O ACOLHIMENTO DE CRIANÇAS NO COTIDIANO DA ESCOLA DE EDUCAÇÃO INFANTIL Geórgia Caroline Lazari Aguiar1 Delcio Antônio Agliardi2 Resumo O presente artigo aborda a temática do acolhimento de crianças bem pequenas no cotidiano da escola de Educação Infantil. Tem como objetivo, retratar a importância de se praticar uma cultura do acolhimento, apresentando os principais fatores que propiciam para que esse processo se dê de forma acolhedora e prazerosa para a criança que está realizando seu ingresso na escola. O método utilizado para o desenvolvimento do projeto de pesquisa é o exploratório, desenvolvido por meio de entrevista com professoras que realizam o atendimento do agrupamento de crianças bem pequenas, e a partir de pesquisa bibliográfica, retratando a compreensão dos teóricos sobre o tema. A metodologia é de natureza qualitativa em diálogo com a análise textual discursiva desenvolvida por Moraes (2003). Dentre os autores abordados no artigo, os que se destacam são: Freire (1997), Weffort (1996) e Staccioli (2013), além de também trazer a pauta, evidenciando o que diz a BNCC (2018). Percebeu-se através das vivências e conhecimentos obtidos com a pesquisa, que o termo adaptar faz parte do senso comum e se distancia ao termo sugerido para o ato de acolher, ao qual se compreende que tal processo é sentido e vivido de maneira singular para cada criança, por isso, seu tempo e limites precisam ser respeitados, sendo necessário que haja um diálogo constante, permanente e transparente entre família e escola. No acolhimento, o professor precisa manter o olhar sensível, promovendo práticas e intervenções educativas baseadas no afeto e no carinho, oferecendo segurança à criança que está chegando no ambiente escolar. Palavras-chave: Acolhimento. Educação Infantil. Criança. 1. INTRODUÇÃO O projeto de pesquisa A observação sensível no acolhimento de crianças no cotidiano da escola de Educação Infantil trata do acolhimento de crianças no cotidiano da Educação Infantil, sendo este conceito considerado um dos pilares para a consolidação de práticas conscientes e humanitárias. É destacada a importância da construção de um trabalho pedagógico que seja embasado em uma cultura do acolhimento e valorize as múltiplas identidades, suas formas de manifestações e representações de vida. Este trabalho buscou descobrir de que maneira é realizada a integração e o acolhimento de crianças bem pequenas no contexto da primeira etapa da Educação Básica, ressaltando os 1 Aluna do Curso de Pedagogia da Universidade de Caxias do Sul. E-mail: gclaguiar@ucs.br 2 Professor orientador. É professor do Curso de Pedagogia da Universidade de Caxias do Sul. E-mail: daaglardi@ucs.br https://ava.ucs.br/courses/16262/users/7024 2 métodos que são utilizados para possibilitar que esse momento seja desenvolvido de maneira tranquila e segura. A pesquisa tem viés exploratório, de acordo com os estudos teóricos de Gil (2002), e incluí entrevistas (feitas presencialmente em outubro de 2021) com cinco professoras que realizam o atendimento do agrupamento de crianças bem pequenas nas escolas de Caxias do Sul – RS e referências bibliográficas como Cunha (2017), Freire (1997), Ladwing (2013), Moraes (2003), Saltini (2008), Viana (2010), Weffort (1996) e Staccioli (2013) (miga, escolhe aqui umas mais importantes e depois, entre outros.) O conceito de acolhimento está ancorado na perspectiva de se propor um atendimento direcionado de forma singular para cada criança, onde estas possam: ter espaço para manifestar seus sentimentos, pensamentos e pontos de vistas; receber apoio e suporte necessário para que seja possível desenvolver-se integralmente; e participar ativamente dos momentos que englobam o cotidiano escolar, com alegria e satisfação. Adaptar, acostumar, forçar um processo, querer adiantar o tempo singular que cada um tem, são ideias que se distanciam drasticamente ao que realmente se faz necessário oferecer na etapa da Educação Infantil. Nessa etapa, o ato de cuidar-educar vêm como norteadores de práticas humanitárias, que valorizam e respeitam o ser em sua totalidade, acolhendo-o em todas as dimensões que o compõem. 2. SITUANDO O PROBLEMA DE PESQUISA O problema de pesquisa foi elaborado com a seguinte pergunta norteadora: como se dá o processo pedagógico do acolhimento de crianças bem pequenas no cotidiano de uma escola de Educação Infantil? Para responder, ressaltam-se as diferenciações dos termos que são utilizados e os principais fatores percebidos, vistos como positivos influenciadores de práticas e posturas que possibilitam que a integração ao contexto educativo se dê de forma agradável e respeitosa para a criança que o está vivenciando. A distinção entre os termos adaptação e acolhimento é assunto teórico que aparece no discurso pedagógico quando se fala do atendimento das crianças na Educação Infantil. Ambos são designados para explicar o mesmo processo, porém, de formas totalmente diferentes. Historicamente, as pedagogias não críticas denominam a adaptação para o acontecimento da ida da criança à escola de Educação Infantil. Por outro lado, as pedagogias contemporâneas, críticas e pós-críticas, situam este acontecimento como questão de acolhimento. 3 Ainda hoje, há práticas pedagógicas que insistem no viés adaptativo da criança à escola, quando na verdade, o contexto requer uma nova e necessária concepção, a qual deve estar respaldada nos métodos de acolher, garantir e assegurar os direitos de aprendizagem e desenvolvimento das crianças. A adaptação pode ser entendida como um adestramento da criança à rotina da escola, algo que simplesmente precisa ser feito, independente da forma, do meio e da maneira. Uma ideia que não leva em consideração a bagagem que a criança traz, seus medos, receios, necessidades ou particularidades, vendo-a como um ser qualquer, que é capaz de se acostumar com a realidade a qual será exposta. No entanto, o binômio educar-cuidar expressa a indissociável relação dos fatos que estão presentes no cotidiano da escola, e tal afirmação é um princípio curricular da primeira etapa da Educação Básica, conforme BNCC (2018). O cuidar, o zelar e o acolher são atitudes que fornecem à criança subsídios para que ela possa se sentir segura, sabendo que têm com quem contar quando for preciso e percebendo que o ambiente escolar é um local onde está integralmente protegida, com pessoas de confiança. Não há como educar sem que seja proporcionado à criança esse olhar de acolhimento, de individualidade e respeito às suas vivências anteriores, extra ambiente escolar. Diante disso, faz-se um mergulho teórico na obra Diário de acolhimento na escola da infância (2013), do autor Gianfranco Staccioli, para melhor compreender sobre os fenômenos englobados no processo de acolher enquanto problema de pesquisa, vislumbrando sobre os conceitos que são observados ao tratar dessa temática e as abrangências que podem ser percebidas ao retratar métodos e maneiras de se lidar e efetivar esse processo. Outros autores como Cunha (2017), Freire (1997), Ladwing(2013), Moraes (2003), Saltini (2008), Viana (2010) e Weffort (1996) também foram citados ao longo da pesquisa, contribuindo com seus estudos acerca da temática desenvolvida, retratando outras questões pertinentes para melhor visualizar como se dá o processo de acolhimento de crianças bem pequenas no cotidiano da Educação Infantil. Ressaltam-se questões interligadas à afetividade, percebida como fator elementar para a construção e o desenvolvimento de uma integração adequada, que valoriza as crianças, seus sentimentos, que respeita e acolhe, confirmando as hipóteses iniciais do problema de pesquisa. Destaca-se o tempo único de cada criança, também visto como fator determinante para que o acolhimento seja provido de forma mais assertiva e adequada. As crianças trazem de casa suas bagagens, percepções únicas, suas vivências e formas de se manifestar e se posicionar frente aos diferentes acontecimentos. Possuem uma maneira exclusiva de demonstrar aos outros as formas que utilizam para entender, e se fazer entender, manifestando assim, sua presença 4 singular no mundo que as rodeia. Ao mesmo tempo, as crianças são formadas por uma multiplicidade de personalidades, possuindo suas preferências nas mais diversas áreas da vida, manifestando vontades, gostos e escolhas cada qual à sua forma, constituindo a imensidão que a compõe como ser humano. Esses pontos devem ser levados como base quando uma nova criança é incluída ao contexto escolar, possibilitando que a escola o acolha, conheça seus limites, e respeite seu tempo de entendimento, de compreensão e aceitação frente às novas realidades apresentadas. 3. PESQUISA DE ABORDAGEM TEÓRICA-EMPÍRICA A presente pesquisa apresenta abordagem qualitativa, e foi desenvolvida através do método exploratório, onde foi realizada entrevista com cinco professoras de crianças bem pequenas no cotidiano da Educação Infantil. As entrevistas foram efetuadas no mês de outubro do ano de 2021, em formato presencial, e tiveram como princípio norteador retratar como acontece o processo de acolhimento deste agrupamento de crianças dentro do contexto escolar. Utilizam-se as respostas das entrevistadas sobre as experiências práticas com o problema levantado, unem-se esses dados com os estudos bibliográficos, e identificam-se as percepções, posicionamentos, fazendo uma explanação crítica e científica sobre a temática abordada. Gil (2002), discorre que a pesquisa exploratória [...] têm como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema com vistas a tomá-lo mais explícito ou a construir hipóteses. Pode-se dizer que estas pesquisas têm como objetivo principal o aprimoramento de ideias ou a descoberta de intuições. Seu planejamento é, portanto, bastante flexível, de modo que possibilite a consideração dos mais variados aspectos relativos ao fato estudado. (GIL,2002, p. 41) Acerca da pesquisa qualitativa, Yin (2016) elenca características para melhor descrevê- la, atribuindo seu papel de: estudar o significado da vida real das pessoas nas condições em que vivem; ter a capacidade de apresentar visões e descrever as perspectivas das pessoas englobadas no estudo baseando-se nas condições e contextos das pessoas quanto à suas posições sociais, ambientais e institucionais; guiar-se pelo desejo de explicar os acontecimentos da vida real através de conceitos existentes ou emergentes, tendo como objetivo realizar a coleta, integrando e apresentando os dados encontrados de diversas fontes evidenciais. A metodologia escolhida para a organização e escrita dos resultados da pesquisa tem base na abordagem de análise textual discursiva descrita por Moraes (2003), que sugere que o processo de análise é constituído por meio de uma jornada onde as certezas transformam-se em 5 dúvidas, os caminhos são divididos e desviam-se e os novos horizontes se formam com suas realidades. Para ele: [...] pode ser compreendida como um processo auto-organizado de construção de compreensão em que novos entendimentos emergem de uma sequência recursiva de três componentes: desconstrução do corpus, a unitarização, o estabelecimento de relações entre os elementos unitários, a categorização, e o captar do novo emergente em que nova compreensão é comunicada e validada. (MORAES, 2003, p.192) Por meio das entrevistas e dos estudos apresentados, inúmeros conceitos acerca da temática do processo de acolhimento no contexto da Educação Infantil foram surgindo, novos aspectos foram considerados relevantes, gerou-se novas categorias de ideias emergentes, e assim, consolidou-se os tópicos que compõem e estruturam o artigo e todo o desenvolvimento do projeto de pesquisa. 4. RESULTADOS DA PESQUISA Os resultados de campo foram organizados valendo-se da abordagem de análise textual discursiva explicitada por Moraes (2003), ao qual disserta acerca das tempestades de luz e formulação de categorias de ideias emergentes, com a intenção de compreender, problematizar e consolidar os conhecimentos acerca dos temas investigados. A análise possui sustentação teórica em autores de referência no assunto, através de seus posicionamentos e contribuições acerca de seus estudos. 4.1 Distinção entre os termos adaptação e acolhimento A revisão da literatura sugere existir uma distinção entre adaptação e acolhimento da criança na escola de educação infantil. O termo adaptação induz pensar no processo biológico e natural do ser humano, sendo entendido como uma habilidade do ser humano (sujeito) de conseguir se adaptar, acostumar-se a uma situação, experiência ou ambiente, sendo satisfatório ou não. Quando incluímos esse termo ao cotidiano escolar, muitas ideias surgem para tentar descrevê-lo. Pode ser remetido ao pressuposto de que a criança precisa se adaptar de qualquer maneira e nas circunstâncias dadas pelo momento, pois os pais precisam trabalhar. Pode-se entender também que toda criança é adaptável e que, independentemente de como for o processo, ela conseguirá se adequar na rotina e nos momentos propostos, dividir os espaços, 6 lidar com regras e limites totalmente opostos aos delimitados pelo seu núcleo familiar. Um turbilhão de sensações e sentimentos para assimilar e aceitar, de uma hora para outra, e, na maioria das vezes no tempo de outro, não o seu. Essas posturas vêm carregadas de um sentimento contraditório ao que deveria realmente ser proposto no momento de integração de uma nova criança ao cotidiano da Educação Infantil. Esquece-se de atentar para as individualidades, ao tempo único de entendimento, de reação, das frustrações, das dificuldades em lidar com o novo ambiente, com as pessoas que estão lhe sendo apresentadas, a sua nova rotina, muitas vezes totalmente diferente à vivida anteriormente. Tudo isso deve ser valorizado e servir de base para o planejamento de meios e métodos para realmente acolher àquela criança, buscando proporcionar condições adequadas para que ela possa se sentir segura e confiante ao novo espaço e pessoas que o compõe. No Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (1997), a palavra acolhimento é descrita como: “Ação ou efeito de acolher; Acolhida; Modo de receber ou maneira de ser recebido; Consideração; Boa acolhida; Hospitalidade; Lugar em que há segurança; Abrigo.” Tais definições linguísticas nos remetem, quase que instantaneamente, a pensar em sentimentos de acalento e calmaria, em ambientes onde as emoções são validadas, sentidas e realmente respeitadas. Onde as interações e as vivências são permeadas por largos sorrisos e sinceras demonstrações de carinho. O valor de um diálogo silencioso regado a olho no olho, um afago, um cafuné, um colo que vira refúgio em momentos de receio e medo, um abraço mágico que tem o poder de acalmar e acolher, são indispensáveis durante todo processo de integração ao contexto da Educação Infantil. O segredo, talvez, esteja em abraçar, de modo particular e singular, na prática diária, no cotidiano e no físico, toda imensidão que compõe cada criança, que faz com que ela seja única e dessa maneira possa se sentir parte de um todo. A letra da música da banda Jota Quest (2013), expressa o simbólico sentido do abraço “[...]O melhor lugar do mundo é dentro de um abraço; pro mais velho ou pro mais novo; pra alguém apaixonado, alguém medroso. Tudo que a gente sofre, num abraço se dissolve. Tudo que se espera ou sonha, num abraço a gente encontra[...].” (JOTA QUEST, 2013) Ou seja, interligando a concepção trazida pelo dicionário e a música citada acima, acolher e abraçar são ações que possibilitam o desenvolvimento de posturas respeitosas e responsáveis, onde o ritmo, o trajeto e as vivências passadas de cada criança servem como base para mediar e planejar todo o processo de integração ao contexto escolar de forma mais agradável possível. De acordo com Staccioli (2013, p. 28), “Acolher uma criança é também acolher o mundo interno dela, as suas expectativas, os seus planos, as suas hipóteses e as suas ilusões”. Por isso, 7 devemos nos ater ao propósito de contribuirmos para uma escola da infância que se baseie nas contribuições das crianças, levando em consideração seus interesses, suas curiosidades, suas necessidades e potencialidades, distanciando nossas práticas, dia pós dia dos conceitos formulados para designar a adaptação. A criança ao ser acolhida desenvolve um sentimento de pertença de espaço e de experiência educacional, sentindo-se segura e confiante de que está em um ambiente adequado à ela, na presença de pessoas que irão auxiliá-la durante esse processo de integração, sendo rede de apoio e carinho durante todos os momentos do cotidiano escolar. Como propõe Staccioli (2013, p. 45) “talvez o princípio do acolhimento seja fácil de enunciar e difícil de colocar em prática. Mas é um princípio que oferece, também, satisfação, interesse e um renovado prazer de construir a escola com crianças reais, em meio a pessoas de verdade”. Essa é a proposta de um cotidiano que enxergue o processo de acolhimento como elemento decisivo e de extrema relevância para todo o período que se estenderá, até o fim da etapa da Educação Infantil, que influencia nos comportamentos e ações frente às situações, incluindo possíveis medos e traumas. Para tudo, se faz necessário a parceria entre escola e família, as quais, agindo juntas possibilitam que a criança consiga se sentir capaz de ultrapassar possíveis barreiras e inseguranças, desfrutando ativamente das mil possibilidades de vivências que o espaço escolar oferece. Como podemos perceber, o acolhimento como prática educativa e enquanto conceito se distancia da cultura da adaptação, pois carrega em si as noções de afetividade, de respeito, de presença humana, aconchego e transparência. Se manifesta através de direcionamentos que consideram o bem-estar, o conforto físico e emocional, amparando e sendo ponte para que a criança possa manifestar suas demandas e seus sentimentos, sabendo que haverá apoio e segurança sempre que necessitar. Dessa maneira, acolher as manifestações e conhecer a forma de reação que cada expressa frente as diferentes situações é primordial, considerando sua maneira de agir sem que se crie rótulos para a criança a partir disso. Levando em consideração o projeto de pesquisa e as entrevistas realizadas com cinco professoras de crianças bem pequenas, no cotidiano da Educação Infantil, em um dos tópicos relacionados às percepções para o termo acolhimento, todas elas contemplaram em suas respostas a compreensão de que ele é permeado pelos aspectos afetivos e socioemocionais. Ressaltaram a relevância em acolher a bagagem de vida que cada criança traz, seus medos, inseguranças e dinâmica familiar, oferecendo apoio, compreensão, segurança, atenção e garantindo o cuidado, realizando conexões para que ela possa se sentir parte de um todo, em contato efetivo com a turma, a professora e a escola que a está recebendo. 8 4.2 A afetividade e a escuta ativa de cada criança Na Educação Infantil, a afetividade e o amor são vistos como agentes transformadores do atendimento, exercidos através de condutas que buscam fortalecer os vínculos afetivos de forma acolhedora e carinhosa. Freire (1997), coloca a temática da seguinte forma: É preciso não ter medo do carinho, não fechar-se à carência afetiva dos seres interditados de estar sendo. Só os mal-amados e as mal-amadas entendem a atividade docente como um que-fazer de insensíveis, de tal maneira cheios de racionalismo que se esvaziam de vida e de sentimentos. (FREIRE, 1997, p. 47) Um colinho, um olhar, um beijo, um abraço, um afago, um cafuné; são inúmeras as manifestações de carinho observadas dentro de um ambiente escolar, onde os vínculos e os laços são consolidados. Há amor por toda parte, num sorriso ao fazer uma descoberta, na segurança de enlaçar as mãos com quem auxilia a levantar após a queda, no olhar de curiosidade da criança ao acompanhar os movimentos da professora dentro da sala, das infinitas possibilidades de intervenções e em muitas outras vivências diárias que englobam o contexto das infâncias. A afetividade vem como guia de práticas conscientes e humanitárias, que visam o desenvolvimento integral do ser, reconhecendo suas diferentes manifestações emocionais frente a novas situações. Viana (2010, p. 31) é um dos autores que destacam a relevância de “compreender e considerar a afetividade na Educação Infantil” e aponta que “cada vez mais se confirma que as relações afetivas significativas, no contexto escolar ou familiar, fortalecem o desenvolvimento integral da criança”. Durante o processo de acolhimento, a criança necessita de amparo para conseguir entender o que está sentindo, pois não consegue enfrentar sozinha ao choque de adentrar a um ambiente até então totalmente desconhecido por ela, precisando dividir um espaço que muitas vezes, em casa, era só seu. Muitas não haviam tido tanto contato com pessoas tão diferentes de seu núcleo familiar, ou até mesmo outras crianças. É um mundo novo, totalmente novo, e isso realmente tende a ser assustador. Se para nós, adultos, chegar em um local e não ser bem recebido é algo extremamente difícil de se enfrentar, imagina-se para uma criança, longe do porto seguro que é a família, com pessoas até então nunca vistas, precisando enfrentar sozinha esse misto de sentimentos e emoções, sem ser realmente compreendida como um ser que sente, que sofre e precisa de apoio. O agrupamento de crianças bem pequenas vinculados a esse projeto de pesquisa é organizado pelas faixas-etárias compreendidas entre 1 ano e 7 meses, até os 3 anos e 11 meses, 9 e traz como emergente os conceitos de educar e cuidar como fatores inseparáveis no processo educativo. Dessa maneira, a atenção, a escuta e o olhar de cuidado são posicionamentos que influenciam positivamente para que as relações afetivas no ambiente escolar possam ser consolidadas. São elementos que possibilitam que as referências e os vínculos se estabeleçam, despertando nas crianças sentimentos de confiança e segurança de estarem inseridas naquele espaço, compartilhando e dividindo inúmeras experiências. Ao mesmo tempo que a criança interage com os outros, descobre sobre si e o mundo que a rodeia, experimenta, manipula e executa diferentes funções que até então não sabia que era capaz de realizar. Socializa, estreitando laços com adultos e outras crianças, compartilha e coopera, partilhando de momentos conforme constrói seus conceitos e aprendizagens. Favorecer um período de acolhimento adequado significa propor posturas que validem e considerem as percepções das crianças, ouvindo suas demandas por meio de uma escuta ativa e empática, assegurando que ela consiga se sentir capaz para compartilhar suas ideias, tornando- se um ser crítico e pensante, que argumenta e busca descobrir a resposta para suas perguntas, com curiosidade e anseio. É “pela escuta sensível”, como aponta Cerqueira (2011, p. 65), que o docente “tem a oportunidade privilegiada para acolher a ansiedade e as dúvidas das crianças e elaborar situações cotidianas reflexivas e contextualizadas”, e assim propor, por meio de sua intencionalidade pedagógica, um espaço de escuta e compartilhamento de saberes, onde cada opinião importa e tem espaço para ser ouvida. A criança precisa se sentir acolhida, ter seus pensamentos e pontos de vista validados e escutados com carinho, sabendo que naquele espaço terá amor e aceitação para manifestar suas características e preferências, sua forma de ser e demonstrar como se sente. Assim como destaca Saltini (2008, p.100) a criança “deseja e necessita ser amada, aceita, acolhida, ouvida para que possa despertar para a vida da curiosidade e do aprendizado”. Fazendo relação com a pesquisa empírica, realizada com as cinco professoras de crianças bem pequenas, apresenta-se que, quando questionadas sobre as maneiras e métodos que são adotados durante o processo de acolhimento, três delas responderam direcionar a atenção à criança, respeitando seu tempo, conhecendo sobre seus limites, oferecendo espaço para que possam contar sobre suas vivências e histórias, valorizando cada nova conquista e descoberta feita diariamente, em qualquer âmbito de suas aprendizagens. Em suas falas, também foram ressaltadas a importância de se fornecer demonstrações de carinho constantemente durante o decorrer de todo período em que a criança fica na escola, sendo fonte de amor, afeto e aconchego, dando colo e abraçando as dificuldades e obstáculos que esse processo puder oferecer para ambas as partes. 10 Os estudos acerca da temática demostram que a afetividade vem como aliada no processo de integração de uma nova criança ao cotidiano da Educação Infantil, para a construção de uma educação de qualidade, que possibilita que a criança possa crescer feliz, segura e confiante de si, de suas possibilidades, potencialidades e necessidades, conseguindo questionar e participar ativamente de suas relações e vínculos sociais. Dessa maneira, o professor precisa abrir espaço em sala para que as crianças possam trazer suas demandas, contando sobre fatos que acontecem em seus dias e vidas, suas invenções, descobertas, contos e cenários imaginários, compreendendo como é a sua maneira de ver, sentir e perceber o mundo que as rodeia. Staccioli (2013, p. 38), traz em suas concepções que “a escuta não é uma ação passiva, um deixar acontecer, um comportamento fácil; a escuta é um agir muito ativo”, ou seja, o professor precisa prestar atenção às manifestações de seus alunos, refinando sua escuta para identificar as particularidades que os definem, conhecendo-os para que possa organizar e propor vivências que façam sentido para eles, que se aproximem de suas realidades. 4.3 O olhar sensível e o tempo único de cada criança Acolher se torna um termo tão grande quando pensado sobre a imensidão de contextos, sentidos e sentimentos que engloba. É verbo que tem o poder de dar abrigo, de assegurar e refugiar. É porto seguro pra quem se sente só, ou que se sente perdido em meio a um monte de gente diferente do acostumado. É calma e colo seguro. A compreensão dos estudos sobre a temática aponta a acolhida como grande aliada nesse processo de integração e recepção ao cotidiano da Educação Infantil, e a presença imprescindível da afetividade como norteadora de práticas que valorizem o contato e o desenvolvimento das habilidades emocionais. Manter o olhar sensível é tão importante quanto ouvir atentamente, pois igualmente possibilita que o professor desvende suas crianças, percebendo como reagem frente às diversas circunstâncias e problematizações, para poder assim, traçar metas para lidar com suas manifestações comportamentais e emocionais. “Um adulto atento e confiante deve apenas refinar cada vez mais as suas competências para ‘ler’ as situações [...]” (STACCIOLI, 2013, p. 41). Somos todos seres singulares, nascidos em lares e contextos diferentes, com núcleos familiares que se distinguem, em realidades sociais plurais, dividindo um mesmo espaço na sociedade. E são exatamente as nossas particularidades que nos definem, representando nossos valores, crenças, manias, jeitos e maneiras de ver, viver e encarar a vida, cada qual à sua escolha. 11 Inserir-se em um contexto educativo, quando pequeno, faz com que as crianças precisem lidar com novos acontecimentos, aprendendo a resolver problemas, conhecendo sobre si mesmo, seus limites e reações frente às situações e sensações. Proporciona também que consigam enxergar o outro, percebendo como as pessoas se relacionam e interagem naquele espaço e quais as formas que usam para se comunicar e se fazer entender. São múltiplos os perfis de crianças encontradas nas escolas das infâncias. Há aquelas que adentram a este ambiente e logo encontram suas referências, construindo vínculos com facilidade. Que no primeiro dia, sentem-se à vontade para se despedir dos pais com naturalidade, exploram brinquedos e participam ativamente das dinâmicas propostas, conversam com outras crianças, expõe sobre seus pensamentos, alimentam-se sem resistência, demonstrando estarem tranquilas e seguras com as pessoas e o local que as rodeia. Há aquelas que necessitam de um acompanhamento maior durante o período de acolhimento, demandando atenção redobrada do professor, que precisa manter o olhar sensível para perceber as inúmeras manifestações que a criança pode apresentar, acolhendo-a sempre com empatia, carinho e principalmente respeito. Por meio da pesquisa empírica, realizada com as cinco professoras de crianças bem pequenas, constatou-se, através de suas contribuições, que existem alguns fatores que influenciam positivamente durante o processo de integração de uma nova criança ao contexto educativo, como por exemplo, a importância de respeitar o seu tempo durante o momento de despedida dos pais durante sua recepção e entrada na escola. Dessa maneira, três das respondentes ressaltaram a essencialidade de se manter um diálogo efetivo com as crianças, sanando suas dúvidas e possíveis questionamentos acerca da ausência da família naquele espaço, esclarecendo quantas vezes forem necessárias que os pais virão buscá-la sempre, que ela jamais ficará sozinha ou será esquecida por eles, transmitindo calma e confiança nas trocas estabelecidas. A criança precisa sentir que seus sentimentos importam, que suas ações e pensamentos são validados e que o olhar de quem o acompanha é de acalento e cuidado. Em tal perspectiva, Cunha (2017) discorre sobre a importância do olhar do professor ao corresponder o olhar da criança, construindo pontes para que ambos encurtem as distâncias que os separam, fortificando laços afetivos com o tempo, e assim as relações vão se constituindo e se consolidando. O professor então, precisa manter o olhar da observação sensível para conseguir acompanhar, atendendo a demanda única de cada criança, não comparando seus tempos de aprendizagens ou ritmos, e possuindo a sensibilidade de entender que cada um se manifesta e expõe suas reações de uma maneira única, singular. 12 Toda e qualquer criança necessita ter suas individualidades e subjetividades respeitadas, sendo protagonista ativa durante todo o período de acolhimento que se fizer necessário desenvolver para melhor recebê-la. Nesse sentido, observar possibilita que possamos olhar para nós mesmos, nossas práticas diárias em sala, estudando as múltiplas realidades que compõem as escolas das infâncias, rompendo as barreiras que separam educador e educando, para que com isso possam ser encurtadas as distâncias entre o ver, o perceber, o entender e o planejar. Acerca da temática abordada, Weffort (1996) destaca que: Observar não é invadir o espaço do outro, sem pauta, sem planejamento, nem devolução, e muito menos sem encontro marcado... Observar uma situação pedagógica é olhá-la, fitá-la, mirá-la, admirá-la, para ser iluminada por ela. Observar uma situação pedagógica não é vigiá-la, mas sim, fazer vigília por ela, isto é, estar e permanecer acordado por ela, na cumplicidade da construção do projeto, na cumplicidade pedagógica. (WEFFORT, 1996, p. 4). Dessa maneira, torna-se imprescindível exercitar o olhar e o fazer, integrando sentimento e pensamento, emoção e intuição, para determinar a intencionalidade do fazer pedagógico, fornecendo por meio disso, práticas que proporcionem posturas conscientes e comprometidas com as demandas impostas pelo processo de acolhimento ao cotidiano da Educação Infantil. 4.4 Relacionamento da família da criança no cotidiano da escola de Educação Infantil Nesta categoria de conhecimento emergente, é colocado em pauta a indispensabilidade da família como facilitadora do processo de acolhimento e suas ações conjuntas à escola. O processo de inserção escolar é apoiado por uma tríade formada pela criança, sua família e a escola e isso requer posicionamentos para que se possa realmente ter êxito. A escola fica encarregada do papel de disponibilizar um ambiente seguro e acolhedor para a criança e sua família, dispondo de posturas éticas e íntegras para se restituir. À família, atribui-se a responsabilidade de conhecer verdadeiramente a escola e sua metodologia de ensino, assemelhando ao estilo de aprendizagem que é estabelecido em casa, para que possa ser oferecido uma complementação à educação, proporcionando que as crianças possam ter uma experiência harmônica e tranquila. Também se faz necessário que a família esteja aberta para formar vínculos afetivos e confiar no trabalho da professora e da escola, estando disposta a avaliar, de realizar ajustes no 13 processo de acolhimento e na rotina em casa, caso haja a indicação e orientação do profissional responsável. No momento em que uma criança é apresentada a um novo e diferente ambiente, trazendo suas expectativas, curiosidades, medos, convivendo e dividindo o espaço com pessoas grandes e pequenas, precisando aprender a lidar com regras e combinações que aquele local delimita, se inicia um processo de acolher àquele ser, integrando-o de forma respeitosa e instigante. Para o professor, é necessário conhecer as vivências extra ambiente escolar da criança, estar por dentro de sua organização familiar, das particularidades e singularidades que a identificam e se destacam: suas preferências, jeitos, manias... Descobrir sobre sua rotina, como e com quem dividia seus dias e de que forma eram organizados os momentos que antecederam sua entrada na escola são primordiais para que o trabalho do professor possa ser realizado e organizado da melhor maneira possível, fazendo ligação ao proposto pela BNCC (2018), que diz que: Nesse contexto, as creches e pré-escolas, ao acolher as vivências e os conhecimentos construídos pelas crianças no ambiente da família e no contexto de sua comunidade, e articulá-los em suas propostas pedagógicas, têm o objetivo de ampliar o universo de experiências, conhecimentos e habilidades dessas crianças, diversificando e consolidando novas aprendizagens, atuando de maneira complementar à educação familiar – especialmente quando se trata da educação dos bebês e das crianças bem pequenas, que envolve aprendizagens muito próximas aos dois contextos (familiar e escolar), como a socialização, a autonomia e a comunicação. (BRASIL, 2018, p. 36) De acordo com os dados da pesquisa empírica realizada, foi possível constatar, com as respostas das professoras, que 80% das escolas adotam como procedimento durante o momento de acolhida o preenchimento de fichas e questionários, buscando obter informações com a família acerca da saúde, dos hábitos e costumes da criança que está realizando sua ingressão ao ambiente escolar. Questões como: apelidos, objetos de transição, soninho, alimentos (preferências ou restrições), brincadeiras favoritas, entre outras, são respondidas e depois repassadas para a professora encarregada pela criança, promovendo transparência entre todos os envolvidos no processo. A participação efetiva das famílias oferece apoio e contribui positivamente para que o processo de acolhimento se torne proveitoso para a criança, pois ajuda a diminuir o medo, a ansiedade (das crianças e dos adultos), o receio ao novo e cria subsídios para que possa ser fortalecido o vínculo de confiança entre família e escola. Passa a sensação também, de que este é um local seguro, divertido e que fará com que a criança crie laços com outras pessoas, desenvolvendo-se à medida com que divide e compartilha dos mesmos espaços. 14 Para Ladwing, Goi e Souza (2013), A educação infantil pode representar na vida de uma criança uma experiência rica que trará sempre lembranças agradáveis, como também pode ser geradora de muitos problemas, por esta razão, a necessidade de acolher bem a criança no ingresso à escola. Ela chega á escola com medos, angústias, inseguranças, pois é um ambiente novo. Enfim, todo um processo novo de adaptação que terá que ter um ambiente acolhedor e prazeroso para que, aos poucos, vá superando esses sentimentos. Também para a escola, professores e pais é um período de adaptação. Nesse sentido, os vínculos afetivos entre família e escola precisam ser construídos para que a criança sinta que a família tem uma relação de confiança em relação aos seus novos cuidadores. (LADWING, GOI e SOUZA, 2013, p.12-13). Neste sentido, a consolidação e parceria entre a escola e a família se torna parâmetro fundamental e essencial durante o processo de inserção de uma nova criança ao novo ambiente. A família deve estar por dentro das propostas pedagógicas, das possibilidades, dos contextos e rotinas da escola, assim como a escola também deve ter conhecimento de questões acerca da estruturação familiar e particularidades da criança. Esse contato proporciona tranquilidade para ambas as partes, e é refletido diretamente no comportamento da criança e na maneira que ela passa a enxergar a escola e as pessoas que ali se encontram. Assim como evidenciado na pesquisa, dentre os fatores que auxiliam, favorecendo o processo de acolhimento, 80% das professoras responderam que é necessário que haja diálogo durante a hora de entrega da criança na recepção, passando confiança de que aquele é um ambiente seguro e alegre. Ressaltaram também, que a família precisa conhecer a postura da escola, acreditando em seu trabalho e respeitando o tempo estipulado para que esse procedimento de integração escolar ocorra, sem que a criança possa sair prejudicada ou tenha seus limites ultrapassados. Os pais precisam estar preparados para o momento de separação, servindo como ponte no acolhimento. É necessário que seja realizado um trabalho conjunto e que agregue para ambos os lados, tendo como foco principal a criança, o seu bem-estar e felicidade. No cotidiano da escola de educação infantil, cabe à equipe gestora ficar atenta aos diálogos pautados pelas famílias, e, qualquer informação acerca da saúde e rotina da criança deve ser repassada à educadora de referência, que ficará encarregada de propiciar as intervenções e planejamentos necessários para a demanda, garantindo os direitos, suprindo as necessidades de suas crianças, através de diálogo constante e permanente entre todas as partes envolvidas. Precisam ser traçados objetivos comuns, compartilhando expectativas e experiências, para que os pais se sintam parte da escola, e auxiliem efetivamente durante o processo de integração ao cotidiano da Educação Infantil. Faz-se necessário um acompanhando assíduo da família, para subsidiá-las a construir conhecimentos acerca de si, seu modo de vivenciar e enxergar o mundo e as diferentes 15 realidades encontradas dentro do contexto a qual está sendo inserida. Com isso, o vínculo entre instituição e família se fortalece, favorecendo diretamente a parte principal entre essas duas instâncias, que é a criança, sua saúde e garantia de direitos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho apresenta os resultados da pesquisa desenvolvida durante a disciplina Trabalho de Conclusão de Curso do curso de Pedagogia, no segundo semestre do ano de 2021. Propõe fazer uma distinção teórico-metodológica dos conceitos de adaptação e acolhimento, explicitando as divergências e diferenciações compreendidas pelos termos. Ainda hoje, utiliza- se o entendimento de adaptação dentro das escolas de Educação Infantil, vindo na contramão ao que deveria ser utilizado e defendido. Com as entrevistas, foi possível constatar que muitas professoras não conhecem o termo acolhimento, utilizando adaptação para nomear as práticas que englobam a inserção de uma nova criança ao contexto educativo. Porém, ainda sim, percebeu-se por meio de suas respostas, mais aproximação do que distanciamento entre as posturas e os métodos adotados para desenvolver esse processo, pois contemplam fatores que se enquadram na temática do acolhimento, priorizando a criança, seus sentimentos e demandas, com respeito e empatia. Isto posto, responde à pergunta de pesquisa do projeto de investigação. Após a realização da pesquisa, surgiram categorias emergentes acerca dos fatores que englobam a cultura do acolhimento e o seu desenvolvimento efetivo, apresentando as relevâncias que constituem uma prática íntegra e buscou-se embasamento teórico. Entre as questões levantadas, ficou visível a indispensabilidade da afetividade como viés para a consolidação de vínculos, que oferece segurança e acalento àquela criança que está vivenciando sua entrada no cotidiano escolar, proporcionando uma escuta ativa, que valorize suas contribuições, que valide seus sentimentos, suas necessidades e particularidades. Ressaltou-se também, a participação e o envolvimento das famílias durante o processo de acolhimento, como mediadores de informações importantes acerca da saúde (restrições alimentares, alergias), e questões sobre preferências e singularidades da criança (como dorme, como gosta de brincar etc.), possibilitando que a escola possa conhecer a rotina e as especificidades que compõem a estrutura familiar, para melhor receber e atender a todos. Ficou evidente que o professor precisa manter o olhar sensível atento, descobrindo por meio das inúmeras formas de manifestações que as crianças utilizam, como está sendo sua 16 integração à turma e ao cotidiano escolar, respeitando seu tempo de assimilação e envolvimento. Os resultados sinalizam a relevância do tema para o trabalho do pedagogo e para as práticas educativas, pois evidenciam a importância de se praticar uma cultura do acolhimento, que vise enxergar cada criança como única e respeite suas vivências extra ambiente escolar. Conclui-se que o processo de acolhimento e suas diferenciações da noção de adaptação deveriam ter um espaço maior nos diálogos que permeiam as Escolas das Infâncias, pois se trata de um momento decisivo e marcante nas vidas das crianças e suas famílias. Cabe à escola oferecer subsídios para que as práticas pedagógicas sejam desenvolvidas com respeito, assegurando os direitos compreendidos pela BNCC (2018) de maneira íntegra, gerando confiança e segurança para todos os envolvidos neste processo. As temáticas abordadas nesse trabalho são tentativas de responder o problema de pesquisa apresentado, mas diferentes questões ficaram em aberto para, quem sabe, outra pesquisa. Ainda assim, propõe-se a romper com a tradição adaptativa que permeia as práticas pedagógicas nas escolas de Educação Infantil, de promover e desempenhar uma cultura do acolhimento, que fortaleça e una escola/família e criança em um só elo. Por fim, agradece-se ao orientador Délcio, pela orientação nesse projeto de pesquisa, as professoras da Universidade de Caxias do Sul, a banca, pelo apoio. Agradecem-se também as professoras que participaram da pesquisa, contribuindo com suas vivências e experiências a temática abordada. Todos tiveram um papel indispensável para a construção das aprendizagens e evolução profissional e como ser humano dessa acadêmica. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018. CERQUEIRA, Teresa Cristina Siqueira. (Con)Texto em escuta sensível / Elane Mayara, Leonília de Souza Nunes, Maria de Fátima Guerra de Sousa, Maruza Bastos de Oliveira; organização de Tereza Cristina Siqueira Cerqueira. Brasília: Thesaurus, 2011. CUNHA, Antônio Eugênio. Afeto e aprendizagem: relação de amorosidade e saber na prática pedagógica. 4ed. Rio de Janeiro: Wak Ed, 2017 DICIONÁRIO AURÉLIO da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: Olho dágua, 1997. GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 2002. 17 LADWING, Vânia Kunzler; GOI, Rosalina Elizete Pires, SOUZA, JâniaLoines Gonçalves de. Adaptação e acolhimento na Educação Infantil, 2013. Disponível em: Acesso em: 27/10/2021. MORAES, R. Uma Tempestade de Luz: a compreensão possibilitada pela análise textual discursiva. São Paulo: Ciência & Educação v.9, n.2, p. 191 - 211, 2003. QUEST, Jota. Dentro de um abraço. Rio de Janeiro:Sony Music, 2013. Disponível em: https://www.letras.mus.br/jota-quest/dentro-de-um-abraco/. Acesso em: 27/10/2021. SALTINI, Cláudio J. P. Afetividade e inteligência: a emoção na educação. 4ª ed. Rio de Janeiro: DP & A, 2008. v. 01. STACCIOLI, Gianfranco. Diário do acolhimento na escola da infância. São Paulo: Campinas, 2013. VIANA, Maria Tereza Bonfim. Afetividade na educação infantil. In: CAMPOS, Gleisy Vieira. LIMA, Lilian (Org.) Por dentro da educação infantil: a criança em foco. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2010, cap. 2, p. 31-44. WEFFORT, Madalena Freire. Observação, Registro, reflexão: Instrumentos Metodológicos I. São Paulo: Espaço Pedagógico, 1996. YIN, R.K. 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