentes são obrigados a se reinventar tecnologicamente para poder continuar exercendo seu ensino. A constatação de que existem convergências e divergências entre as culturas midiáticas e as das escolas, não impede, contudo, que se busque, através de atitudes novas e desafiadoras, aqueles procedimentos de aproximação entre os dois sistemas e que contribua para tornar mais eficaz a ação educativa. […] trata-se de fazer com que o rádio, a televisão, o jornal, as tecnologias digitais e informacionais ao mesmo tempo entrem nas salas de aula e delas sofram os influxos que a atenção crítica e reflexiva de um saber academicamente sustentado e socialmente comprometido podem exercitar. (CITELLI, 2005, p.88). Essa reinvenção e adaptação foi possível considerando o uso da tecnologia digital, como por exemplo as salas virtuais para a continuidade das atividades escolares em 5 Entrevista concedida pela pedagoga Léa Fagundes a Revista Nova Escola, disponível no site: https://novaescola.org.br/conteudo/987/entrevista-com-lea-fagundes-sobre-a-inclusao-digital. Acessado em 19 de dezembro de 2020. https://novaescola.org.br/conteudo/987/entrevista-com-lea-fagundes-sobre-a-inclusao-digital 9 tempos de distanciamento social. Aulas online e encontros virtuais, se tornaram uma realidade para muitos professores, mesmo para aqueles que não estavam envolvidos no mundo digital. A falta de conhecimento do mundo virtual muitas vezes torna as aulas precárias pois, os docentes precisaram aprender a se adaptar ao uso das tecnologias digitais na educação de maneira repentina e urgente. A falta de conhecimento nem sempre é o motivo principal, na maior parte das vezes o que ocorre é que o professor está acostumado a organizar suas aulas de modo tradicional, e exigir que esta mesma aula aconteça na frente de um computador faz com que a situação complique. Diante disso se faz necessário uma readequação do plano de aula e o andamento dos processos de aprendizagem sejam diferenciados. Com isso o professor percebe a necessidade de reescrever conteúdos e repensar maneiras de atrair a atenção da turma. Neste sentido Cortella afirma que O professor precisa estar ciente de que mesmo tendo conhecimentos dos conteúdos que ensinará, ele precisa entender que seus estudantes mudam sempre, nunca são os mesmos, tem interesses em coisas diferentes. E principalmente não é mais tão fácil como era antigamente manter atenção do estudante em sala de aula apenas usando o quadro-negro e giz. Se faz necessário que o professor modernize seu modo de ensinar. (CORTELLA,2014)6 Ao propor a modernização dos métodos para os professores, não estamos afirmando que os mesmos objetos do conhecimento precisam ser explorados usando tecnologia. Não, é necessário que junto com a modernização do ambiente de ensino, também se modernize o modo de ensinar. Não basta ao professor se utilizar de um computador em sala de aula, se o mesmo fará com que seus estudantes pesquisem um texto e o copiem no caderno. É preciso lembrar que muitos dos estudantes que estão sentados na classe, passam a maior parte do seu tempo se aventurando no mundo virtual, pois querendo ou não, os nascidos na era tecnológica, os “nativos digitais”, como são chamados por Prensky (2001), passam grande parte de seu tempo na internet. Como chamar a atenção destes mesmos estudantes munidos somente de giz e um livro didático? A resposta parece simples, utilizando-se da tecnologia digital. Mas mesmo com a popularização da internet, muitos docentes ainda se sentem confortáveis para usar apenas 6 Fala realizada no evento II Encontro de Educação SER da Abril Educação disponível no endereço https://www.youtube.com/watch?v=1Lvl_pG72Vk. Acessado em 27 de setembro de 2020. https://www.youtube.com/watch?v=1Lvl_pG72Vk 10 o livro didático, dentre outros recursos habituais. Ainda que as transformações educacionais tenham ocorrido de uma maneira gradual, muitos educadores e professores não tiveram tempo para se adequar, até mesmo as próprias instituições encontram dificuldades de adentrar no mundo das tecnologias. De acordo com Almeida (2000, p.12) O importante é que o professor tenha oportunidade de reconhecer as potencialidades pedagógicas das TIC’s e então incorporá-las à sua prática. Nem todas as tecnologias que surgirem terão potencial. Outras inicialmente podem não ter, mas depois o quadro muda. Primeiro, é preciso utilizar para si próprio para depois pensar sobre a prática pedagógica e as contribuições que as TIC podem trazer aos processos de aprendizagem. Ainda que as tecnologias digitais encontrem dificuldades para adentrar as salas de aula, as TIC´s estão contempladas na BNCC (Base Nacional Curricular Comum). Em suas dez competências a BNCC, traz duas especificamente relacionadas as tecnologias digitais, sendo a competência 4 – Utilizar diferentes linguagens verbal (oral ou visual- motora, como Libras, e escrita, corporal, visual, sonora e digital, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiências, ideias e sentimentos de diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo; e a competência 5—Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. (BRASIL, 2018, p.9) Essas competências abordam novos meios de comunicação e linguagem, principalmente nesta época em que vivemos uma pandemia. Problema este, que obrigou as escolas a inserirem as tecnologias em seu dia a dia forçadamente. Devido a necessidade de distanciamento social e o fato de ser preciso continuar o ano letivo, grande parte das instituições de ensino passou a organizar aulas remotas. Inicialmente as aulas eram ministradas por algumas escolas em uma plataforma virtual, outras escolas, de acordo com sua realidade optaram por utilizar do aplicativo WhatsApp, outras Google Meet, ou até mesmo o Classroom, e ainda aquelas que recorrem apenas a cópias físicas. Entretanto, como bem sabemos, muitas questões dificultaram o acesso dos estudantes as aulas. Questões como a dificuldade financeira das famílias, acesso à internet limitado ou inexistente, ou até mesmo a dificuldade de alguns professores com tais ferramentas. 11 Sem dúvida, os professores habituados a dar aula de modo tradicional, sem o uso de recursos tecnológicos digitais, não estavam preparados para enfrentar tal situação. Desse modo, os sistemas de educação, sejam eles públicos ou privados, tiveram dificuldades para organizar as aulas remotas. Isso será representado a partir dos resultados da pesquisa realizada com alguns professores dos anos iniciais do ensino fundamental da região da serra gaúcha. 4. Tecnologias digitais e docência: o que dizem os professores Para corroborar o exposto até o momento, a análise que segue foi construída a partir dos dados presentes nas respostas do questionário organizado no Google Forms7 e encaminhado para vários grupos de docentes com a intenção de perceber se o uso das tecnologias digitais potencializou a constituição docente de professores do ensino fundamental em tempos de pandemia. Participaram da pesquisa, vinte e nove professores com idade entre 25 e 50 anos, das redes públicas e privadas de ensino. A pergunta inicial, questionava a respeito do tempo que o docente lecionava, assim, 62,1% dos professores relataram que já trabalham em escola há mais de dezesseis anos, 13,8% trabalham entre onze e quinze anos, 13,8% trabalham de seis a dez anos e somente 10,3% trabalha há menos de seis anos em escola. Na pergunta referente a etapa da educação de cada professor, foi possível observar que 58,6% atuam nos anos finais; 34,5% se responsabilizam pelos anos iniciais do ensino fundamental; 20,7% são professores de educação infantil e 34,5% são professores do ensino médio. Com relação a rede de ensino, o resultado do questionário mostrou que dos 29 professores, 72,4% atuam em escolas públicas, 10,3% em escolas privadas e 17,2% em ambas as redes de ensino. Quando questionados se durante a formação acadêmica tiveram alguma disciplina voltada para o uso das tecnologias digitais em sala de aula; 75,9% dos professores responderam que não; apenas 24,1% registram terem algum estudo referente às TIC`s. A falta de incentivo para o uso das TIC’s ao longo da formação acadêmica se torna visível dentro de suas escolhas para realizar as aulas. Pois, o fato de não ter conhecimento da 7 Serviço gratuito para criar formulários online 12 área, e muitas vezes nem saber como utilizar as ferramentas disponíveis, faz com que seja mais fácil deixar de lado, para que não tenha inseguranças na hora de ensinar. Sobre a formação continuada com foco no uso das tecnologias digitais em sala de aula; 75,9% disseram realizar algum tipo de formação e apenas 24,1% não se sentiram motivados a realizar nenhum tipo de formação continuada que envolvesse TIC`s. Dentre os 75,9% que realizaram algum curso a esse respeito, muitos relatam que foram cursos fornecidos pelos próprios sistemas educacionais, como a SEDUC e a CRE; outros ainda relatam ter Pós-Graduação em mídias na educação, cursos de letramento digital entre outros. Neste ponto é possível perceber que, mesmo não recebendo instruções de uso das tecnologias, alguns professores foram em busca por conta própria, ou até mesmo se propondo a realizar as formações oferecidas pelo sistema de educação. Ao realizar esta busca por aprimoramento, o mesmo docente que anteriormente não utilizava as ferramentas digitais como recurso para as aulas, agora sente-se mais seguro para tal. Pois, a partir deste momento se dispõe a aprender e colocar em prática, assim acaba por resgatar a segurança uma vez perdida pelo medo de não conseguir. Facilitando assim o acesso e desenvolvimento intelectual tanto dele como docente, como de seu estudante. A sexta pergunta buscou saber se os professores precisaram readequar seus planos de aulas e ideias para o mundo virtual, pois, como sabemos 2020 foi um ano atípico devido a pandemia da COVID-19. Muitos destes professores relatam que tiveram diversas dificuldades, a maioria estava acostumada a dar aulas presenciais e não tinha conhecimento do mundo virtual. Sem contar que a maior parte dos planos de aula tiveram de ser adaptados para que os pais pudessem realizar com as crianças em casa. Para Vasconcellos (2002, p. 148) plano de aula é entendido como “uma proposta de trabalho do professor para uma determinada aula ou conjunto de aulas. […]. Corresponde ao nível de maior detalhamento e objetividade do processo de planejamento didático. É a orientação para o que fazer cotidiano”. Alguns destes professores ainda relatam que a transmissão dos conteúdos está ocorrendo via WhatsApp, pois foi a maneira mais encontrada para permitir o acesso dos estudantes as aulas propostas. Esta mudança tornou a vida dos professores mais desafiadora, já que as aulas estão sendo trabalhosas, pois os responsáveis não possuem tempo hábil e formação adequada para acompanhar as aulas propostas. A falta de preparo dos pais, pois entende-se que não tem formação para tal, faz com que ao preparar as aulas, os professores precisem simplificar ao máximo os conteúdos e tornar possível a 13 interpretação dos familiares. Obviamente sabemos que as tecnologias facilitam o acesso a qualquer tipo de informação, mas isso não significa que o computador gerará uma resposta que, quem sabe o estudante pudesse receber em sala de aula de seu professor ou ser orientado a buscar respostas. Sabemos que a tecnologia aumenta o poder intelectual de quem as utiliza, mas isso não torna o professor substituível. Por outro lado, a narrativa8 que segue mostra a percepção deste docente com relação a continuidade do uso das tecnologias digitais em seu fazer pedagógico, bem como a necessidade de ampliar seus conhecimentos acerca deste recurso. No início da pandemia foi complicado, pois estávamos acostumados a dar aulas presenciais e daí mudar para o ensino digital não foi fácil, agora já estamos habituados e sabemos que o ensino digital veio para ficar, então temos que nos aperfeiçoar cada vez mais. Gatti (2009) ao mencionar as diversas modalidades de ensino, destaca que o professor é importante desde a criação/produção/revisão/ recomposição de materiais didáticos, até mesmo no contato com os estudantess, seja esse contato, direto ou indiretamente. A questão do dialogo neste sentido, se faz mais presente, professor e estudante necessitam de mais comunicação para chegar a um objetivo em comum. É preciso reconsiderar a ideia do fazer pelo fazer, deve ser um trabalho pensado e dedicado ao estudante. Se antes era possível ir à sala de aula sem planejamento, hoje com a questão do distanciamento isso não se aplica. Tudo precisa ser planejado nos mínimos detalhes pensando sempre em alcançar um objetivo em específico, que é o aprendizado. Nesta outra narrativa, podemos notar a dificuldade enfrentada para alcançar os objetivos de trabalho. Na rede pública onde trabalho, estamos enviando o plano de aula por linha de transmissão no Whatsapp e os materiais e recursos necessários para realização das aulas são confeccionados pelas professoras e entregues ao pais semanalmente. Está sendo desafiador, já que a aula está sendo ministrada pelos pais e/ou responsáveis que não possuem tempo hábil e formação necessária para aplicação eficaz do planejamento, tornando deficiente o alcance dos objetivos propostos. Com a sétima pergunta, tínhamos o interesse em saber se os professores pensavam que utilizando as tecnologias digitais, seriam dispensáveis no processo de ensino e aprendizagem. As respostas foram surpreendentes, pois 100% dos entrevistados responderam que não, que o docente não é substituível. Todos frisaram a necessidade do 8 As narrativas em itálico são excertos das respostas dos docentes ao questionário. 14 professor ser um mediador do conhecimento, como mostra a resposta de uma das professoras. As crianças precisam de alguém para guiá-las, e para isso são os professores, ajudar no processo de aprendizagem. As tecnologias vieram para auxiliar ainda mais esse processo. O professor é estímulo e referência para os estudantes, as tecnologias digitais se tornaram um instrumento necessário e para a mediação da aprendizagem, mas isso não significa a substituição do docente. Segundo Gatti (2009, p.164), “o professor não é descartável, nem substituível, pois, quando bem formado, ele detém um saber que alia conhecimento e conteúdo à didática e às condições de aprendizagem para segmentos diferenciados.” Ademais, sabemos que é necessário alguém que faça a mediação para a dúvida, e o professor é quem pode realizar essa ação. A maioria das respostas indica o professor como medidor e ao permitir o acesso de seus estudantes aos meios digitais em suas aulas. Permite ao mesmo tempo em que demonstra estar ligado ao desenvolvimento das coisas do mundo. Permite que seu estudante tenha outros meios de pesquisa além do livro didático. Permite a posse de saberes que não seriam alcançados sem essa interação. Quando questionado se não tivessem vivenciando um momento de pandemia e não existisse a necessidade de distanciamento social, se utilizariam as tecnologias em seu dia a dia os professores responderam que as TIC’s são importantes. 55,2% dizem que usariam as tecnologias independente do momento de distanciamento social imposto pela pandemia; já 44,8% dizem que não fariam uso das tecnologias, por nunca terem utilizado ou por acreditar que os livros de didático são suficientes para o aprendizado. Mesmo que os sistemas educacionais mostrem que a inserção da tecnologia só traz benefícios, alguns professores ainda persistem em dizer que não sentem a necessidade de utilizá-las. A narrativa, porque a tecnologia, tira muito a atenção dos estudantes em sala de aula, mostra a realidade que, para alguns docentes, apenas giz e cadernos são suficientes. A partir disso, percebemos que a concepção de ensino tradicional ainda está muito arraigada em alguns docentes, além do distanciamento do uso das tecnologias digitais. Podemos pensar que estes professores que não pretendiam utilizar tecnologias, sentem que podem perder o controle dos seus estudantes, ou até mesmo que ele deixe de 15 ser o centro do saber e passe a ser somente um auxiliar na aprendizagem. O que nos faz pensar se ao longo desta jornada de aulas virtuais eles possam mudar tal entendimento. A última pergunta inquiria se a utilização das TIC’s contribuiu ou contribui para sua constituição docente. Os resultados mostraram que 93,1% acredita que sim, que sentiu avanços em seu aprendizado, pois descobriram novas formas de ensinar, e perceberam que nem sempre é necessário estar junto fisicamente para que ela ocorra. 6,9% disseram que não houve mudança e nem acréscimo na sua atuação docente, que não acreditam ser possível a aprendizagem desta maneira. O aperfeiçoamento como docente possibilitou novas oportunidades de aprendizagem, como mostra a narrativa que segue. No meu caso sempre contribuiu, até mesmo porque sempre a mesma aula as crianças não gostam, elas acham chato. Vários dos entrevistados mencionam que descobriram novas formas de organizar suas aulas. Já outros não reconhecem acréscimo em sua vivência docente e sugerem que muitas vezes o próprio local de trabalho não fornece equipamento necessário, por isso, acham desnecessário o aprimoramento das TIC’s. Embora os docentes que responderam o questionário tenham admitido que foi um grande desafio a obrigatoriedade no uso das TIC’s, a maioria admite que foi de grande acréscimo na sua constituição como docente, que foi neste momento de necessidade extrema que pode perceber que ao permitir-se, também pode permitir ao estudante desvendar respostas que não seriam possíveis apenas nos livros e descobrir caminhos indecifráveis mesmo com os melhores mapas. Considerações finais Ao tratarmos de tecnologias digitais e educação adentramos em um ambiente rodeado de grandes tabus. Muitos deles já conhecidos, tais como, o distanciamento da atenção do estudante, a substituição de um professor por uma máquina, a necessidade de aprimoramento docente, entre outras. Esta pesquisa surgiu com a intenção de compreender se o uso das tecnologias digitais potencializa a constituição docente de professores do ensino fundamental em tempos de pandemia causada pelo surgimento da Covid-19. Percebemos que sem o docente o 16 trabalho não teria um objetivo específico, isto é, o docente é a alma do ensino, sem ele o ensino estaria incompleto. Nós estudantes ainda necessitamos de alguém que nos instigue a continuar, a não parar quando enfrentamos um obstáculo. E somente o docente tem esse poder. Saber utilizar a tecnologia nas aulas, requer muito jogo de cintura, pois é necessário pensar que nem todos os estudantes podem saber utilizá-la, ou que um estudante pode demonstrar mais conhecimento que o professor. Por isso as tecnologias digitais e docência se complementam, mas é preciso que se compreenda o papel de cada uma no processo de ensino e aprendizagem. Quando isso acontecer tanto professor como estudante serão contemplados. Em suma, este não é um tema esgotado, ainda serão possíveis mais pesquisas, pois como sabemos tudo se renova e modifica, então quem sabe, mais adiante não conseguiremos adentrar num mundo onde educação e tecnologia andem muito mais próximas. Referências ALMEIDA, Maria Elizabeth Bianconcini de. A tecnologia precisa estar na sala de aula. Revista nova escola. São Paulo: Ed. Abril, Jun./Jul. 2010. ANDRADE, Ana Paula Rocha de. Uso das tecnologias na educação: computador e internet. (Monografia) Universidade Estadual de Goiás. Brasília, 2011. 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