UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL ÁREA DO CONHECIMENTO DE CIÊNCIAS DA VIDA MEDICINA VETERINÁRIA LETÍCIA FIORESE RELATÓRIO DE ESTÁGIO CURRICULAR OBRIGATÓRIO: ÁREA DE CLÍNICA MÉDICA E CIRÚRGICA DE PEQUENOS ANIMAIS CAXIAS DO SUL 2024 LETÍCIA FIORESE RELATÓRIO DE ESTÁGIO CURRICULAR OBRIGATÓRIO: ÁREA DE CLÍNICA MÉDICA E CIRÚRGICA DE PEQUENOS ANIMAIS Relatório de Estágio Curricular Obrigatório apresentado ao Curso de Medicina Veterinária da Universidade de Caxias do Sul (UCS) como requisito parcial para a obtenção do Título de Médico Veterinário. Orientadora: Profa. Dra. Karina Affeldt Guterres Supervisora: Médica Veterinária MSc Aline Fantinel Pazzin CAXIAS DO SUL 2024 LETÍCIA FIORESE RELATÓRIO DE ESTÁGIO CURRICULAR OBRIGATÓRIO: ÁREA DE CLÍNICA MÉDICA E CIRÚRGICA DE PEQUENOS ANIMAIS Relatório de Estágio Curricular Obrigatório apresentado ao Curso de Medicina Veterinária da Universidade de Caxias do Sul (UCS) como requisito parcial para a obtenção do Título de Médico Veterinário. Orientadora: Profa. Dra. Karina Affeldt Guterres Supervisora: Médica Veterinária MSc Aline Fantinel Pazzin APROVADA EM 27/06/2024 Banca examinadora __________________________________ Profa. Dra. Karina Affeldt Guterres (Orientadora) Universidade de Caxias do Sul – UCS __________________________________ Prof. Msc Dimas Dal Magro Ribeiro (Avaliador) Universidade de Caxias do Sul – UCS __________________________________ Médico Veterinário Gabriel Fiamenghi (Avaliador) Universidade de Caxias do Sul – UCS Dedico este trabalho à toda minha família, em especial ao meu falecido tio Oneide da Costa Fiorese e à minha falecida mãe Lorena Fiorese, meus maiores exemplos de força e determinação. AGRADECIMENTOS Primeiramente, não poderia iniciar os agradecimentos de outra forma que não, agradecendo meus pais Sérgio e Marilza, pela oportunidade, pelo apoio de sempre, o imensurável amor que sempre recebi, fora os incontáveis momentos de acolhimento quando tudo parecia impossível, sem eles, nada disso seria possível. À minha falecida mãe, Lorena Fiorese, apesar de não estar mais aqui, seu legado permanece em cada sorriso que compartilho, à quem sempre foi a minha maior admiradora e à quem irei sempre ser grata por ter me dado a maior riqueza, a vida, sinto muito orgulho pela sua passagem na Terra. Ao meu falecido tio, Oneide, meu maior símbolo de força e com certeza meu maior exemplo de humildade e bondade, que eu possa ser 1/3 do que você foi aqui na Terra, ainda assim, será muito, agradeço muito por ter tido a oportunidade de viver contigo. À minha dinda, Leda, quem sempre me apoiou em todas escolhas, sempre esteve ao meu lado, é meu símbolo de dedicação, ter você na vida é ter a certeza de que nunca estarei sozinha. Aos meus irmãos, Manuela e Maicon, gratidão por ter vocês na minha vida, apesar das brigas, nossa amizade sempre cresceu cada dia mais, vocês são meu símbolo de respeito e parceria. Ao meu namorado Rubens, obrigada pelo apoio diário e por nunca deixar de acreditar em mim, saiba que você é inspiração pra mim e tenho muito orgulho de você. Agradeço por deixar meus dias mais felizes todos os dias e por compartilhar a vida comigo de maneira leve e sorridente. Às minhas melhores amigas, Kahena, Alana e Milena, por estarem junto comigo todos esses anos e serem ouvido quando mais precisei e nunca hesitaram em me ajudar. Além de deixarem tudo mais leve e otimista. À toda equipe da veterinária Pio X, onde trabalhei durante três anos, se não fosse vocês, eu com certeza não seria o que sou hoje, todo aprendizado eu devo a vocês, além do crescimento profissional, me ensinaram a crescer como pessoa. Em especial às pessoas que se tornaram amigas, Júlia, Cintia, Letícia, Ana Paula, Suelin e Maria Luiza. Ao médico veterinário Alejandro, obrigada por todo apoio, por compartilhar teu conhecimento comigo e por ser uma grande inspiração para mim, a cirurgia é uma arte e você com certeza é um grande artista. À toda equipe do Hospital Veterinário Vettie, onde fui muito bem recebida por todos, durante meu estágio curricular obrigatório, cresci e evolui muito como profissional e como pessoa. Além de ter sido minha segunda casa e ter feito amizades com pessoas maravilhosas. Ao meu cachorro, Floki, meu companheiro diário, que nos momentos difíceis sempre me deu carinho e afeto. Quem me inspira a ser uma veterinária melhor todos os dias para nunca faltar nada para esses seres que não podem falar. À minha orientadora, Karina, por toda paciência e ajuda durante este período difícil do estágio obrigatório, além de todos ensinamentos durante a graduação. Você é uma excelente pessoa e profissional. Por último, mas não menos importante, agradeço ao Universo, por tudo ter ocorrido no seu tempo, da maneira que deveria, imensa gratidão. RESUMO O estágio curricular obrigatório foi realizado na área de clínica médica e cirúrgica de pequenos animais, no Hospital Veterinário Vettie, localizado em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, sob supervisão da Médica Veterinária MSc Aline Fantinel Pazzim e orientado pela Professora Dra. Karina Affeldt Guterres. O estágio curricular ocorreu durante o período de 04 de Março a 07 de Junho de 2024, de segunda à sexta, correspondendo à 6 horas diárias, 30 horas semanais, totalizando 420 horas. O presente relatório tem como objetivo descrever as atividades desenvolvidas, o local, infraestrutura, equipe de trabalho, casuística e por fim, dois casos clínicos, sendo um de Torção Vólvulo Gástrica secundária à leiomiosarcoma antropilórico em um cão da raça Shih-tzu e outro de Síndrome de Pandora em um felino, SRD. Na clínica médica foram acompanhados 243 atendimentos, sendo a espécie canina, a mais atendida (73%). Na clínica cirúrgica foram acompanhados 12 procedimentos, a espécie canina, novamente com maior casuística (75%). Além disso os atendimentos foram separados por afecções, sendo digestório e glândulas anexas, geniturinário, neurológico e tegumentar e anexos, os mais acometidos. Palavras-chave: torção vólvulo gástrica; Síndrome de Pandora; casuística; afecções. LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Imagem externa Hospital Veterinário Vettie 24 horas Figura 2 - Infraestrutura Hospital Veterinário Vettie. A) e B) Recepção e sala de espera Figura 3 - Infraestrutura Hospital Veterinário Vettie. A) Sala de Emergência B) Consultório C) Consultório Felinos Figura 4 - Infraestrutura Hospital Veterinário Vettie. A) Sala de ultrassom B) Sala de Raio X C) Sala de exames complementares Figura 5 – Infraestrutura Hospital Veterinário Vettie. A) Isolamento B) Sala de preparação para Isolamento Figura 6 – Infraestrutura Hospital Veterinário Vettie. A) Internação cães B) Internação gatos C) UTI D) Área externa Figura 7 - Infraestrutura Hospital Veterinário Vettie. A) Bloco cirúrgico de procedimentos limpos B) Bloco cirúrgico de procedimentos contaminados Figura 8 – Infraestrutura Hospital Veterinário Vettie. A) Segundo pavimento do Hospital Veterinário Vettie B) e C) Sala de reuniões/fisioterapia Figura 9 – Radiografia abdominal confirmando torção vólvulo gástrica A) Projeção ventro-dorsal (seta) B) Projeção latero-lateral esquerda (seta) C) Projeção latero- lateral direita (seta) Figura 10 – Imagens ultrassonográficas abdômen A) Vesícula urinária medindo 0,34 cm de espessura (seta) B) Uretra Proximal com dois pontos hiperecogênicos (seta) Figura 11 – Teste rápido para FIV/FeLV LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Procedimentos acompanhados/realizados no período de estágio curricular no Hospital veterinário Vettie, na área de clínica médica e cirúrgica de cães e gatos .................................................................................................................................................... 22 Tabela 2 - Casuística clínica acompanhada em cães e gatos no Hospital Veterinário Vettie, de acordo com o sistema, durante o período de estágio curricular obrigatório .................................................................................................................................................... 23 Tabela 3 - Afecções do Sistema Digestório e glândulas anexas acompanhadas durante o período de estágio curricular no Hospital Veterinário Vettie ................................................................... 24 Tabela 4 – Afecções do Sistema Geniturinário acompanhadas durante o período de estágio curricular no Hospital Veterinário Vettie ................................................................................... 25 Tabela 5 – Afecções do Sistema Nervoso acompanhadas durante o período de estágio curricular no Hospital Veterinário Vettie .................................................................................................... 26 Tabela 6 – Afecções do Sistema Tegumentar e anexos acompanhadas durante o período de estágio curricular no Hospital Veterinário Vettie ....................................................................... 27 Tabela 7 – Afecções do Sistema Musculoesquelético acompanhadas durante o período de estágio curricular no Hospital Veterinário Vettie ................................................................................... 28 Tabela 8 – Afecções do Sistema Oftálmico acompanhadas durante o período de estágio curricular no Hospital Veterinário Vettie .................................................................................................... 29 Tabela 9 – Afecções Infectocontagiosas acompanhadas durante o período de estágio curricular no Hospital Veterinário Vettie .................................................................................................... 29 Tabela 10 – Procedimentos cirúrgicos acompanhados durante o estágio curricular obrigatório no Hospital Veterinário Vettie ......................................................................................................... 31 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 – Casuística de animais acompanhados, separados por espécie durante o período do estágio curricular obrigatório no Hospital Veterinário Vettie. Gráfico 2 - Casuística de animais acompanhados, separados por sexo durante o período do estágio curricular obrigatório no Hospital Veterinário Vettie. Gráfico 3 – Casuística das espécies acompanhadas em procedimentos cirúrgicos no Hospital Veterinário Vettie. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ALT Alanina aminotransferase AST Aspartato aminotransferase BID Duas vezes ao dia CIF Cistite idiopática felina Dra Doutora DTUIF Doença do trato urinário inferior dos felinos DVG Dilatação vólvulo gástrica FA Fosfatase alcalina FeLV Leucemia viral felina FIV Vírus da imunodeficiência felina HV Hospital Veterinário MSc Master of Science PIF Peritonite Infecciosa Felina QID Quatro vezes ao dia SID Uma vez ao dia SP Síndrome de Pandora TID Três vezes ao dia UTI Unidade de terapia intensiva SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO …….......…………………………………………............................. 14 2 DESCRIÇÃO DO LOCAL DE ESTÁGIO ................................................................. 15 2.1 HOSPITAL VETERINÁRIO VETTIE .......................................................................... 15 3 ATIVIDADES DESENVOLVIDAS .................................................................................... 21 3.1 CASUÍSTICAS ................................................................................................................... 22 3.1.1 Procedimentos acompanhados e/ou realizados ............................................................ 22 3.2 Casuística clínica ............................................................................................................... 23 3.2.1 Afecções do Sistema Digestório e glândulas anexas .................................................... 24 3.2.2 Afecções do Sistema Geniturinário ............................................................................... 25 3.2.3 Afecções do Sistema Nervoso ......................................................................................... 26 3.2.4 Afecções do Sistema Tegumentar e anexos .................................................................. 27 3.2.5 Afecções do Sistema Musculoesquelético ..................................................................... 28 3.2.6 Afecções do Sistema Oftálmico ...................................................................................... 29 3.2.7 Afecções Infectocontagiosas ........................................................................................... 29 3.2.8 Afecções do Sistema Respiratório, Cardiovascular e Endócrino ............................... 30 3.3 Casuística cirúrgica ........................................................................................................... 30 4 RELATOS DE CASO .......................................................................................................... 31 4.1 TORÇÃO VÓLVULO GÁSTRICA SECUNDÁRIA A LEIOMIOSARCOMA ANTROPILÓRICO, EM CANINO .......................................................................................... 32 4.1.1 Introdução ....................................................................................................................... 32 4.1.2 Relato de caso ................................................................................................................. 33 4.1.3 Discussão ......................................................................................................................... 35 4.1.4 Conclusão ........................................................................................................................ 39 4.2 SÍNDROME DE PANDORA EM UM FELINO ................................................................ 39 4.2.1 Introdução ....................................................................................................................... 39 4.2.2 Relato de caso 2 ............................................................................................................... 40 4.2.3 Discussão ......................................................................................................................... 42 4.2.4 Conclusão ..................................................................................................................... 44 REFERÊNCIAS ...................................................................................................................... 45 ANEXOS .................................................................................................................................. 61 14 1- INTRODUÇÃO O estágio curricular obrigatório faz parte do último semestre do acadêmico de Medicina Veterinária, é nele que se tem a oportunidade de escolher um local em que possa adquirir mais experiência na área de interesse, colocando-se em prática toda a teoria vista durante a graduação, aprimorando ainda mais o conhecimento e as técnicas adquiridas ao longo da graduação. O estágio foi realizado no Hospital Veterinário Vettie, localizado em Porto Alegre – RS, sendo o local escolhido por ser um hospital referência em intensivismo e destaque pela rotina clínica e cirúrgica. Foi orientado pela Profa. Dra. Karina Affelldt Guterres e supervisionado pela Médica Veterinária Mestre Aline Fantinel Pazzim, ocorrendo durante o período de 04 de março a 07 de junho de 2024, contabilizando 6 horas diárias, totalizando 420 horas. O estágio foi realizado na área de clínica médica e cirúrgica de pequenos animais, escolha essa, devido à sua importância na medicina veterinária, afinidade e desejo de atuação. O presente relatório tem como objetivo relatar a casuística, atividades acompanhadas, descrever a infraestrutura do local, serviços prestados, equipe de trabalho e dois casos importantes acompanhados durante período de estágio. O primeiro caso foi uma torção vólvulo gástrica em um canino, Shih-tzu, macho, 13 anos de idade e o segundo relato foi síndrome de Pandora em um felino, sem raça definida, fêmea, 2 anos de idade. 15 2 DESCRIÇÃO DO LOCAL DE ESTÁGIO 2.1 HOSPITAL VETERINÁRIO VETTIE 24H O estágio curricular obrigatório foi realizado no Hospital Veterinário Vettie (Figura 1), localizado na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, na rua Dom Luiz Ganella, 341, bairro Vila Ipiranga. Figura 1 – Imagem externa Hospital Veterinário Vettie 24 horas Fonte: Hospital Veterinário Vettie (2024) O Hospital Veterinário Vettie possuía atendimento clínico e de emergência, de segunda a sexta-feira das 08h às 21h, aos sábados das 08h às 18h e aos domingos das 09h às 17h sendo estes horários considerados comerciais e os demais horários regime de plantão. Dentre os integrantes da equipe estavam três veterinárias clínicas gerais, duas médicas veterinárias clínicas responsáveis pela internação que alternavam os turnos entre manhã e tarde, dois médicos veterinários especializados em diagnóstico por imagem, alternavam entre manhã e tarde, além de médicos veterinários plantonistas que trabalhavam em sistema de revezamento. Além destes, a equipe era contemplada por dois auxiliares veterinários, um no turno da manhã e outro à tarde, dois estagiários extracurriculares e onze estagiários curriculares, divididos por turnos, quatro auxiliares de limpeza, quatro responsáveis pela administração e quatro recepcionistas, alternavam os horários em turnos, manhã e tarde. O hospital possuía atendimento 16 com diversos médicos veterinários especializados volantes, sob agendamento prévio, contemplando as áreas de, oncologia, endocrinologia, nefrologia, anestesiologia, odontologia, gastroenterologia, ortopedia, urologia, dermatologia, cardiologia, além de cirurgia geral. A infraestrutura contava com dois pavimentos, sendo que, no primeiro pavimento havia a recepção, onde os animais e os tutores aguardavam atendimento (Figura 2A e B), possuía também consultório de cães, consultório de gatos, consultório para especialidades, consultório extra, sala de emergência, sala de exames laboratoriais, sala de ultrassom, sala de raio X, dois blocos cirúrgicos, lavanderia, farmácia interna, almoxarifado, internação, unidade de terapia intensiva (UTI) e isolamento para animais com doenças infectocontagiosas. No segundo pavimento havia a cozinha, dormitório para plantonistas, dois sanitários, um vestiário, uma sala da administração e sala para realização de fisioterapias e reuniões. Figura 2 – Infraestrutura Hospital Veterinário Vettie – A) Recepção e B) Sala de espera. Fonte: Hospital Veterinário Vettie (2024). Logo na entrada, após a recepção, ao lado direito havia a sala de emergência (Figura 3A), onde havia uma mesa, aparelho de ultrassonografia, glicosímetro, doppler, laringoscópio, tubos endotraqueais, desfibrilador, monitor portátil, oxigênio e medicamentos de emergência. As consultas clínicas eram realizadas em dois consultórios, um para cães (Figuras 3 B) e um para felinos (Figura 3 C), um para atendimento de especialidades e um consultório extra. Figura 3 - Infraestrutura Hospital Veterinário Vettie. A) Sala de Emergência, B) Consultório Cães, C) Consultório Felinos. A B 17 Fonte: Hospital Veterinário Vettie (2024) Ainda no primeiro pavimento, havia também sala do ultrassom (Figura 4 A), sala para raio X (Figura 4 B), sendo ambos realizados e interpretados, por médicos veterinários e sala de exames complementares (Figura 4 C), havia aparelhos para a realização de hemograma e avaliação bioquímica dos pacientes, auxiliando na agilidade do atendimento. Havia ainda neste pavimento, área de serviços de limpeza, máquinas de lavar e freezer para cadáveres que aguardavam o recolhimento da empresa responsável. A B C 18 Figura 4 - Infraestrutura Hospital Veterinário Vettie. A) Sala de ultrassom, B) Sala de Raio X, C) Sala de exames complementares. Fonte: Hospital Veterinário Vettie (2024) O isolamento (Figura 5A) era a área no qual ficavam internados animais com doenças infectocontagiosas, tais como, esporotricose, parvovirose, cinomose, rinotraqueíte infecciosa felina, coronavirose canina, quando caninos estavam internados no isolamento, felinos não poderiam internar e vice-versa, contava com 3 leitos. Logo antes da entrada do isolamento havia uma pequena sala para se colocar os equipamentos de proteção individual visando a manipulação dos pacientes internados neste setor (Figura 5B). Figura 5 – Infraestrutura Hospital Veterinário Vettie. A) Isolamento, B) Sala de preparação para isolamento. A B C 19 Fonte: Hospital Veterinário Vettie (2024) A internação era dividida em três ambientes, um para cães (Figura 6A), com dez leitos, um para gatos (Figura 6B), com oito leitos e uma unidade de terapia intensiva (UTI) (Figura 6C), com dois berços, aparelho de ultrassom, doppler, ventilador mecânico, oxigênio, medicamentos de emergência e materiais para emergência. Nos ambientes de cães e gatos havia mesa, materiais de higiene, alimentos, pia para lavagem dos utensílios, todos os materiais necessários para a rotina e uma área externa (Figura 6D) para passeios dos pacientes internados. Figura 6 – Infraestrutura Hospital Veterinário Vettie. A) Internação cães, B) Internação gatos, C) UTI, D) Área externa. A B A 20 Fonte: Hospital Veterinário Vettie (2024). Em frente à internação haviam os blocos cirúrgicos, um bloco para procedimentos limpos (Figura 7 A) e outro para procedimentos contaminados (Figura 7 B), ainda no primeiro pavimento, possuía a sala de esterilização e lavagem dos materiais cirúrgicos. Figura 7 - Infraestrutura Hospital Veterinário Vettie. A) Bloco cirúrgico procedimentos limpos, B) Bloco cirúrgico procedimentos contaminados. Fonte: Hospital Veterinário Vettie (2024) No segundo pavimento (Figura 8A), estava localizada a cozinha, o vestiário, dormitório dos plantonistas, os sanitários, a sala de administração e uma sala para reuniões (Figura 8B), onde também era realizado fisioterapia, no qual os tutores podiam acompanhar. B C D A B 21 Figura 8 – Infraestrutura Hospital Veterinário Vettie. A) Segundo pavimento do Hospital Veterinário Vettie, B e C) Sala de reuniões/fisioterapia Fonte: Arquivo pessoal (2024) Fonte: Hospital Veterinário Vettie (2024) Fonte: Hospital Veterinário Vettie (2024) 3 ATIVIDADES DESENVOLVIDAS O estágio curricular se deu no período de 04 de março até 07 de junho de 2024, de segunda-feira à sexta-feira, das 07:30h até 13:30h, totalizando 30 horas semanais. Neste período, as atividades desenvolvidas (tabela 1) foram principalmente, acompanhar a rotina clínica e cirúrgica, como consultas e procedimentos cirúrgicos, por serem as áreas de escolha. O estagiário curricular tinha tarefas a serem desenvolvidas, tais elas, auxílio na contenção dos animais durante o exame físico, coleta de material biológico, acesso venoso, aplicação de medicação, limpeza e higiene dos animais internados e suas baias. Na internação, o estagiário tinha a função de avaliar os parâmetros vitais dos animais internados, aplicar medicações, atualizar os parâmetros clínicos A B C 22 e observações no sistema de uso do hospital, contenção dos animais para coleta de material biológico e acesso venoso, fornecer alimentação e água aos pacientes e higienização dos pacientes e baias. 3.1 CASUÍSTICAS 3.1.1 Procedimentos acompanhados e/ou realizados Os procedimentos ambulatoriais acompanhados e/ou realizados durante o estágio curricular no Hospital Veterinário Vettie estão descritos na tabela 1, sendo 730 procedimentos no total. O procedimento mais realizado foi a aplicação de medicação, em seguida coleta de sangue e acesso venoso, respectivamente. Tabela 1 – Procedimentos acompanhados e/ou realizados durante o período de estágio no Hospital Veterinário Vettie. Procedimentos/Exames Total (n) Total (%) Aplicação de medicação 378 51,78% Coleta de sangue 73 10% Acesso venoso 46 6,3% Aferição de glicemia 36 4,93% Ultrassonografia abdominal 34 4,65% Limpeza de ferida 21 2,87% Radiografia 14 1,91% Aferição de lactato 13 1,78% Sondagem nasogástrica 12 1,64% Toracocentese 11 1,5% Fluidoterapia Subcutânea 10 1,36% Cistocentese guiada por Ultrassom 9 1,23% Prova de carga 8 1,09% Teste de fluoresceína 8 1,09% Imunização 8 1,09% Limpeza de miíase 8 1,09% Eutanásia 7 0,95% Intubação orotraqueal 6 0,82% Retirada de pontos 6 0,82% Teste rápido FIV e FeLV 5 0,68% Curativo 5 0,68% 23 Reanimação cardiorrespiratória 4 0,54% Transfusão sanguínea 4 0,54% Abdominocentese 3 0,41% Drenagem de otohematoma 1 0,13% Total 730 100% 3.2 Casuística clínica No período do estágio curricular, foram acompanhados 243 atendimentos clínicos, sendo 175 cães e 68 gatos. Em relação ao sexo dos animais, 124 foram machos e 119 fêmeas (Gráfico 1). Gráfico 1 – Casuística de animais acompanhados, separados por espécie durante o período do estágio curricular obrigatório no Hospital Veterinário Vettie. Fonte: Letícia Fiorese (2024) Gráfico 2 – Casuística de animais acompanhados, separados por sexo durante o período do estágio curricular obrigatório no Hospital Veterinário Vettie. Fonte: Letícia Fiorese (2024) Conforme a casuística acompanhada (tabela 2), as afecções do sistema digestório e órgãos anexos, predominaram, com 37,9% dos casos (n=63), em seguida o sistema geniturinário com 72% 28% Espécie Caninos Felinos 51%49% Sexo Machos Fêmeas 24 18,6% (n=31) e depois o sistema neurológico com 10,24% (n=17). A casuística de cães e gatos foi dividida conforme o grupo de afecção diagnosticado, sendo que o mesmo paciente poderia ter mais de um diagnóstico. Tabela 2 – Casuística de afecções acompanhas durante o período de estágio no Hospital Veterinário Vettie Afecções Caninos Felinos Total (n) Total (%) Digestórias e glândulas anexas 55 8 63 37,9% Geniturinárias 20 11 31 18,6% Neurológicas 16 1 17 10,24% Tegumentares e anexos 15 2 17 10,24% Musculoesquelético 10 3 13 7,83% Oftálmicas 8 2 10 6,02% Infectocontagiosas 6 4 10 6,02% Respiratórias 2 - 2 1,2% Cardiovasculares 2 - 2 1,2% Endócrinas 1 - 1 0,6% Total 135 31 166 100% Fonte: Letícia Fiorese (2024). 3.2.1 Afecções do Sistema Digestório e glândulas anexas As afecções do sistema digestório e glândulas anexas foram as mais acompanhadas durante o período de estágio, conforme tabela 3. A patologia mais descrita foi a gastroenterite alimentar com 17,46% (n=11). A gastroenterite alimentar é a inflamação da mucosa do trato digestivo, sendo, estômago e intestinos, caracterizada pelo aparecimento de vómito e diarreia (Lawrence & Lidbury, 2015). Os sinais clínicos, em sua são inespecíficos. O vômito e diarreia podem estar associados a alterações primitivas do trato gastrointestinal, ou podem ser secundários a doenças em outros órgãos, nomeadamente, pancreatite, doenças endócrinas, doença renal aguda ou hepatite aguda (Lawrence & Lidbury, 2015; Marks, 2013; Simpson, 2005). Grande parte das intolerâncias alimentares estão relacionadas com a presença de aditivos nos alimentos (Cave, 2013a). Muitas vezes, o diagnóstico não é definitivo, por ser agudo e autolimitante, além dos sinais clínicos desaparecerem após instituir tratamento sintomático. 25 Ultrassom abdominal é um exame de grande importância nesta afecção (Côté, 2015; Lawrence & Lidbury, 2015). O tratamento consiste na administração de fármacos antieméticos, antiulcerosos, que visam o término da diarreia, adaptação da dieta e fluidoterapia (Lawrence & Lidbury, 2015; Papich, 2018). Tabela 3 – Afecções do sistema digestório e glândulas anexas acompanhadas durante o período de estágio curricular no Hospital Veterinário Vettie Afecções do sistema digestório e glândulas anexas Caninos Felinos Total (n/%) Gastroenterite alimentar ¹,² 11 - 11/17,46% Corpo estranho gástrico ¹,² 7 - 7/11,11% Pancreatite aguda ¹,²,3 7 - 7/11,11% Gastrite Alimentar ¹,² 7 - 7/11,11% Enterite hemorrágica ¹,² 6 - 6/9,52% Intoxicação alimentar ¹,² 6 - 6/9,52% Tríade felina ¹,² - 4 4/6,34% Doença periodontal ¹ 2 2 4/6,34% Doença inflamatória intestinal ¹,²,³ 1 2 3/4,76% Torção gástrica ¹,² 2 - 2/3,17% Hipersensibilidade alimentar ¹,³ 2 - 2/3,17% Linfagiectasia ¹,²,³ 2 - 2/3,17% Parasitismo intestinal ¹,³ 1 - 1/1,58% Leiomiossarcoma antropilórico 1 - 1/1,58% Total 55 8 63/100% ¹ Diagnóstico baseado na anamnese e exame clínico ² Diagnóstico baseado na ultrassonografia abdominal ³ Diagnóstico presuntivo Fonte: Letícia Fiorese (2024) 3.2.2 Afecções do Sistema Geniturinário O segundo sistema mais acometido, foi o geniturinário, conforme descrito abaixo (tabela 4). A patologia mais observada foi a doença renal crônica correspondendo a 38,7% (n=12). A doença renal crônica é definida pela presença de lesão renal persistente pelo período mínimo de três meses, caracterizada pela perda definitiva e irreversível de massa funcional e/ou estrutural de um ou de ambos os rins, e pode-se observar redução da taxa de filtração glomerular de até 50% em relação ao seu normal (POLZIN et al., 2005; POLZIN, 2008). O diagnóstico da 26 DRC é através da anamnese, exame físico e nos achados laboratoriais (SANDERSON, 2009) e, ainda, pela presença de lesões estruturais nos rins (biópsia e/ou exames de imagem) (POLZIN et al., 2005). Saber o estágio da doença é de suma importância para se estabelecer condutas terapêuticas, a fim de melhorar a qualidade de vida, retardar a progressão da doença, aumentar a expectativa de vida e reduzir as complicações inerentes a sua evolução (POLZIN et al., 2009). Tabela 4 – Afecções do sistema geniturinário acompanhadas durante o período de estágio curricular no Hospital Veterinário Vettie Afecções do sistema Geniturinário Caninos Felinos Total (n/%) Doença renal crônica ¹,²,³ 8 4 12/38.7% Cistite bacteriana ¹,²,³ 5 - 5/16.12% Doença do trato urinário inferior ¹,³ 1 3 4/12.9% Ureterolitíase ¹,³ 3 - 3/9.67% Síndrome de pandora ¹,²,³ - 3 3/9.67% Urolitíase ³ 2 - 2/6.45% Cisto renal ³ 1 - 1/3.22% Neoplasia renal ³ - 1 1/3.22% Total 20 11 31/100% ¹ Diagnóstico baseado na anamnese e exame clínico ² Diagnóstico baseado em exames laboratoriais ³ Diagnóstico baseado na ultrassonografia abdominal Fonte: Letícia Fiorese (2024) 3.2.3 Afecções do Sistema Nervoso O terceiro mais acometido foi o sistema nervoso, conforme descrito abaixo, na tabela 5. A patologia mais acometida foi a doença do disco intervertebral correspondendo a 41,17% (n=7). A doença do disco intervertebral é uma condição neurológica comum em cães (Fluehmann et al. 2006, Ingram et al. 2013). A extrusão do disco intervertebral (Hansen tipo I) ou a protrusão do disco intervertebral (Hansen tipo II) pode resultar em compressão da medula espinhal, seguindo de compressão da medula espinhal, protrusão mais frequente que a extrusão na região cervical (Cherrone et al. 2004) A hiperestesia espinhal é o sinal clínico mais relatado (Dallman et al. 1992, Cherrone et al. 2004, Ryan e outros. 2008, Santini 2010). Além de sinais como, ataxia proprioceptiva de 4 membros, tetraparesia ambulatorial ou não ambulatorial, assinatura nunca radicular no membro torácico afetado e tetraplegia (Russel e Griffiths 1968, 27 Danny 1978, Seim & Prata 1982, Morgan et al. 1992, Tomlison 1996, Beal et al. 2001, Cherrone et al. 2004, Hillman et al. 2009). O tratamento pode ser clínico ou cirúrgico (Olby, 2014). O tratamento clínico consiste no repouso absoluto, associado a analgésicos opioides, relaxantes musculares, anti-inflamatórios esteroides ou não esteroidais e fisioterapia (Afiado e Wheeler 2005, Brisson 2010). A cirurgia é o tratamento de escolha para cães com dor cervical intensa, deficiências neurológicas graves, recorrências ou falha do tratamento clínico e sinais crônicos da doença (Seim & Prata 1982, Cherrone et al. 2004, Hillman et al. 2009). Tabela 5 – Afecções do Sistema Nervoso acompanhadas durante o período de estágio curricular no Hospital Veterinário Vettie Afecções do Sistema Nervoso Caninos Felinos Total (n/%) Doença do Disco Intervertebral (DDIV) 1,2 7 - 7/41,17% Síndrome vestibular central 1,2 7 - 7/41,17% Epilepsia idiopática 1,3 2 - 2/11,76% Síndrome vestibular periférica 1,2 - 1 1/5,88% Total 16 1 17/100% ¹ Diagnóstico baseado na anamnese e exame clínico ² Diagnóstico baseado na tomografia computadorizada ³ Diagnóstico presuntivo baseado na anamnese e exame clínico Fonte: Letícia Fiorese (2024) 3.2.4 Afecções do Sistema Tegumentar e anexos O quarto sistema mais acometido foi o sistema tegumentar, conforme descrito abaixo, na tabela 6. A patologia mais acometida foi miíase correspondendo a 41,17% (n=7). A miíase causada pela mosca Cochliomyia hominivorax infesta a maioria dos mamíferos domésticos, homens, mamíferos silvestres e vários tipos de aves, sendo bovinos e cães os animais mais acometidos (BRITO et al., 2001). O diagnóstico clínico pode ser realizado tanto pela visualização, além da observação de larvas (WILLEMSE, 1998). Para tratamento das miíases cutâneas e cavitárias são indicados tradicionalmente a limpeza do local, tricotomia, desbridamento dos tecidos necrosados, remoção das larvas, terapia antimicrobiana local e/ou sistêmica e tratamento local com repelentes e larvicidas (FORTES et al., 1987). Tabela 6 – Afecções do sistema Tegumentar acompanhadas durante o período de estágio curricular no Hospital Veterinário Vettie 28 Afecções do Sistema Tegumentar Caninos Felinos Total (n/%) Miíase ¹ 7 - 7/41,17% Laceração cutânea ¹ 1 2 3/17,64% Edema facial por acidente ofídico ¹ 3 - 3/17,64% Otite fúngica 1,2 2 - 2/11,76% Otohematoma ¹ 1 - 1/5,88% Otite externa bacteriana 1,2 1 - 1/5,88% Total 15 2 17/100% ¹ Diagnóstico baseado na anamnese e exame clínico ² Diagnóstico baseado na visualização de lâmina Fonte: Letícia Fiorese (2024) 3.2.5 Afecções do Sistema Musculoesquelético O quinto sistema mais acometido foi o sistema musculoesquelético, conforme descrito abaixo, na tabela 7. O mais ocorrido foi o trauma por mordedura correspondendo a 53,84% (n=7). Feridas por mordedura correspondem a grande parte dos atendimentos veterinários emergenciais. Em muitos casos, há grave dano e infecção tecidual, com consequente inflamação sistêmica e sepse (HOLT; THAWLEY, 2016). Não há regras absolutas sobre quando ocluir uma ferida, uma vez que cada lesão tem características peculiares. Entretanto, lesões contaminadas não devem ser primariamente ocluídas (WILLIAMS, 2009). Mesmo sem consenso para o tratamento, a literatura indica, que o manejo inicial seja realizado o desbridamento, cultura e antibiograma, limpeza do ferimento e a antibioticoterapia tópica e sistêmica (SHAMIR, LEISNER e KLEMENT et al., 2002; MORGAN e PALMER, 2007; OEHLER, VELEZ e MIZRACHI et al., 2009; ELLIS e ELLIS, 2014; ROTHE, TSOKOS e HANDRICK, 2015). Tabela 7 – Afecções do sistema Musculoesquelético acompanhadas durante o período de estágio curricular no Hospital Veterinário Vettie Afecções do Sistema Musculoesquelético Caninos Felinos Total (n/%) Trauma muscular por mordedura ¹ 4 3 7/53,84% Fratura de Fêmur ¹ 2 - 2/15,38% Fratura de Tíbia 1 - 1/7,69% Displasia coxofemoral 1,2 2 - 2/15,38% Hérnia diafragmática 1,2 1 - 1/7,69% 29 Total 10 3 13/100% ¹ Diagnóstico baseado na anamnese e exame clínico ² Diagnóstico baseado no exame de radiografia Fonte: Letícia Fiorese (2024) 3.2.6 Afecções do Sistema Oftálmico O sexto sistema foi o Sistema oftálmico, conforme descrito abaixo, na tabela 8. A patologia mais acometida foi a úlcera de córnea correspondendo a 70% (n=7). A úlcera de córnea é a oftalmopatia mais comum em cães, as úlceras superficiais tem resolução rápida e com mínimas cicatrizes (STADES et al., 1999). Os principais tratamentos clínicos adotados para úlcera de córnea referem-se à terapia antimicrobiana, à cicloplégica, aos analgésicos, aos agentes lubrificantes e aos fármacos antiproteases (Gilger et al., 2007). Um dos métodos de diagnóstico é o teste de fluoresceína (Nasisse, 1985; Kern, 1990). Tabela 8 – Afecções do sistema oftálmico acompanhadas durante o período de estágio curricular no Hospital Veterinário Vettie Afecções oftálmicas Caninos Felinos Total (n) Úlcera de córnea 1,2 6 1 7/70% Ceratite alérgica 1 2 - 2/20% Florida Spots ³ - 1 1/10% Total 8 2 10/100% ¹ Diagnóstico baseado na anamnese e exame clínico ² Diagnóstico baseado no teste de fluoresceína ³ Diagnóstico presuntivo baseado na anamnese e exame clínico Fonte: Letícia Fiorese (2024) 3.2.7 Afecções Infectocontagiosas O sétimo mais acometido foram as patologias infectocontagiosas, conforme descrito abaixo, na tabela 9. A patologia mais acometida foi a leucemia viral felina correspondendo a 30% (n=3). A leucemia viral felina é comum entre os felinos. Felinos assintomáticos são a principal fonte de infecção, porque pode eliminar até um milhão de partículas virais por mililitro de saliva Almeida, 2009). O método de diagnóstico mais utilizado na rotina clínica é o Enzume Linked Immuno Sorbent Assay (ELISA), através de kits comerciais. A principal fonte de transmissão é 30 contato com saliva e secreções nasais de gatos infectados, bem como, bebedouros e comedouros. Filhotes podem ser contaminados via transplacentária ou pelo leite materno (Hardy et al., 1976, Arjona et al., 2000, Mehl, 2004, Norsworthy et al., 2004, Hartmann, 2006, Chhetri et al., 2013). Os sinais clínicos podem ser inespecíficos, como perda de peso, depressão ou anorexia, ou específicos, causados pelo próprio vírus ou resultantes de infecções secundárias. A FeLV não tem cura, apenas resulta em remissão, o vírus permanece viável no organismo, por isso há possibilidade de contágio e podem ocorrer remissões, o prognóstico costuma ser ruim (Alves et al, 2015). Tabela 9 – Afecções Infectocontagiosas acompanhadas durante o período de estágio curricular no Hospital Veterinário Vettie Afecções Infectocontagiosas Caninos Felinos Total (n/%) FeLV 1,2 - 3 3 /30% Giardíase ³ 2 - 2/20% Parvovirose 1,2 2 - 2/20% Leishmaniose 4 2 - 2/20% PIF 1,4 - 1 1/10% Total 6 4 10/100% ¹ Diagnóstico baseado na anamnese e exame clínico ² Diagnóstico baseado em teste rápido ³ Diagnóstico presuntivo baseado na anamnese e exame clínico 4 Diagnóstico baseado em PCR Fonte: Letícia Fiorese (2024) 3.2.8 Afecções do Sistema Respiratório, Cardiovascular e Endócrino O oitavo sistema mais acometido foi o sistema respiratório com 2 casos de edema pulmonar em cães, seguido pelo sistema cardiovascular com 2 casos de neoplasias cardíacas constatadas por ecocardiografia. O sistema endócrino correspondeu a menor casuística acompanhada, com um único caso de cetoacidose diabética em um cão. 3.3 Casuística cirúrgica Na clínica cirúrgica de cães e gatos, foram acompanhados 12 procedimentos (Tabela 10), sendo que, o mesmo paciente, pode ter passado por mais de um procedimento. Os procedimentos foram divididos por espécie, sendo 9 caninos (75%) e 3 felinos (25%) conforme o Gráfico 3. 31 Gráfico 3 – Casuística das espécies acompanhadas em procedimentos cirúrgicos no Hospital Veterinário Vettie. Fonte: Letícia Fiorese (2024) Tabela 10 – Procedimentos cirúrgicos acompanhados durante o estágio curricular obrigatório no HV Vettie Procedimentos Caninos Felinos Total (n) Total (%) OVH terapêutica 2 1 3 25% OVH eletiva 2 1 3 25% Bypass 1 1 2 16,6% Laparotomia exploratória 2 - 2 16,6% Esplenectomia 1 - 1 8,3% Cesárea de emergência 1 - 1 8,3% Total 9 3 12 100% A ovariohisterectomia consiste na retirada de ambos os ovários, as trompas e o útero, sendo indicada também para o tratamento de cistos ovarianos, piometra, torção uterina, prolapso uterino e ruptura uterina. Além da prevenção de recidivas de hiperplasia vaginal e na prevenção de alterações hormonais que possam vir a interferir com a medicação em casos de animais diabéticos ou epiléticos (SLATTER, 2007). 4 RELATOS DE CASO 4.1 TORÇÃO VÓLVULO GÁSTRICA SECUNDÁRIA A LEIOMIOSARCOMA ANTROPILÓRICO, EM CANINO 75% 25% Espécie Caninos Felinos 32 4.1.1 Introdução A síndrome da dilatação vólvulo gástrica (DVG) também chamada de torção gástrica, se trata do aumento de tamanho do estômago, associado a rotação do mesmo, em seu eixo mesentérico (GALVÃO, 2010; ASSUMPÇÃO, 2011). É uma emergência clínica-cirúrgica e envolve diversos fatores fisiopatológicos que, se não tratados podem levar o paciente ao óbito. Esta síndrome acomete principalmente cães de grande porte, raças grandes e gigantes, porém existem relatos em gatos e cães de raças pequenas (Silva et al., 2006). O aumento exacerbado do estômago, ligado ao mau posicionamento, ocasiona um volvo parcial sendo, o esvaziamento do órgão comprometido por conta da compressão no piloro e duodeno. Em sua maioria, a dilatação ocorre antes do volvo. Dilatação gástrica com volvo é diferente do timpanismo alimentar, que se dá pelo consumo exagerado de alimento, resultando em um estômago distendido e cheio de conteúdo, mas em posição normal. (Rasmussen, 2007). Na síndrome da dilatação vólvulo gástrica, ocorre o acúmulo rápido de ar no estômago, associado a vários graus de torção do estômago, podendo acometer estruturas adjacentes ou não (Rabelo, 2012). A dilatação abdominal súbita acontece após a alimentação, havendo um movimento que desencadeia uma mudança pendular no eixo do estômago, favorecendo a sua torção e dilatação, sendo mais comum o estômago dilatar e depois torcer. Ainda segundo Dennis T. Crowe, Jr., Rodrigo Cardoso Rabelo 2012, a fraqueza dos ligamentos que sustentam o estômago, o tamanho do animal e a profundidade do tórax podem ser fatores predisponentes à torção gástrica. O diagnóstico se dá através do exame físico, observação do abdômen abaulado, exame de imagem como, radiografia, diferenciando a dilatação simples da dilatação vólvulo gástrica. O tratamento da DVG é clínico-cirúrgico, pois primeiro, deve-se estabilizar o paciente, reduzindo os sinais clínicos apresentados, para depois realizar o procedimento cirúrgico (Aguiar, 2011). O tratamento cirúrgico tem como objetivo a avaliação do estômago e baço, seccionando possíveis tecidos necróticos, assim como a possibilidade de realização de esplenectomia, o reposicionamento do estômago e a realização de gastropexia para evitar recidivas (GALERA, 2005; GUIZZO, 2010; ASSUMÇÃO, 2011; KAREN, 2012; FOSSUM, 2015; ELLISON, 2017; ZOCOLER, 2017). O presente trabalho, tem como objetivo relatar um caso de torção vólvulo gástrica secundária a um leiomiosarcoma antropilorico, em um canino, shih-tzu, 13 anos de idade, atendido no Hospital Veterinário Vettie enfatizando a importância clínica da DVG. 33 4.1.2 Relato de caso Foi atendido no Hospital Veterinário Vettie, em Porto Alegre – RS, um canino, macho, da raça shih-tzu, 13 anos de idade, 8,6 kg, com a queixa principal de distensão abdominal. Na anamnese, a tutora relatou que o animal apresentou dor e distensão abdominal logo após a alimentação, além de mímica de vômito e agitação. No exame físico, o paciente estava com a pressão arterial sistólica em 100mmHg, temperatura 38.7°C, mucosas hipocoradas, taquipneia e ausculta cardíaca sem alterações, não apresentando taquicardia. Com suspeita de torção vólvulo gástrica, a veterinária clínica em seguida ao atendimento, solicitou raio X (Figuras 9 A, B e C) de emergência, no qual foi confirmada a suspeita. Figura 9 – Radiografia abdominal confirmando torção vólvulo gástrica A) Projeção ventro-dorsal (seta) B) Projeção latero-lateral esquerda (seta) C) Projeção latero-lateral direita (seta) Fonte: Hospital Veterinário Vettie (2024) O animal foi encaminhado para a internação, onde foi realizado um acesso venoso na veia cefálica, sendo administrado em seguida e prescrito, Dipirona 25mg/kg, por via intravenosa, TID, Metadona 0,2mg/kg QID, por via subcutânea, Ampicilina + Sulbactam 22mg/kg, por via intravenosa, QID, Cloridrato de Maropitant 0,1ml/kg, por via intravenosa, SID, Dexametasona 0,2mg/kg, por via intravenosa, SID e Lidocaína sem vasoconstritor 2mg/kg, por via intravenosa, TID. Foi realizada coleta de sangue para realização de exames de hemograma (ANEXO 2), que estava sem alterações e bioquímicos séricos (creatinina, ureia, glicose, ALT, FA, albumina, globulina, AST), que apresentou um aumento de creatinina de 2mg/dL e glicose 233mg/dL (ANEXO 3). Após a avaliação clínica inicial, o animal foi encaminhado ao bloco cirúrgico e A B C 34 aubmetido ao procedimento cirúrgico de gastrectomia, gastropexia e esplenectomia, sendo este considerado de urgência. Quando finalizada a cirurgia, o cirurgião relatou o procedimento no prontuário do paciente, descrevendo a técnica e material utilizado. Foi realizada uma incisão pré- retroumbilical, observando-se o omento sobreposto ao estômago, além de ser constatada torção esplênica com comprometimento do órgão, sendo realizada esplenectomia com ligadura dos vasos esplênicos com nylon 2.0. Além disso foi observada região isquêmica em fundo de estômago, optando-se pela realização de gastrectomia com margem de 1cm de tecido saudável. Durante a gastrectomia, foi removido conteúdo gástrico (líquido, pastoso, pedaços de frango e ossos). Foi observada uma massa em região antropilórica, firme à palpação e não móvel, sugestiva de neoplasia gástrica. Após foi realizada gastrorrafia com caprofyl 3.0 em dupla camada (padrão subcutâneo e cushing). Utilizado pinças doyen para isolar estômago e duodeno para remoção do antropiloro e posterior anastomose gastroduodenal com caprofyl 3.0 em dois pontos isolados nas extremidades e dois pontos contínuos simples para aposição. Após a gastrectomia, foi realizada gastropexia incisional à direita com nylon 2.0 em duas camadas de padrão subcutâneo, para manter o estômago em posição anatômica. Após a gastropexia, realizado laparorrafia com caprofyl 3.0 em padrão subcutâneo, aproximação de subcutâneo com caprofyl 4.0 e por fim, dermorrafia com nylon 4.0 em ponto isolado simples. Como intercorrência da cirurgia, foi destacada, torção esplênica, isquemia/necrose gástrica, neoplasia em antropiloro e pâncreas com aspecto 'gelatinoso'. No pós-operatório imediato, o animal acordou com temperatura de 35,5°C, colocando-se então bolsas de água quente ao redor do animal, para estabilizar a temperatura corporal, pressão arterial sistólica em 100mmHg, demais parâmetros estavam dentro da normalidade. Solicitada aferição de temperatura a cada 2 horas, para monitoração, além de infusão contínua de norepinefrina devido à hipotensão durante o procedimento cirúrgico, assim permanecendo até estabilização. Na primeira aferição de temperatura subiu para 36.7°C e a pressão estava em 130mmHg, duas horas depois a temperatura estava 39.2°C. Pela parte da manhã, foram realizados todos os parâmetros, estando o paciente com mucosas hipocoradas, taquipneico e com pressão arterial sistólica 130 mmHg. Foi adicionado em sua prescrição, monitorar eletrocardiograma, para avaliação do complexo ventricular prematuro, aferição de lactato (12,5mmol/L) e glicemia (45mg/dL), iniciando bolus de glicose, 1ml/kg/h, via intravenoso, lento. O paciente não estava se alimentando sozinho, sendo adicionado um estimulante de apetite em sua prescrição (ciproeptadina, cobamamida). Em nova aferição, a glicemia estava em 130mg/dL, pressão 35 arterial sistólica em 120mmHg e temperatura retal 37,8°C. Aferido lactato novamente, 12 horas depois, estando o mesmo em 10.9mmol/L. O paciente continuou sem apetite, então foi submetido à sondagem nasogástrica e prescrito suplemente alimentar. No mesmo dia, foi coletado exame de sangue para realização de hemograma e hemogasometria (ANEXO), constatando Na (150mmol/L), Ca (1.04mmol/L), glicose (46mg/dL), hematócrito (49%), hemoglobina (16.7g/Dl), pH (7.19), PCO2 (31.3mmHg), PO2 (21mmHg), HCO3 (11.8mmol//L), observando- se pH, PCO2, PO2, HCO3 e Ca, abaixo do valor de referência, alterações essas compatíveis com acidose metabólica. O paciente não apresentou alterações no eletrocardiograma e, em ultrassom abdominal foi observado peristaltismo presente, ausência de líquido livre, com duodeno e cólon significativamente espessados. Durante o plantão noturno, o paciente passou o turno prostrado, não aceitou alimentação espontaneamente, somente via sonda nasogástrica e não urinou, optando-se pela sondagem uretral, porém esta não foi satisfatória, sendo realizada cistocentese, sendo retirado somente 10mL, configurando um quadro de oligúria. Durante a internação, os parâmetros do paciente se mantiveram instáveis, com dois episódios de hipoglicemia (42 e 60mg/dL), sendo optado por mantê-lo em infusão contínua de solução glicosada. Teve também, dois episódios de hipotensão (70 e 80mmHg) responsivo a volume, após prova de carga. Na aferição do lactato, o mesmo encontrou-se em 8.2mmol/L, sem alterações em eletrocardiograma. O paciente permaneceu no dia seguinte fazendo hipotensão, hipoglicemia e episódios de hipertermia, alterações estas, compatíveis com choque séptico, choque hipovolêmico, consequências da torção vólvulo gástrica, com isso, o prognóstico é considerado de reservado a desfavorável. Devido ao quadro, a tutora decidiu optar pela eutanásia do paciente e enviar a massa antropilórica para análise histopatológica para investigar a causa. No laudo histopatológico (ANEXO 5), foi fechado diagnóstico para leiomiosarcoma gástrico bem diferenciado, sendo este considerado uma neoplasia maligna e crucial neste caso para a ocorrência da DVG. 4.1.3 Discussão A síndrome dilatação vólvulo gástrica é uma enfermidade grave, com taxa de mortalidade variando entre 10 e 45% (Mackenzie, 2010, Simpson 2010, Willard, 2009). Segundo, Dennler R., Koch D., Hassig M., Howard J. & Montavon P.M. 2005, a DVG se trata da dilatação aguda e rotação do estômago, diminuindo perfusão gástrica e esplênica, obstruindo o retorno venoso. Pode ter complicações, tais como, necrose da parede do estômago, arritmias ventriculares, coagulopatias, desenvolvimento de choque hipovolêmico, acidose metabólica e hipocalemia. 36 A DVG tem maior ocorrência em caninos senis de porte grande ou gigante, cães de raças de tórax profundo, contradizendo o paciente em questão. Ocorre também em casos de aerofagia, alimentação excessiva, exercício pós prandial e flacidez de ligamento gastrohepático (Brown C.C., Baker D.C. & Barker I.K. 2007; Gelberg H.B. 2009). Inicialmente, ocorre o acúmulo de gás (MARCONATO, 2006; LEVINE & MOORE, 2009), líquido ou material ingerido, junto à obstrução mecânica ou funcional do piloro ou junção gastresofagiana. Aerofagia é a mais provável causa do acúmulo de ar, mas não se sabe ao certo a origem (EVINE & MOORE, 2009). Na DVG a rotação no sentido horário é a mais relatada nos cães. Na rotação no sentido horário primeiramente ocorre deslocamento do piloro e do antro, desde a parede abdominal direita, até a linha média ventral. Assim, o piloro e o antro passam sobre o fundo e corpo em direção à parede abdominal esquerda, que, passam sob o piloro e antro, no sentido da linha média ventral e parede abdominal direita (RASMUSSEN, 2007). No animal, a presença de uma massa na região antropilórica determinou a rotação, obstruindo a passagem, rotando 360°. O estômago está ligado ao baço pelo ligamento gastroesplênico, sendo assim, a posição do baço pode variar e frequentemente depende do grau do volvo gástrico, sofrendo congestão devido ao deslocamento e oclusão dos seus vasos e o estômago secundariamente à torção e oclusão compressiva da veia porta (Silva S.S.R., Castro J.L.C., Castro V.S.P. & Raiser A.G. 2012, Brown C.C., Baker D.C. & Barker I.K. 2007). A esplenomegalia e congestão, após reposicionamento, em minutos acaba retornando às dimensões e coloração normais. A esplenectomia antes do reposicionamento é indicada em casos de trombose venosa ou necrose esplênica (PARTON et al., 2006; RASMUSSEN, 2007). É contraindicado o reposicionamento do baço em casos de necrose, pois pode liberar diversos fatores ou mediadores vasoativos, comprometendo a circulação sistêmica (DONE, 2010; DYCE, 2010; JERICÓ, 2015; NELSON e COUTO, 2015). Pela rotação do baço junto ao estômago no caso, foi optado pela esplenectomia, após avaliação da irrigação do órgão, que não estava mais viável. No estômago, as alterações variam de edema a hemorragias leves até necrose de todo órgão, as alterações patológicas se dão provavelmente, pela combinação de fatores como lesão pelo ácido clorídrico, isquemia e lesão por reperfusão (Parton, A. T., Volk, S. W., & Weisse, C. (2006). Na DVG, o acúmulo de gás e líquido no estômago, eleva a pressão intragástrica, causa estase e congestão venosas, levando a distúrbios ao fluxo sanguíneo. A redução do débito cardíaco, leva à redução do fluxo sanguíneo arterial, levando à isquemia gástrica, mucosas 37 hipocoradas e taquipneia, sendo observadas no paciente no atendimento inicial (ASSUMÇÃO, 201; LACERDA, 2012; KAREN, 2012, FOSSUM, 2015). Como parâmetro da viabilidade gástrica, analisa-se a coloração da camada serosa, permeabilidade dos vasos serosos e palpação da parede gástrica. Quando O estômago estiver lesionado, no exame clínico da camada serosa, haverá áreas acinzentadas a esverdeadas, até negras a negro-azuladas. Após a incisão na camada seromuscular, a viabilidade do estômago poderá ser questionada devido à ausência de sangramento ativo. TIVERS & BROCKMAN (2009b) consideram como indicações mais práticas de desvitalização a alteração na cor e a espessura da parede, a ausência de pulso nos vasos locais e de sangramento na camada seromuscular ou trombose local. Em caso de persistência das características, efetua-se ressecção segmentar, sendo no animal em questão avaliada a região gástrica, observando-se ausência de sangramento ativo na região de fundo de estômago, alteração essa, compatível com necrose e isquemia gástrica, sendo feita gastrectomia parcial. O estômago, quando dilatado, em função da torção, prejudica a expansão diafragmática, porque, ao pressionar o tórax, provoca redução do volume corrente. Em caso de obstrução das veias porta e cava caudal, diminuirá o retorno venoso para o ventrículo direito, reduzindo drasticamente o débito cardíaco e a pressão arterial resultando em choque hipovolêmico (MELO, 2010; SILVA 2012; FOSSUM, 2015; ELLISON, 2017). Além disso, a redução do retorno venoso, faz com que o organismo tente compensar na veia ázigos, sem sucesso, reduzindo retorno venoso ao coração, diminuindo débito cardíaco, pressão arterial sistêmica e pulmonar média. Com isso, os sinais clínicos incluirão taquicardia, taquipneia, pulso femoral fraco, menor tempo de preenchimento capilar e diminuição do débito urinário (ASSUMÇÃO, 201; LACERDA, 2012; KAREN, 2012, FOSSUM, 2015), sinais estes, que no dia seguinte pós operatório, o animal começou apresentar, hipotensão, taquicardia, hipertermia e hipoglicemia, compatível com a fisiopatologia respiratória e cardíaca da dilatação vólvulo gástrica. Esses sinais clínicos são compatíveis com desenvolvimento do choque hipovolêmico (; DENNLER et al., 2005; MARCONATO, 2006) e de acidose metabólica (DENNLER et al., 2005). A acidose metabólica foi possível observar no exame de hemogasometria, devido ao pH e o HCO3 estarem abaixo do valor de referência. As arritmias cardíacas ocorrem secundariamente à isquemia do miocárdio, acidose e lesão de reperfusão (DENNLER et al., 2005) além de redução da contratilidade, que contribuem para a depressão e disfunção cardíacas, reduzindo, assim, o fluxo sanguíneo sistêmico e a pressão de perfusão. 38 Lesão por reperfusão ocorre quando o fluxo sanguíneo é reinstaurado em um tecido após redução temporária de vasos importantes, como as veias porta e cava caudal, levando à resposta inflamatória sistêmica que pode danificar inúmeros órgãos (LOANNOU et al., 2011). O choque e o comprometimento circulatório devem ser tratados imediatamente, junto à descompressão. Deve-se utilizar a administração de solução ringer lactato ou algum outro cristaloide isotônico a 90ml/kg/h, além da coleta de sangue para análise de hemograma e bioquímicos e fornecimento de oxigenioterapia (MACINTIRE et al, 2007; TILLEY, SMITH JUNIOR, 2015). A estabilização do paciente está de acordo com o descrito na literatura. O paciente chegou para atendimento, com queixa de distensão abdominal após alimentação, foi realizado raio x, com suspeita de torção gástrica, no qual o diagnóstico é realizado por meio da anamnese, sinais clínicos, exame físico e exame radiográfico (MELO, 2010; ASSUMÇÃO, 2011; DELABONA,2015; FOSSUM, 2015), após confirmação, foi feito acesso venoso e administrado ringer com lactato. Após 30 minutos, o animal foi para o procedimento cirúrgico, sendo administrado Dexametasona 0,2mg/kg, SID, a fim de estabilizar as membranas lisossômicas e a endotoxemia (SILVA 2012; FOSSUM, 2015). Além disso foi utilizado antibiótico de amplo espectro como ampicilina com sulbactam 22mg/kg, QID. Usado lidocaína 2mg/kg, TID, como medida terapêutica e por sua importância no controle de possíveis arritmias devido à taquicardia ventricular (FOSSUM, 2015; ELLISON, 2017), além disso, foi utilizado Metadona 0,2mk/kg, QID, Dipirona 25mg/kg, TID, ambos para fins de analgesia, Citrato de maropitant 0,1ml/kg, SID, antiemético. Quanto à neoplasia encontrada no momento da cirurgia, o leiomiosarcoma é uma neoplasia maligna de origem mesenquimal, acometendo trato gastrointestinal dos cães, em sua maioria idosos, com maior predisposição para as regiões de jejuno e ceco, no entanto, do esôfago até o reto qualquer porção pode ser afetada (Prado et al., 2017). Bem como o relato descrito, o animal, idoso, teve diagnóstico definitivo de leiomiossarcoma em região gástrica (Frost et al., 2003; Hobbs et al., 2015; Miettinen & Lasota, 2001). Não há relatos de leiomiosarcoma na região antropilórica, porém, pela localização da neoplasia, percebe-se que o aumento de volume causou uma obstrução em piloro, fazendo com que o estômago dilatasse e posteriormente torcesse. A técnica cirúrgica a fim de evitar novas recidivas, consiste na fixação do estômago na parede abdominal. Existem quatro técnicas para realização desse procedimento, a gastropexia com sonda, gastropexia circuncostal, gastropexia de alça de cinto e gastropexia incicional permanente. A escolhida foi gastropexia incisional pela preferência, conduta e da familiaridade 39 do cirurgião com a técnica (GALERA, 2005; GUIZZO, 2010; ASSUMÇÃO, 2011; KAREN, 2012; FOSSUM, 2015; ELLISON, 2017; ZOCOLER, 2017). O paciente, no transoperatório apresentou hipotensão, sendo colocado em infusão contínua de norepinefrina, porém após o procedimento cirúrgico, a pressão arterial sistólica foi para 280mmHg, sendo retirado da infusão contínua. O paciente permaneceu estável até o dia seguinte, quando iniciou com sinais de choque hipovolêmico e séptico como oligúria, acidose metabólica, variação de hipotermia, hipertermia, hipotensão, hipoglicemia e consequente estupor (DENNLER et al., 2005; MARCONATO, 2006). Estes sinais são estes compatíveis com choque hipovolêmico. O leiomiosarcoma possui um mau prognóstico, relacionado com o estado avançado quando diagnosticado (Santos, I.F.C., Bambo, O., Monteiro, G., Lampeão, A., Cardoso, J.M.M, 2011). Por conta do prognóstico desfavorável, devido a não resposta à terapia, a tutora optou por eutanásia. 4.1.4 Conclusão A torção vólvulo gástrica é uma síndrome de extrema importância para a área clínico- cirúrgica. O conjunto da clínica com a cirurgia é essencial na resolução, é preciso agilidade no diagnóstico e atendimento, estabilização da clínica do paciente para posterior resolução cirúrgica. Devido à alta taxa de mortalidade, é importante disseminar a informação e saber a causa, tratamento, consequências e prevenção, para assim diminuir a casuística. Além disso, é importante ressaltar a importância dos exames de rotina no paciente para prevenção do avanço de neoplasias como o leiomiosarcoma descrito no caso. 4.2 SÍNDROME DE PANDORA EM UM FELINO 4.2.1 Introdução A Síndrome de Pandora (SP) é chamada assim por descrever casos em que gatos apresentam sinais clínicos do trato urinário inferior crônicos e recorrentes, com desordens comportamentais (Buffington et al, 2014). A doença do trato urinário inferior dos felinos (DTUIF) é o nome dado a qualquer desordem que afeta a vesícula urinária ou a uretra dos gatos, com sinais clínicos inespecíficos para diagnóstico de uma dessas afecções (Nelson & Couto, 2015). Com sinais clínicos crônicos e idiopáticos de DTUIF, muitos dos casos são diagnosticados como Síndrome de Pandora (Buffington, 2011). É comum na rotina clínica de felinos, em 40 decorrência da expressão dos sinais clínicos nesses animais, como vocalização ao urinar ou dificuldade para urinar (Buffington et al, 2014). Os principais sinais clínicos são, hematúria, periúria, estrangúria, polaciúria, podendo ser aguda, crônica ou intermitente, com cistite ulcerativa ou não ulcerativa (Luz, 2019). A Síndrome de Pandora tem sinais inespecíficos, o que dificulta seu diagnóstico, além de ter recidivas, após um certo período de tempo (Teixeira et al., 2019). Bem como o diagnóstico, o tratamento também é mais complicado, por ser uma enfermidade que não tem cura, o tratamento consiste na redução da sintomatologia e reduzir recidivas. O estresse é o principal fator, por isso é necessário prevenção e enriquecimento ambiental para o animal (ALMEIDA, 2021; JERICÓ et al., 2015). A antibioticoterapia é utilizada no tratamento empírico da doença, mas seu uso deve ser apenas em casos em que a urocultura apresente crescimento bacteriano (SILVA et al., 2013). Com isso, este trabalho tem como objetivo relatar um caso de síndrome de Pandora acompanhado na rotina clínica médica de pequenos animais, para fins de obter mais informações sobre esta afecção e compartilhar com profissionais da área, além de promover a conscientização dos tutores devido a importância da afecção descrita. 4.2.2 Relato de caso Foi atendida no Hospital Veterinário Vettie, um felino, fêmea, castrada, 2 anos de idade, sem raça definida, com queixa principal de polaciúria e hematúria. Havia sido atendida em outra clínica veterinária e instituído tratamento com meloxicam, sendo que o tutor não lembrava a quantidade e a paciente não respondeu ao tratamento, optando-se então por procurar o hospital. A tutora chegou ao hospital relatando que a paciente estava com dificuldade para urinar, pingando urina e quando conseguia, estava fazendo fora da caixa de areia e dois dias antes do atendimento os tutores viram urinar com sangue, sendo que nunca havia apresentado tais sinais. A paciente estava comendo alimentação seca, sachê e tomando água normalmente. Durante a consulta, a paciente estava alerta e ativa, escore corporal 4 (escala de 1 a 10). Uma semana antes à consulta, outra gata da casa havido ido a óbito, sendo esta FeLV positiva. Com isso, a principal suspeita da veterinária clínica foi síndrome de pandora devido ao fator estressante, da perda de uma companheira da casa. Foi solicitado ultrassom abdominal com coleta de urina por cistocentese, para posterior exame qualitativo de urina, além de teste rápido para FIV/FeLV e exames de sangue e 41 bioquímicos (ALT, FA, albumina, creatinina e ureia) (Anexo 7). O ultrassom abdominal, apresentou vesícula urinária com discreta repleção, parede espessada, medindo até 0,34cm de espessura (Figura 10 A), mucosa levemente irregular e conteúdo anecogênico e homogêneo (processo inflamatório/cistite), com discreto material hiperecogênico aderido à parede cranial e depositado (sedimento aglomerado/cristalúria/celularidade). Uretra proximal evidente, com pelo menos dois pontos hiperecogênicos em seu trajeto (Figura 10 B), medindo até 0,13cm (cristalúria/microlitíases), sendo͢ sugerido controle. Figura 10 – Imagens ultrassonográficas abdômen A) Vesícula urinária medindo 0,34 cm de espessura (seta) B) Uretra Proximal com dois pontos hiperecogênicos (seta) Fonte: Hospital Veterinário Vettie Foi realizado o teste rápido para FIV e FeLV, devido ao fato da outra gata da casa ter falecido por FeLV, sendo o resultado não reagente. O resultado do exame qualitativo de urina apresentou 1 + de estruvita (ANEXO 6), sem mais alterações. A B 42 Como tratamento, foi instituído metilprednisolona 1mg/kg, a cada 24 horas, durante 5 dias, associação de homeopáticos, 1 borrifada a cada 8 horas, até terminar o frasco, ômega, a cada 24 horas, durante 60 dias, Cloridrato de Tramadol 1mg/kg, a cada 12 horas, durante 3 dias. Quatro dias após início do tratamento, a tutora informou que a paciente estava estável, urinando e defecando normalmente, não estava mais urinando fora do lugar e nem indo a caixa de areia frequentemente. 4.2.3 Discussão O termo cistite intersticial, foi usado para descrever uma síndrome vesical álgica em humanos, muito similar a cistite idiopática felina, sendo que em humanos é crônica e, em felinos pode ser aguda ou crônica (CHEW et al., 2011). A cistite idiopática felina ou intersticial felina (CIF), é uma inflamação intersticial da vesícula urinária, não muito conhecida ainda (NUNES, 2015). Em gatos com sinais clínicos crônicos da doença, e sinais característicos da doença, a denominação correta é Síndrome de Pandora (Buffington et al., 2014). A paciente do relato, apresentava cistite idiopática felina, porém teve recidivas, sendo assim denominada síndrome de Pandora, termo este que faz analogia à lenda da mitologia grega, que deuses criaram Pandora, a primeira mulher, lhe presentearam com uma caixa de presentes, que nunca poderia ser aberta, porém a curiosidade de Pandora, fez com que abrisse-a, liberando doenças, epidemias e tristeza no mundo (Buffington, 2011). A doença não tem predisposição racial, geralmente acomete animais entre 1 e 10 anos, com maior incidência entre 2 e 7 anos, como a paciente do caso, possuía 2 anos de idade (CHEW et al., 2011). Segundo Defauw (2011), os animais com cistite idiopática felina possuem escore corporal maior, apresentando sobrepeso ou obesidade, contrariando o caso em questão que tinha escore corporal 4 (escore de 1 a 10). Ainda segundo Defauw (2011), esses animais normalmente tem outros contactantes, são mais temerosos, nervosos e são mais sedentários (OLIVEIRA et al., 2017), como a paciente descrita, que possuía contactantes, além de ser uma gata mais sensível, sedentária e assustada. Felinos mais sensíveis, em ambientes pouco enriquecidos tornam-se mais propensos a desenvolver a doença, confirmando o ocorrido com a paciente (Buffington, 2011). Os animais com SP apresentam sinais clínicos de outras patologias também, como urolitíases. Os principais sinais clínicos relatados são: hematúria, polaquiúria, disúria, periúria, apatia, lambedura excessiva na região perineal e abdômen caudal, podendo apresentar recorrência com ou sem tratamento (Chew et al., 2011, Dibartola, 2015, Oliveira et al., 2017), 43 corroborando com o caso relatado, em que a paciente apresentou 1 + de estruvita no exame qualitativo de urina, além de hematúria relatada pelos tutores, polaquiúria, prostração e periúria. O diagnóstico baseia-se na exclusão de outras causas de DTUIF, como, urolitíases, distúrbios comportamentais, anatômicos, infecção do trato urinário e neoplasias (Defauw et al., 2011). Exames de sangue, de urina e, de imagem, como ultrassom são realizados, para descarte de infecção bacteriana, urolitíase, injúria renal aguda, entre outros. Na paciente foi realizado ultrassom abdominal, exames de sangue e exame de urina, correlacionando os resultados com a queixa principal, fechando diagnóstico para síndrome de Pandora por fator estressante, pois os exames não apresentavam infecção bacteriana ou alterações significativas, apenas alterações inflamatórias devido ao estresse. O hemograma dos pacientes com SP não obstrutiva, normalmente não apresentam alterações, assim como a paciente em questão (Oliveira et al., 2017). Os exames bioquímicos geralmente apresentam valores elevados de creatinina e ureia, associado à crise urêmica (Saevik et al., 2011). A paciente do caso apresentou 1,8mg/dL de creatinina e 52 mg/dL, sendo ambos dentro do valor de referência, contrariando estudos. Segundo estudo de Ferreira (2014), as amostras de urina podem apresentar hematúria, glicosúria, proteinúria, leucocitúria, piúria e cristalúria, sendo achados inespecíficos, pois nem todos apresentam estes achados. A paciente apresentou apenas cristalúria. A ultrassonografia é o método de escolha para a maioria das enfermidades que acometem vesícula urinaria ou uretra, sendo muito importante no diagnóstico da CIF, possibilitando exclusão de outras causas de DTUIF (Hecht, 2015), sendo um dos exames realizados na paciente que possibilitou o auxílio no diagnóstico. O tratamento da SP baseia-se na analgesia, reposição de fluidos conforme grau de desidratação, aumento de ingestão hídrica, uso de anti-inflamatórios não esteroidais com cautela por possível injúria renal aguda pela SP (Rieser, 2005, Lenzi, 2015). O manejo nutricional é importante, aumentando as tigelas de água, com objetivo do aumento da ingestão hídrica, dieta úmida afim de reduzir a densidade urinária (Forrester e Towell, 2015). A paciente relatada recebeu o tratamento correto, de acordo com literatura, inclusive o manejo nutricional, aumentando frequência da dieta úmida, diluindo com um pouco de água, com objetivo de aumentar ingestão hídrica. Em casos crônicos, sem melhora com dieta e enriquecimento ambiental, pode ser instituído o tratamento com antidepressivos tricíclicos, como a amitriptilina (5-10mg/animal, via oral) (Forrester e Towell, 2015). 44 A SP tem prognóstico favorável, quando realizado tratamento adequado, além do trabalho em conjunto do médico veterinário com o comprometimento do tutor (Weissova e Norsworthy, 2011). A paciente retornou em 7 dias para revisão, onde a tutora relatou que a paciente permaneceu estável, se alimentando, urinando e defecando normalmente, além de ter aumentado ingestão hídrica, a tutora afirmou não ter mais visto a paciente urinar fora do lugar ou ir frequentemente a caixa de areia. A paciente permaneceu estável até o fim deste relato. 4.2.4 Conclusão A Síndrome de Pandora ainda não é muito conhecida, tem diagnóstico complexo, por ser por exclusão, com isso é de extrema importância relatá-la e aumentar alcance da informação para que haja ainda mais diagnósticos certeiros e não o uso indiscriminado de antibióticos. 45 REFERÊNCIAS Aguiar, E. S. V. (2011). Emergências decorrentes do trauma em pequenos animais: técnicas e manual para equipes de pronto-atendimento. Editora Da Universidade Federal Do Rio Grande Do Sul (UFRGS), Porto Alegre/RS. 1o Ed., P., 25-33. 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