UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL ÁREA DO CONHECIMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS CURSO DE PUBLICIDADE E PROPAGANDA VITÓRIA ELIZA BETT A REPRESENTAÇÃO DA MARCA PESSOAL DE ARTISTAS FEMININAS NA MÚSICA POP: UMA ANÁLISE DE IDENTIDADE VISUAL EM ÁLBUNS CONCEITUAIS CONTEMPORÂNEOS Monografia de Conclusão do Curso de Publicidade e Propaganda da Universidade de Caxias do Sul, apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel. Orientador(a): Prof. Dra. Ivana Almeida da Silva Caxias do Sul 2021 VITÓRIA ELIZA BETT A REPRESENTAÇÃO DA MARCA PESSOAL DE ARTISTAS FEMININAS NA MÚSICA POP: UMA ANÁLISE DE IDENTIDADE VISUAL EM ÁLBUNS CONCEITUAIS CONTEMPORÂNEOS Monografia de Conclusão do Curso de Publicidade e Propaganda da Universidade de Caxias do Sul, apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel. Orientador(a): Prof. Dra. Ivana Almeida da Silva Aprovado em: __/__/__ Banca Examinadora _________________________________________ Prof. Dra. Ivana Almeida da Silva Universidade de Caxias do Sul – UCS _________________________________________ Prof. Dr. Ronei Teodoro da Silva Universidade de Caxias do Sul – UCS _________________________________________ Prof. Dra. Alessandra Paula Rech Universidade de Caxias do Sul – UCS AGRADECIMENTOS Agradeço imensamente aos meus pais, Vitor e Gracieli, por todo o carinho, paciência, dedicação e suporte que me deram durante esta etapa tão importante de minha vida. Eles sempre me incentivaram aos estudos e estiveram ao meu lado me apoiando em cada passo que escolhi dar. Agradeço aos meus amigos e colegas pelo apoio prestado nos momentos mais difíceis, mas também pelo companheirismo nos momentos felizes. Os choros e as risadas sempre foram genuínos, bem como as dicas, os conselhos e os incentivos. Aos meus professores agradeço pelo conhecimento transmitido e pelos momentos inesquecíveis de aprendizagem. Em especial à minha orientadora, Professora Ivana, agradeço pela paciência, apoio e compreensão durante este período. A forma leve, didática e esclarecedora com que ela levou as orientações tornaram a experiência muito mais fácil e prazerosa. Por fim, agradeço às mulheres incríveis presentes na minha vida e na sociedade, que inspiram e incentivam, todos os dias, milhares de outras mulheres a crescerem, a sonharem e a buscarem seu lugar, onde quer que ele seja. “Não é sobre dinheiro, não é sobre prestígio, não é sobre classe, é sobre ter uma identidade.” Lady Gaga RESUMO O presente estudo possui como objetivo compreender como álbum conceitual pode representar, a partir da identidade visual, a marca pessoal da artista pop contemporânea. Para tanto, valemo-nos inicialmente da pesquisa bibliográfica, que nos permite encontrar a base teórica necessária para dar andamento à análise apresentada ao final, na qual são examinados álbuns musicais conceituais contemporâneos. A partir de princípios da semiótica e do design, observa-se como os elementos da identidade visual representam, de forma única e inovadora, o tema e o conceito de cada álbum e contribuem para a criação ou reforço da marca pessoal de cada artista. Isso permite concluir que o desenvolvimento da identidade visual no álbum conceitual é de grande importância para a compreensão total de uma obra fonográfica nos dias atuais, onde o consumo daquilo que é visual se torna cada vez maior. É principalmente através da imagem que a artista pop revela sua personalidade ao mundo e faz do seu legado sua marca pessoal, por isso a identidade visual e os elementos dela constituintes tornam-se uma peça-chave para o seu sucesso e posicionamento na indústria musical. Palavras-chave: Mulheres. Música pop. Marca pessoal. Identidade visual. Álbum conceitual. ABSTRACT The present study aims to understand how a concept album can represent, from its visual identity, the personal brand of the contemporary female pop artist. To do so, we initially made use of bibliographical research, where the necessary theoretical basis is found to proceed with the analysis presented at the end, where contemporary concept albums are explored. Based on the principles of semiotics and design, it is observed how the visual identity elements represent, in a unique and creative way, the theme and concept of each album and how they contribute to the creation or reinforcement of each artist's personal brand. This allows us to conclude that the development of the visual identity in the concept album is of great importance for the full understanding of a phonographic work nowadays, where the consumption of visuals grows constantly. It is mainly through image that the pop artist reveals her personality to the world and makes her legacy her personal brand, so the visual identity and its constituent elements become a key to her success and emplacement in the music industry. Keywords: Women. Pop music. Personal Brand. Visual Identity. Concept album. LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Composição XVIII (1923) ........................................................................ 16 Figura 2 – Smash Song Hits by Rodgers & Hart (1940) ............................................ 19 Figura 3 - Illinois Jacquet (1953) ............................................................................... 20 Figura 4 – Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) ........................................ 22 Figura 5 – The Velvet Underground & Nico (1967) ................................................... 23 Figura 6 – Tommy (1969) .......................................................................................... 25 Figura 7 – Publicidade Massas Panzani ................................................................... 29 Figura 8 – Identidade visual da banda Nirvana ......................................................... 32 Figura 9 – Capas de álbuns conceituais ................................................................... 33 Figura 10 – Mulheres na música na década de 1920 ................................................ 38 Figura 11 – 50’s Baby Dolls....................................................................................... 41 Figura 12 – Mulheres no rock da contracultura ......................................................... 43 Figura 13 – Nos Embalos de Sábado à Noite ........................................................... 46 Figura 14 – Disco Divas ............................................................................................ 47 Figura 15 – Artistas pop da década de 1980 ............................................................. 49 Figura 16 – Riott Girrrl Zines ..................................................................................... 51 Figura 17 – Bikini Kill na cena punk da década de 1990 ........................................... 52 Figura 18 – Spice Girls em 1996 ............................................................................... 53 Figura 19 – As fases de Madonna ............................................................................. 58 Figura 20 – As fases de Spears ................................................................................ 60 Figura 21 – As fases de Taylor Swift ......................................................................... 62 Figura 22 – Spotify Canvas ....................................................................................... 68 Figura 23 – Perfil @sweetener de Ariana Grande ..................................................... 69 Figura 24 – Beyoncé visual album (2013) ................................................................. 70 Figura 25 – Álbum When We All Fall Asleep, Where Do We Go? ............................. 73 Figura 26 – Logotipo “Billie Eilish” e “When We All Fall Asleep, Where Do We Go?”75 Figura 27 – Logotipos de filmes de terror .................................................................. 76 Figura 28 – Visuais de abertura da When We All Fall Asleep World Tour ................ 77 Figura 29 – Visuais de Bury a Friend ........................................................................ 78 Figura 30 – Visuais de All The Good Girls Go To Hell .............................................. 78 Figura 31 – Visuais de You Should See Me In a Crown ............................................ 79 Figura 32 – Álbum Future Nostalgia .......................................................................... 82 Figura 33 – Referências do Future Nostalgia ............................................................ 84 Figura 34 – Referência do Future Nostalgia .............................................................. 84 Figura 35 – Logotipo “Dua Lipa” ................................................................................ 85 Figura 36 – Referências do logotipo “Dua Lipa” ........................................................ 86 Figura 37 – Logotipo “Future Nostalgia” .................................................................... 86 Figura 38 – Referências do logo “Future Nostalgia” .................................................. 87 Figura 39 – Tipografia do álbum Future Nostalgia .................................................... 87 Figura 40 – Tipografia Windsor ................................................................................. 88 Figura 41 – Let’s Get Physical Work Out .................................................................. 89 Figura 42 – Singles do Future Nostalgia ................................................................... 90 Figura 43 – Videoclipes do Future Nostalgia ............................................................. 91 Figura 44 – Club Future Nostalgia (2020) e The Moonlight Edition (2021) ............... 92 Figura 45 – As fases de Lady Gaga .......................................................................... 94 Figura 46 – Álbum Chromatica .................................................................................. 95 Figura 47 – Elementos do figurino da capa de Chromatica ....................................... 97 Figura 48 – Logotipo “Chromatica” ............................................................................ 98 Figura 49 – Visual criado para o filme Alien (1979) ................................................... 99 Figura 50 – Outdoor de divulgação do álbum Chromatica ...................................... 100 Figura 51 – Símbolo do álbum Chromatica ............................................................. 101 Figura 52 – Tribos do planeta Chromatica .............................................................. 102 Figura 53 – Referências no videoclipe de Stupid Love ........................................... 104 Figura 54 – Outdoor do single Stupid Love ............................................................. 105 Figura 55 – Visuais de Rain On Me e Blade Runner ............................................... 105 Figura 56 – Comunicações do single Rain On Me .................................................. 106 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 10 1.1 METODOLOGIA .................................................................................................. 12 2 MÚSICA E IMAGEM: UMA RELAÇÃO DURADOURA ......................................... 15 2.1 O SURGIMENTO DO ÁLBUM CONCEITUAL ..................................................... 17 2.2 A IDENTIDADE VISUAL NO ÁLBUM CONCEITUAL .......................................... 26 3 MULHERES E A MÚSICA POP: BUSCA PELA DIFERENCIAÇÃO NA INTERNET..................................................................................................................35 3.1 A TRAJETÓRIA DA MULHER NA MÚSICA: APROXIMAÇÕES COM A INDÚSTRIA CULTURAL ........................................................................................... 36 3.2 MARCA PESSOAL E UNIVERSO FEMININO: CONCEITO E IMPORTÂNCIA NA MÚSICA POP ............................................................................................................ 54 3.3 MULHERES E A MÚSICA POP NA INTERNET: UM NOVO TERRITÓRIO DE MANIFESTAÇÃO ...................................................................................................... 63 4 MULHERES NA MÚSICA POP CONTEMPORÂNEA: ANÁLISE DA IDENTIDADE VISUAL EM ÁLBUNS CONCEITUAIS ..................................................................... 71 4.1 BILLIE EILISH E OS PESADELOS NOTURNOS ................................................ 72 4.2 DUA LIPA E A NOSTALGIA FUTURÍSTICA ....................................................... 80 4.3 LADY GAGA E O PLANETA-FANTASIA............................................................. 93 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................. 108 REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 111 ANEXO A – LETRA E TRADUÇÃO DA MÚSICA BURY A FRIEND ..................... 121 ANEXO B – LETRA E TRADUÇÃO DA MÚSICA FUTURE NOSTALGIA............. 123 ANEXO C – LETRA E TRADUÇÃO DA MÚSICA LEVITATING ............................ 125 ANEXO D – LETRA E TRADUÇÃO DA MÚSICA STUPID LOVE ......................... 129 ANEXO E – LETRA E TRADUÇÃO DA MÚSICA RAIN ON ME ............................ 131 APÊNDICE I – PROJETO ....................................................................................... 133 1 INTRODUÇÃO Composta por elementos como ritmo, melodia, harmonia, versos e letras, a música contém muitas formas de representação na sociedade e possibilita a criação de vínculos significativos por parte daqueles que se apropriam de seus formatos. O álbum musical é uma dessas representações – apesar de agregar um conjunto de canções e remeter a ideia de um produto musical fechado, com aproximadamente quarenta minutos de duração, não é apenas de sons e composições que se resume uma obra fonográfica. Ela envolve, também, construções imagéticas que carregam diferentes simbologias e significados que os nossos sentidos e emoções nos permitem interpretar. Estas construções podem ser demonstradas a partir da elaboração de uma identidade visual, conjunto de elementos que ajudam a formar conceitos e ideias que configuram a informação gráfica a ser veiculada enquanto mensagem no álbum musical. Acredita-se que estes elementos, quando somados à música e às composições de um artista, podem engrandecer o poder de compreensão de uma produção. Dessa forma, seria possível atribuir à identidade visual um papel muito significativo na construção da marca pessoal do artista. Com o advento de novas tecnologias e o surgimento da Internet, ficou ainda mais difícil se diferenciar em um mercado musical tão vasto e concorrido, praticamente todo dominado por artistas masculinos. Na música pop, grandes cantoras marcaram seus nomes com produções criativas e visualmente instigantes, mas muitas ainda buscam encontrar suas marcas pessoais e identidade na indústria. Com a união de estudos acerca da identidade visual no álbum conceitual e a busca de artistas femininas pela diferenciação na indústria musical, este trabalho propõe-se a responder a seguinte questão norteadora: como o álbum conceitual pode representar, a partir da identidade visual, a marca pessoal da artista pop contemporânea? Ao observar a lacuna existente na exploração acadêmica da identidade visual em álbuns musicais conceituais, bem como a exploração limitada da representação de artistas femininas na música pop, notou-se a viabilidade de elaborar uma 11 monografia acerca do assunto. Quando voltado para a área da Publicidade e Propaganda, se torna um interessante objeto de estudo, pois a identidade visual é vista através de outra perspectiva dentro do curso. Geralmente, quando falamos em identidade visual, pensamos em personalidade de marca, produto, empresa ou serviço. O que nos vem à cabeça é o termo dentro de um viés mercadológico, utilizado para destacar marcas dentro do mercado e, por consequência, ajudar a alavancar vendas. Na futura proposta acadêmica o termo será utilizado para representar a marca pessoal da artista musical, a partir de um produto, que é o álbum conceitual. A fim de elucidar a questão norteadora, apresentamos o objetivo geral que é compreender como se dá a representação da marca pessoal de artistas pop femininas em álbuns conceituais contemporâneos a partir da identidade visual. Como objetivos específicos: a) Definir o que é álbum conceitual e identidade visual, estabelecendo uma relação entre os dois conceitos. b) Contextualizar historicamente a figura feminina dentro da música, buscando entender o papel da identidade visual para a construção da marca pessoal de uma artista pop. c) Caracterizar a relação da sociedade contemporânea e das artistas pop femininas com a música, especialmente após o advento da Internet. d) Analisar as formas de representação de artistas pop femininas contemporâneas a partir de seus álbuns conceituais e o papel da identidade visual para o fortalecimento de suas marcas pessoais. Os capítulos desta monografia serão trabalhados de forma a discutir todos os tópicos envolvidos na análise a ser realizada na etapa final. Desta forma, o segundo capítulo abordará os tópicos de música e imagem, com ênfase no álbum conceitual e na identidade visual, a fim de contextualizar a relação entre eles e fazer com que o leitor esteja ciente de como trabalham em conjunto. O capítulo três fará uma abordagem da busca de mulheres na música pop pela diferenciação no cenário contemporâneo. Nele traremos um pouco da história 12 da mulher no cenário da indústria musical, bem como buscaremos elucidar o conceito de marca pessoal e como ele se aplica no universo feminino da música pop. Além disso, iremos procurar compreender como a evolução da tecnologia e o surgimento da Internet se tornaram um novo território de manifestação para essas mulheres, que precisaram encontrar novos formatos de reprodução e divulgação de seus trabalhos no cenário contemporâneo. No capítulo quatro serão abordadas as análises dos álbuns conceituais contemporâneos e através dela buscaremos compreender como estes álbuns podem representar, a partir da identidade visual, a marca pessoal de uma artista pop feminina. Para isso, foram escolhidos os álbuns When We All Fall Asleep, Where Do We Go? (2019) da cantora norte-americana Billie Eilish, Future Nostalgia (2020) da cantora britânica Dua Lipa e Chromatica (2020) da cantora norte-americana Lady Gaga. Antes de cada análise será apresentado um pouco da história de cada artista e de cada álbum, curiosidades sobre o mesmo, tais como os prêmios recebidos, número de vendas, críticas e, posteriormente, a análise, na qual traremos imagens de capas, frames de videoclipes e demais conteúdos das identidades visuais, bem como letras de músicas e depoimentos de pessoas envolvidas no processo de criação e produção dos álbuns. Com tamanha absorção de conhecimento, a autora espera contribuir com futuros pesquisadores da área da comunicação, mas também da música, permitindo novos olhares sobre o universo da música pop contemporânea e das artistas femininas. 1.1 METODOLOGIA A fim de desenvolver a proposta desta monografia, haverá a possibilidade de compreender a união de diferentes métodos que serão aplicados para se alcançar os objetivos propostos. Dentro da organização científica, este trabalho se encontrará enquadrado na pesquisa qualitativa, abordagem que, segundo Gerhardt e Silveira (2009), preocupa-se com aspectos da realidade que não podem ser quantificados, procurando um aprofundamento da compreensão e explicação da dinâmica das relações sociais. Assim, a pesquisa qualitativa trabalha com um universo maior de 13 significados, motivos e porquês de certos fenômenos, sendo fundamental para o presente estudo. A partir desta estrutura qualitativa, identifica-se como método de pesquisa a ser utilizado o método exploratório, que envolve, primeiramente, a pesquisa bibliográfica. Devido à escassez de informações acadêmicas sobre o tema proposto nesta monografia, o método exploratório permitirá “desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias, tendo em vista a formulação de problemas mais precisos ou hipóteses pesquisáveis para estudos posteriores” (GIL, 2007, p. 27). Com o apoio da pesquisa bibliográfica poderemos identificar informações e apurar fatos de importante relevância para o decorrer do estudo, principalmente no que diz respeito à relação entre música e imagem, álbum conceitual e identidade visual. Conforme Marconi e Lakatos (2009, p. 43), “a pesquisa bibliográfica é realizada com base em fontes disponíveis, como documentos impressos, artigos científicos, livros, teses, dissertações, mas não podemos esquecer que toda pesquisa implica o levantamento de dados de variadas fontes” e, por este motivo, serão incluídos diferentes estudiosos para cada um dos tópicos do presente estudo. No campo do design e identidade visual faremos o uso dos ensinamentos de autores como Donis A. Dondis, designer e professora de comunicação, e Gilberto Luiz Strunck, um dos mais conhecidos e bem-sucedidos designers brasileiros – estes teóricos possuem estudos que contribuem significativamente para os assuntos em questão. Já ao tratarmos a identidade visual por um viés semiótico, traremos bases teóricas e conceitos desenvolvidos por Martine Joly e Roland Barthes, dois importantes teóricos da área de estudos de significação. Ao falar sobre álbum conceitual e a trajetória da mulher na música, utilizaremos autores como Roy Shuker, importante contribuinte dos estudos de mídia e música popular, Lucy O’Brien e Sheila Whiteley, jornalista e musicóloga britânicas, que possuem trabalhos diretamente focados em mulheres na música e que oferecem uma visão ampla da história delas na indústria fonográfica. Para abordar marca pessoal, traremos conceitos de Douglas Kellner, crítico da Escola de Frankfurt que se consagra como um dos primeiros teóricos do campo da alfabetização crítica da cultura da mídia; Keith Negus, grande professor de 14 música que dedicou seus estudos à música e à cultura popular; e também Arthur Bender, escritor e publicitário brasileiro, especialista em estratégia e branding. Para realização das análises dos álbuns conceituais, trabalharemos com obras musicais datadas entre os anos de 2019 e 2020, a fim de que a discussão contemple um olhar sobre as artistas femininas pop contemporâneas, foco de nosso problema de pesquisa. Em fases, nosso primeiro olhar será através da aplicação de uma abordagem semiótica, a fim de estudar as características das imagens que compõem a identidade visual das obras em questão. Depois, aplicando conceitos de design, iremos procurar entender os principais elementos que compõe a identidade visual e quais desdobramentos surgem a partir destes elementos. Assim, será possível compreender de forma mais clara como se dá a representação da marca pessoal destas artistas em seus álbuns conceituais contemporâneos a partir da identidade visual. 2 MÚSICA E IMAGEM: UMA RELAÇÃO DURADOURA A música tem origem nos primórdios da civilização. Os primeiros vestígios são encontrados nas pinturas rupestres das cavernas, onde aparecem desenhados os mais antigos apetrechos rudimentares de música em cerimônias e ritos sociais, na evocação das forças da natureza, no culto dos mortos, na caça e na exaltação à guerra tribal. A palavra música deriva da expressão Mousikē, um conceito da mitologia grega que diz respeito às Musas, divindades que inspiravam a ciência e as artes. No mundo pré-histórico, os gregos acreditavam que a música possuía poderes mágicos para curar doenças, purificar o corpo e o espírito e operar milagres no reino da Natureza: ela era um elemento indissociável das cerimônias religiosas (GROUT; PALISCA, 2007). Juntos, estes poderes atribuíam a ela um carácter mágico-religioso e ritualista. Além disso, a música induzia uma ação muito positiva nas diversas atividades sociais das primeiras grandes civilizações, sendo utilizada como consolo ou necessidade lúdica. Um bom exemplo é o Egito dos faraós, em que a música e a dança acompanhavam de perto a vida do dia-a-dia e tinham as mulheres como personagens principais (NABAIS, 2008). Ao longo dos séculos, a música vai conquistando o seu espaço e evoluindo cada vez mais. Do período Renascentista ao Barroco há a aquisição de novas ferramentas, novas sonoridades e novos jeitos de criar. As artes começam a centrar o ideal de harmonia, equilíbrio e beleza no corpo humano – a mulher protagoniza esse modelo e arquétipo de serenidade e perfeição, tornando-se musa inspiradora para poetas, músicos e artistas (NABAIS, 2008). Ou seja, arte e música ficam cada vez mais próximas. Pintores como Wassily Kandinsky (1886 – 1944) vislumbravam relações íntimas entre a imagem e o som em suas obras (figura 1). Pioneiro na arte abstrata, trabalhando majoritariamente com formas e cores, Kandinsky acreditava que era possível suscitar diferentes sensações, e não apenas reconhecer visualmente aquilo que está presente no quadro. Ele considerava a música a mais imaterial das artes, por isso, para representá-la, buscou aprender processos similares, como o ritmo, a 16 construção abstrata, a repetição e o dinamismo. Segundo ele, a cor é “a tecla, o olho é o martelo moderador, a alma é um piano com muitas cordas e o artista representa a mão que, mediante uma tela determinada, faz vibrar a alma humana1”. Figura 1 – Composição XVIII (1923) Fonte: Wassily Kandinsky (20212). Olhando para o passado da música e comprando-o com seu presente, é possível perceber o poder que ela possui para estimular os seres humanos em seus processos criativos, interferindo e participando das ações, com acesso direto à afetividade, controle de impulsos, emoções e motivação. Por se tratar de uma forma de linguagem altamente abstrata e que possibilita diversos modos de audição, ela pode ser interpretada de tais formas que atinge diferentes resultados de percepção (NASSIF; SCHROEDER, 2014). Para Ferreira (2018), “uma melodia, um acorde musical ou mesmo os sons da natureza são capazes de acionar dispositivos que despertam e estimulam a imaginação humana mediante um cruzamento de sensações.” Isso se prova através das criações, principalmente as criações visuais, oriundas da música, que podemos observar com o passar do tempo. Assim como Kandisnky, muitos artistas tiveram a música como fonte de inspiração: 1 Disponível em: < https://www.cartacapital.com.br/educacao/kandinsky-uma-opera-de-cores/>. Acesso em: 26 jan. 2021. 2 Disponível em: < https://www.wassilykandinsky.net/>. Acesso em: 29 jan. 2021. 17 Toulouse-Lautrec desenhava e produzia cartazes para os cabarés, entre eles o Moulin Rouge, ao som do cancan, diante do bailar dos frequentadores; [...] Jean-Michel Basquiat também era músico e fez desta arte um dos temas principais de suas criações visuais, principalmente do gênero jazz; Miles Davis, um dos grandes nomes da história do jazz, produziu pinturas de fazer inveja aos mais exigentes artistas e apreciadores da linguagem pictórica. São exemplos de artistas advindos de uma geração pós-revolução industrial cujos feitos, reconhecidos mundialmente, são oriundos de encontros entre as linguagens da música e das visualidades. (FERREIRA, 2018, p. 30). A imagem se torna um instrumento de expressão e comunicação muito poderoso quando junto da música, pois ambas podem ser utilizadas como grandes deflagradoras de ideias criativas. Com o surgimento da indústria fonográfica, essa comunicação se estreitou e expandiu, principalmente com os discos de LP e suas capas personalizadas pelas mãos de designers, fotógrafos e artistas, formando álbuns conceituais com identidades visuais únicas e inconfundíveis, como veremos a seguir. 2.1 O SURGIMENTO DO ÁLBUM CONCEITUAL No final do século XIX, a tecnologia foi capaz de levar a música a espaços nunca alcançados antes: à sala de estar da classe média e aos coretos de bandas da classe trabalhadora. Na década de 1890, enquanto o cinema abria espaços maiores para a incursão da música no tempo de lazer, o mercado viu o surgimento de uma invenção de potencial revolucionário igual, se não maior. Em 12 de agosto de 1877, o inventor norte-americano Thomas Edison registrou pela primeira vez sua voz num cilindro feito de folha de estanho. Ao patentear seu “fonógrafo” no ano seguinte, previu dez aplicações possíveis, a primeira como ferramenta de escritório para ditar cartas. A “reprodução da música” foi a de número quatro. (BLANNING, 2011, pg. 212). A princípio utilizado para reproduzir apenas a fala humana, o aparelho foi rapidamente adotado para gravar e reproduzir as músicas populares da época. Dez anos mais tarde, a partir do fonógrafo, o imigrante alemão Emil Berliner cria o gramofone, instrumento que apresentou o primeiro disco plano e a possibilidade de sua produção em série: para a sociedade, essa era uma revelação sensacional, pois permitia que músicas e músicos, até então confinados a uma pequena elite, fossem ouvidos pela maioria (BLANNING, 2011). 18 A comercialização destes discos era feita de forma muito simples, pois eles eram guardados em envelopes de papel Kraft ou em álbuns, que acomodavam apenas alguns discos. Segundo Jones e Sorger (1999, tradução nossa), as primeiras embalagens de papel eram impressas com a marca registrada do fabricante. Já a segunda, mais comum, era branca com um furo cortado no centro para exibir o rótulo do próprio disco. Rezende (2012) complementa que, até o fim da década de 1930, os discos se diferenciavam uns dos outros apenas por um revestimento ou cor determinada e pela gravação dos títulos em relevo dourado ou prateado, impressos tanto na lombada do álbum como na capa. Outra questão era que lojas que vendiam apenas discos eram muito raras na época, por isso foi importante encontrar maneiras de chamar a atenção do consumidor para a venda do produto. Pela falta de um apelo visual, os álbuns de discos eram armazenados como livros em uma estante, expondo a lombada e ocultando aquela que era sua maior superfície. Estes álbuns eram, com frequência, expostos em lojas de eletrodomésticos, junto aos aparelhos fonográficos que reproduziam os discos. (REZENDE, 2012, p. 2-3). As primeiras capas a serem individualizadas de acordo com a gravação foram as de álbuns de música clássica, já que, “devido à extensão das peças e a relativamente curta duração dos discos na época, discos múltiplos foram usados para cobrir as gravações de óperas inteiras ou obras orquestrais mais longas.” (JONES; SORGER, 1999, p. 71, tradução nossa). Os primeiros álbuns usavam apenas a tipografia, com o nome do artista performático ou compositor na frente e na lombada. Mais tarde, eles passaram a incorporaram fotografias, cenas e retratos. Foi a partir de 1939 que o design das capas de álbuns se tornou um campo de grande prestígio e começou a atrair profissionais. Ainda de acordo com Jones e Sorger (1999, tradução nossa), as capas americanas dessa época eram dominadas por três estilos distintos – o primeiro deles, desenvolvido pela RCA Victor, foi das capas pictóricas, onde a gravadora incorporou vários gêneros de pintura, alternando do surreal ou cubista ao romântico. O segundo estilo foi usado pela Columbia Records e apresentado pelo publicitário e artista gráfico Alex Steinweiss, cujo trabalho incorporou os princípios de vários movimentos de design europeus, como de cartazes franceses e russos, dos 19 quais “utilizava-se de conceitos visuais mais sugestivos do que figurativos: sugeriam o “clima” de cada álbum.” (CASTRO, 2007 apud FERREIRA, 2018, p. 40). A primeira criação de Steinweiss (figura 2) se tornou modelo para outras empresas, pois ele foi o responsável por surgir com a ideia de uma capa com design especialmente projetado. Até mesmo a RCA Victor adotou esse estilo “para seus álbuns populares e de jazz quando as capas de pintura passaram a ser consideradas antiquadas.” (JONES; SORGER, 1999, p. 72, tradução nossa). Figura 2 – Smash Song Hits by Rodgers & Hart (1940) Capa desenvolvida por Alex Steinweiss. Fonte: Alex Steinweiss (20213). O terceiro estilo foi utilizado principalmente por gravadoras menores e independentes. Com uma direção mais gráfica, sintetizada no trabalho de David Stone Martin (figura 3), o artista trazia em seus trabalhos um certo senso de consciência, “dando uma nova imagem para a música “colorida” ou “racial”, como era então chamada.” (JONES; SORGER, 1999, p. 73, tradução nossa). Martin foi provavelmente o mais conhecido e mais emulado dos designers que trabalhavam para marcas independentes. [...] Antes de Martin, as imagens de músicos negros, se é que eram retratados, eram estereotipadas porque suas fotos não eram consideradas um incentivo às vendas. Mais comumente, as capas incluíam imagens abstratas e desenhos geométricos. (JONES; SORGER, 1999, p. 73, tradução nossa). 3 Disponível em: . Acesso em: 07 fev. 2021. 20 Figura 3 - Illinois Jacquet (1953) Capa desenvolvida por David Stone Martin. Fonte: Birka Jazz (20214). Porém, mudanças continuaram a surgir na indústria da música, eventualmente alterando a natureza do design de capas. Já na segunda metade do século XX, as gravadoras Columbia Records e RCA Victor lançam dois novos tipos de mídias no mercado: os discos de vinil de 7 e 12 polegadas. Também conhecidos como EPs (Extended Play), os discos de 7 polegadas tinham até 8 minutos de execução por lado e eram mais utilizados para o lançamento de singles. Blanning (2011, p. 230) explica que “mesmo que o tamanho do disco limitasse a quantidade de música a uma por lado, o formato se mostrou ideal para a música popular, especialmente para o jukebox5”. Já os discos de 12 polegadas, também conhecidos como LPs (Long Play), possuíam cerca de 20 minutos de execução por lado e eram mais adotados para álbuns. A partir daí, “os álbuns se tornaram leves, quase inquebráveis, [...] protegidos por capas elegantes com fotos e informações na contracapa ou na parte interna que podíamos ler enquanto ouvíamos as músicas.” (DIMERY, 2007, p. 6). Com essa novidade no desenvolvimento da indústria fonográfica, a música passou a ser gravada e comercializada de forma inusitada – se as gravadoras eram acostumadas a vender apenas singles, elas passam a lançar esses títulos somente nos LPs, o que ajudou a aumentar significativamente suas receitas. “Desde o seu 4 Disponível em: . Acesso em: 07 fev. 2021. 5 Entendido como “máquina de tocar discos acionada por moedas.” (BLANNING, 2011, p. 224) 21 surgimento, a embalagem do LP foi usada como tela para que uma série de artistas realizassem conexões entre música e imagem, seja através de pinturas, desenhos ou fotografias.” (WALTENBERG, 2016, p. 55). Ou seja, ao unir design, música e artes visuais, como no trabalho de Steinweiss (figura 2) – que trouxe os discos dos fundos das lojas de eletrodomésticos para a frente em áreas de destaque –, os discos de vinil se tornaram objetos de grande apreciação popular. De acordo com Castro (2007, apud Ferreira, 2018, p. 41), “em seis meses, com o aumento de quase novecentos por cento nas vendas por causa das capas, a gravadora Columbia deixou longe a Decca e a Victor, suas concorrentes.” Com essa crescente valorização econômica, a identidade visual passou a fortalecer a natureza das intenções de obras musicais, criando uma ponte ainda maior entre música e público com um conteúdo atraente para o consumidor. No meio deste cenário surgia um novo modelo, instalado na indústria fonográfica como álbum conceitual. O conceito do termo ainda é um pouco nebuloso atualmente, mas, segundo Shuker (1999, p. 5, tradução nossa), pode ser qualificado como um álbum que deixa de ser “uma coleção de canções heterogêneas para tornarem-se obras narrativas, com uma sequência de canções individuais em torno de um tema único.” Nele, normalmente, cada faixa expressa um aspecto diferente ou parte de um conceito principal e costuma contar a história de um ou mais personagens, fictícios ou não. No álbum conceitual as músicas passaram a estabelecer relações entre si e com o design de suas capas, mantendo uma correspondência semântica entre imagem e conteúdo sonoro. Por conta disso, Waltenberg (2016, p. 49) refere que o álbum conceitual também pode ser entendido como “mais uma estratégia de legitimação cultural no universo da música”: Ciente de que todo álbum é, em certa medida, conceitual, uma vez que há uma intencionalidade na esfera da produção e no momento de concepção do álbum, a ideia aqui é mostrar que há um conjunto trabalhos musicais onde se destaca uma ênfase ou maior intencionalidade na criação do “pacote”, criando um “todo coerente” unindo música, história – em maior, ou menor grau – e imagem. (WALTENBERG, 2016, p. 47). Shuker (1999, tradução nossa) aponta que os álbuns conceituais surgiram na década de 1960, quando a música rock almejava o status de arte. O álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), dos ingleses The Beatles (figura 4), é frequentemente considerado um dos primeiros álbuns conceituais por sua coesão 22 musical, ao invés de qualquer unidade temática que carrega. Aliás, este é um dos exemplos mais conhecidos de trabalhos de artistas plásticos em capas de álbuns, o que, de acordo com Jones e Sorger (1999, p. 73, tradução nossa), dava uma “credibilidade artística” ao campo do design de capas de álbuns de rock. Figura 4 – Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) Fonte: Rolling Stone (20216). De acordo com George Martin, produtor da banda The Beatles, foi Paul McCartney, integrante do quarteto, quem criou o conceito para o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, durante um voo em 1966: "Sergeant Pepper" em si não apareceu até a metade do álbum. Era uma música de Paul, apenas um número de rock comum... mas quando terminamos, Paul disse: "Por que não fazemos o álbum como se a banda Pepper realmente existisse, como se o Sargento Pepper estivesse fazendo o álbum? Nós colocaremos efeitos e coisas." Adorei a ideia e, a partir daquele momento, foi como se Pepper tivesse vida própria. (SCHONFELD, 20217). Segundo Ferreira (2018), a capa produzida pelo casal Jann Haworth e Peter Blake revela um cenário montado em escala real com uma coleção de personalidades mundiais escolhidas pelos integrantes da banda. Blake relata que a 6 Disponível em: . Acesso em: 12 fev. 2021 7 Disponível em: . Acesso em 12 fev. 2021. 23 intenção era mostrar os Beatles como se fossem a banda do Sergeant Pepper, rodeada de fãs após uma apresentação: Sugeri que eles tinham acabado de fazer um show no parque. Eles estavam posando para uma fotografia e a multidão atrás deles era uma multidão de fãs que estiveram no show. Tendo decidido isso, então, fazendo recortes, os fãs poderiam ser qualquer um, vivo ou morto, real ou fictício. Se quiséssemos João e Maria, eu poderia pintá-los e eles poderiam ser fotografados e ampliados. Pedi uma lista [de pessoas] aos quatro Beatles e eu mesmo fiz uma. (LEIGH, 2016, p. 215). No mesmo ano, o álbum The Velvet Underground & Nico (1967), de mesmo nome da banda (figura 5), também foi uma obra que se tornou um grande ícone da música e do design. Conhecido como “o álbum da banana”, com um projeto gráfico de autoria do famoso artista plástico Andy Warhol, a obra apresentava indícios do que ainda estava por vir em matéria de criatividade em capas de discos: sua embalagem interativa dava ao público o poder de “descascar” a banana impressa na capa, através de um adesivo que podia ser destacado. Figura 5 – The Velvet Underground & Nico (1967) Fonte: Rolling Stone (20218). Mas além de uma simples banana, o desenho de Warhol parecia ter um duplo significado: no meio musical da década de 1960, temas como drogas, amores doentios, ocultismo, marginalidade e desvios sexuais eram grandes tabus. E, de 8 Disponível em: . Acesso em: 12 fev. 2021 24 uma forma visceral e poética, com letras completamente influenciadas pela literatura inglesa, a banda The Velvet Underground teve a necessária coragem para lançar um álbum que tratava, ao mesmo tempo, de todos esses assuntos. Devido a este fato e a julgar pelas canções do disco, a fruta da capa carrega uma conotação extremamente sexual. Apesar do álbum não ter sido um sucesso comercial na época, foi considerado o “álbum de rock mais profético já feito” e classificado como o 13º melhor álbum de todos os tempos pela revista Rolling Stone9. Segundo Lou Reed, membro da banda, a banana se tornou um símbolo tão importante para eles que “o público, particularmente aqueles que ouvem rock, imediatamente reconhecem o desenho da banana como o símbolo do Velvet Underground10”. Assim como colocam Jones e Sorger (1999, tradução nossa), as capas dos álbuns são muito importantes tanto para a obra, quanto para o artista: A importância e o impacto mais amplos das capas dos álbuns podem ser vistos nas abordagens de empacotamento de música (e, em certo sentido, nos músicos). As capas dos álbuns são um elemento de um pacote completo, uma parte essencial na experiência total de comprar, possuir e ouvir música. (JONES; SORGER, 1999, p. 96, tradução nossa). É válido ressaltar que a banda The Who também é geralmente aceita como pioneira da ideia de álbum conceitual com a obra Tommy, de 1969 (figura 6). O álbum é a realização de uma ópera-rock11, conceito também trazido à tona pelo grupo. Segundo Dimery (2007, tradução nossa), Tommy é tão influente culturalmente quanto é musicalmente diverso – para o autor, o álbum foi claramente inspirado pelo Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, lançado apenas dois anos antes. O que o The Who fez de diferente foi desenvolver a criação dos Beatles “com um toque de street cool ausente naquele álbum, e inspirar o rock progressivo de trabalhos posteriores, como Dark Side Of The Moon do Pink Floyd.” (DIMERY, 2007, p. 164, tradução nossa). 9 Disponível em: . Acesso em 12 fev. 2021. 10 Disponível em: . Acesso em: 12 fev. 2021. 11 Uma obra de música rock que apresenta uma história dramática contada em várias canções à maneira tradicional da ópera. 25 As músicas do álbum narram a história de Tommy, um garoto surdo, retardado e cego, nascido numa família desequilibrada, na qual ele é aterrorizado por seu primo e por seu tio (DIMERY, 2007, tradução nossa). Para retratar esta realidade, a banda trabalhou com o artista Mike McInnerney, que desenvolveu o projeto gráfico da obra. Para McInnerney, a ideia era imaginar o personagem em um mundo sem sentidos convencionais: Eu pensei que seria [um mundo] ilimitado, mas ao mesmo tempo [Tommy estaria] preso em um ambiente feito para pessoas que têm todos os seus sentidos. A capa "externa" e "interna" parecia o lugar apropriado para encapsular essa contradição. A capa usa a forma do globo para representar a Terra e o Eu flutuando em um universo infinito como o espaço. Um espaço que nunca pode ser tocado, apenas imaginado. A capa interna mostra uma parede com apliques como símbolo do espaço doméstico. É um espaço que todos podemos tocar e uma sala em que todos vivemos. Mas a luz das lâmpadas não se comporta como em nosso mundo visual, ela não fixa objetos a superfícies, mas parece se deslocar e mudar sob os dedos perscrutadores de Tommy. (MCINNERNEY, 2021, tradução nossa12). Figura 6 – Tommy (1969) Capa externa e interna do álbum Tommy (1969). Fonte: Mike McInnerney (202113). 12 Disponível em: . Acesso em: 15 fev. 2021. 13 Idem. Acesso em: 15 fev. 2021. 26 Mesmo não tendo uma resposta exata ou ideal para o conceito de álbum conceitual, com os exemplos vistos até aqui somos capazes de afirmar que o formato parece dar um peso maior “às convenções simbólico-materiais do álbum, principalmente a partir da ideia de uma história amarrando as canções.” (WALTENBERG, 2016, p. 52). É impossível negar que as obras citadas popularizaram a forma e abriram caminho para inúmeras bandas e artistas nas décadas seguintes – algumas das imagens mais famosas praticamente adquiriram “um posto de patrimônio cultural, sendo reverenciadas, parodiadas e usadas como referência para outros músicos” (WALTENBERG, 2016, p. 55), passando a incorporar produtos diversos como camisetas, posters, quadros, chegando até utensílios domésticos como canecas, roupas de cama, dentre outros. O visual se torna cada vez mais importante, principalmente no que diz respeito à identidade dos artistas – muito além de suas canções, agora o público também os reconhecia através da imagem que transmitiam. 2.2 A IDENTIDADE VISUAL NO ÁLBUM CONCEITUAL Apesar de parecer contraditório, as músicas não são mais o único conteúdo de um álbum musical. Aliás, sozinhas, parecem ser insuficientes para preenche-lo. Atualmente o modelo é constituído de “capas, encartes, textos, imagens e o próprio design da embalagem, que contribuem para que determinado álbum seja, de fato, um álbum” (WALTENBERG, 2016, p. 54) – e tudo isso demanda uma identidade visual única e exclusiva. A identidade visual é uma proposta com concepção diretamente ligada a área de design e comunicação visual que, de acordo com Vásquez (2011, p. 206), é “composta por um sistema de signos criado, organizado e disposto segundo critérios e princípios que visam representar, caracterizar e comunicar uma marca.” Strunck (1989, p. 14) exemplifica que “quando as várias embalagens de um produto foram programadas visualmente para apresentarem uma consistência em si, este produto tem uma identidade visual.” Segundo ele, essa consistência é composta por “um conjunto de elementos gráficos que são capazes de formar a personalidade visual de um nome, ideia, produto ou serviço”, ou seja, de forma literal, os elementos agem 27 mais ou menos como as roupas e a forma das pessoas se comportarem no dia a dia. A personalidade que os elementos dão às marcas é o que as difere dentro do mercado, o invisível se torna visível através da identidade visual (VÁSQUEZ, 2011). No entanto, seu objetivo é um pouco diferente entre empresa e produto: No caso da empresa, o objetivo é representá-la como uma organização; no caso dos produtos, o propósito é dotá-los de uma identidade externa individualizada. A divulgação desta última se aplica em suportes que visam à comunicação mercadológica dirigida principalmente ao consumidor. (VÁSQUEZ, 2011, p. 206-207). Se pensarmos no álbum conceitual como o produto de uma marca (sendo a marca o próprio artista), existem alguns elementos principais que ajudam a identificar, diferenciar, associar e reforçar a identidade visual. Mas antes de entrarmos em cada um deles é importante lembrar que, juntos, eles nada mais são do que imagens, uma composição visual. Pelo senso comum, o conceito de imagem implica a “representação exata ou bem semelhante de algo ou alguém; aquilo que simbólica ou realmente imita, personifica ou representa pessoa ou coisa14”. Assim como a música, as imagens têm sido meios de expressão da cultura humana desde as pinturas pré-históricas nas cavernas e, hoje, a nossa vida cotidiana se tornou repleta de mensagens visuais, desde a publicidade televisiva durante o café da manhã até as últimas notícias nos telejornais da noite (SANTAELLA; NOTH, 2001). Essa quantidade de mensagens fez com que muitos estudos fossem iniciados acima do conceito de imagem, em diversas disciplinas de pesquisa. Uma dessas disciplinas é a semiótica. O nome semiótica vem da raiz grega semeion, que quer dizer “signo”. Segundo Santaella (1994, p. 13), a semiótica é a ciência dos signos que tem por objeto investigar “todas as linguagens possíveis, ou seja, que tem por objetivo o exame dos modos de constituição de todo e qualquer fenômeno como fenômeno de produção de significação e de sentido.” Não importa o que for, desde um teorema matemático até uma pintura impressionista, desde uma ideia abstrata até uma fotografia, a semiótica busca visualizar e compreender seu ser de linguagem, isto é, sua ação de signo. 14 Disponível em: . Acesso em: 10 Março 2021. 28 Joly (2002) também fala sobre a importância de considerar o modo de produção de sentido quando abordamos certos fenômenos sobre o aspecto semiótico, isto é, considerar a maneira como eles suscitam significados, interpretações. Para a autora (2002, p. 29), “um signo só é signo se exprimir ideias e se provocar na mente daquele ou daqueles que o percebem uma atitude interpretativa.” Por isso, a identidade visual de um álbum conceitual é vista aqui como uma mensagem visual, algo heterogêneo, composta de diferentes tipos de signos. Isso equivale a considerá-la como uma linguagem e, portanto, como um instrumento de expressão e de comunicação. A imagem pode ser desmembrada em três categorias de signos: os icônicos, os plásticos e os linguísticos. Joly (2002) coloca os signos icônicos como as “imagens” no sentido teórico do termo, ou seja, quando elas apresentam semelhança com o que querem representar; os signos plásticos compreendem as cores, formas, iluminação, ponto de vista, enquadramento, composição interna ou textura dos elementos; e os signos linguísticos dizem respeito à linguagem verbal, aos textos que podem acompanhar a mensagem visual e que muitas das vezes exercem um papel de ancorar o significado da imagem. Roland Barthes (apud JOLY, 2002) foi quem estabeleceu como objetivo pesquisar se a imagem contém signos e quais são eles, inventando sua própria metodologia. Ele faz a análise da imagem considerando que encontrará signos plenos na mensagem que compreende em uma imagem publicitária (figura 7), por exemplo: O conceito de “italianidade” que se destaca em uma publicidade famosa das massas Panzani é produzido por diversos significantes: um significante linguístico, a sonoridade “italiana” do nome próprio; um significante plástico, as cores, o verde, o branco e o vermelho, que evocam a bandeira italiana; e, finalmente, os significantes icônicos, que representam objetos socioculturalmente determinados: tomates, pimentões, cebolas, pacotes de massa, lata de molho, queijo... Nem todas as conclusões teóricas a que podemos chegar atualmente com essa pesquisa foram consideradas na época, tão nova era a pesquisa. Mas o método instalado [...] mostrou-se perfeitamente operatório. (JOLY, 2002, p. 50). 29 Figura 7 – Publicidade Massas Panzani Fonte: Panzani-me (202115). E agora que compreendemos como a identidade visual pode ser analisada através da semiótica, veremos como ela é constituída através do design gráfico. Cardoso (2002) explica que a origem imediata da palavra design vem da língua inglesa, “na qual o substantivo design se refere tanto à ideia de plano, desígnio, intenção, quanto à de configuração, arranjo estrutura.” Já a origem mais remota da palavra “está no latim designare, verbo que abrange ambos os sentidos, o de designar e o de desenhar.” Inicialmente utilizado para compor o tipo de atividade artística desenvolvida para atender às necessidades da indústria na primeira metade do século XIX, Villas- Boas (2001) descreve o design gráfico como: [...] um processo que se refere à área de conhecimento e a práticas profissionais específicas relativas ao ordenamento estético-formal de elementos textuais e não-textuais que compõe peças gráficas destinadas à reprodução com objetivo expressamente comunicacional. (VILLAS-BOAS, 2001, p. 7). 15 Disponível em: . Acesso em: 20 março 2021. 30 Esse processo envolve elementos visuais, que, segundo Dondis (2003), constituem a substância básica daquilo que vemos e que são utilizados para a criação de composições: o ponto, a linha, a forma, a direção, o tom, a cor, a textura, a dimensão a escala e o movimento. A escolha dos elementos visuais que serão enfatizados e a manipulação desses elementos, tendo em vista o efeito pretendido, está na mão do artista, do artesão e do designer, ele é o visualizador. O que ele decide fazer com eles é sua arte e seu ofício, e as opções são infinitas. Os elementos mais simples podem ser usados com grande complexidade de intensão. (DONDIS, 2003, p. 52). Para que possamos compreender melhor e obter um conhecimento mais aprofundado sobre design gráfico, é conveniente nos concentrarmos em cada um destes elementos visuais, individualmente. Dondis (2003) os explica da seguinte maneira: • Ponto: unidade de comunicação visual mais simples e mínima. É ponto de referência ou indicador de espaço, pode causar ilusão de tom ou cor. • Linha: conjunto de pontos ou um ponto em movimento. Pode assumir formas diversas e é o instrumento que torna visível aquilo que ainda não existe, a não ser na imaginação. Ajuda a construir a tipografia. • Forma: existem três formas básicas que são o quadrado, o círculo e o triângulo equilátero. Cada uma tem características específicas e carrega uma grande quantidade de significados, que podem variar de acordo com a época e a cultura. • Direção: reflete o caráter das formas básicas. O quadrado expressa a horizontal e a vertical, o círculo expressa a curva e o triângulo expressa a diagonal. • Tom: é a intensidade da obscuridade ou claridade de qualquer coisa vista, graças à presença ou à ausência relativa de luz. Essas gradações auxiliam nas representações dimensionais e volumétricas. • Cor: tem maior afinidade com as emoções e possui três dimensões que podem ser definidas e medidas. A primeira é o matiz ou croma (amarelos, vermelhos e azuis); a segunda é a saturação (pureza relativa da cor, do matiz ao cinza); e a terceira é o brilho (gradação tonal da cor). 31 • Textura: elemento ótico ou tátil, que reflete o caráter de uma superfície. Pode servir como uma experiência sensível e muito enriquecedora. • Escala: é bastante variável. O processo de modificação e definição dos elementos constituem a escala, que é muito usada para representar medidas proporcionais reais. • Dimensão: sua representação depende muito da ilusão. Tem fórmulas usadas para produzir uma sensação de realidade, obtida através da visão estereóptica e binocular. • Movimento: também depende da ilusão. Leva em consideração a quantidade de repouso que compositivamente projeta a mensagem visual. Estes elementos primários ajudam a transmitir de forma clara a mensagem que se quer passar – é a partir deles que nasce a composição visual de um projeto de design gráfico e é a partir do design gráfico que nasce um projeto de identidade visual. Essa, por sua vez, cria novos conceitos a partir dos que vimos até agora. Strunck (1989) coloca que, basicamente, são quatro os elementos que constituem a identidade visual: logotipo, símbolo, cores e alfabeto. O logotipo é a particularização da escrita de um nome, representado por um mesmo tipo de letra – especialmente criada ou não; o símbolo é um sinal gráfico que passa a identificar alguma coisa; as cores são utilizadas na representação dos elementos, sempre nos mesmos tons, e, muitas vezes, possuem uma determinada significação; o alfabeto é aquele empregado para escrever as informações complementares, sempre na mesma tipografia (STRUNCK, 1989). Além disso, elementos secundários como fotografias, pinturas, desenhos e grafismos podem aparecer para dar suporte à mensagem que se quer transmitir, todos envolvendo os elementos primários do design gráfico, já citados anteriormente. A seguir (figura 8) vemos um exemplo dos elementos que constituem a identidade visual da banda norte-americana de rock Nirvana, um grupo que obteve muito sucesso no início da década de 1990. É possível notar a aplicação do logo e tipografia nas capas dos álbuns, que também possuem suas identidades visuais próprias: percebemos que foram desenvolvidos logotipos e imagens especialmente para cada obra, com elementos que combinam bem com o tema e conteúdo musical de cada álbum. 32 Figura 8 – Identidade visual da banda Nirvana Logotipo, símbolo, cores da identidade visual da banda Nirvana e capas dos álbuns Bleach (1989), Nevermind (1991), e In Utero (1993). Fonte: All Music (202116). Certamente a banda soube trabalhar o visual em suas obras. Kurt Cobain, vocalista e guitarrista do Nirvana, se preocupava muito com cada aspecto de sua arte, desde a sonoridade, até as capas e aos videoclipes. Prova disso é a capa de Nevermind (figura 8), a qual é representada por um bebê nu nadando de baixo d’água atrás de uma nota de dólar, considerada hoje uma das 10 melhores capas de discos de todos os tempos17, segundo a revista Rolling Stone. Sobre o logotipo do álbum, o diretor de arte responsável, Robert Fischer, explica que: Eu queria que a palavra “Nevermind” parecesse que está embaixo d’água e estivesse flutuando. Então eu imprimi a fonte e a coloquei em uma máquina de xerox. Quando estava escaneando, movimentei a imagem e isso fez as ondas. Aí eu escaneei novamente e mexi em outra direção. Foi assim que consegui a fonte cheia de ondas. Hoje em dia você vai para o computador e usa filtros e coisas do tipo, e as pessoas dizem que a fonte com ondas é meio cafona. Mas naquela época isso foi revolucionário! (CAMPBELL, 2021, tradução nossa18). 16 Disponível em: . Acesso em: 15 fev. 2021. 17 Disponível em: . Acesso em: 15 fev. 2021. 18 Disponível em: . Acesso em: 29 fev. 2021. 33 É inegável a popularidade que a banda trouxe para o rock alternativo e o impacto que causou na indústria, especialmente por suas músicas que traziam críticas à mídia e ao sistema vigente e por suas identidades visuais inovadoras. Apesar dos poucos anos de carreira, que terminaram com a morte de Cobain em 1994, o Nirvana deixou um legado, tanto no campo da música quanto do design. Assim como coloca Waltenberg (2016), não devemos deixar de reconhecer o fato do rock ‘passar na frente’ de outros gêneros quando se fala sobre o álbum conceitual. Em uma lista dos melhores álbuns conceituais ranqueada pela revista FarOut19 encontramos majoritariamente discos de rock. Algumas obras aqui já citadas – Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967), Tommy (1967) e The Dark Side of the Moon (1973) – aparecem na lista, além de outras como The Rise and Fall Of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars (1972) de David Bowie, The Wall (1979) do Pink Floyd e American Idiot (2004) do Green Day. Com temas e histórias inéditas, estes álbuns (figura 9) também ajudaram a difundir a ideia e a importância de uma identidade visual. Figura 9 – Capas de álbuns conceituais The Rise and Fall Of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars (1972), The Wall (1979) e American Idiot (2004). Fonte: Discogs (202120). Até então, o rock era o gênero musical dominante entre as bandas e artistas com álbuns conceituais e esse cenário era praticamente composto por homens. Isso porque, por muito tempo, a sociedade esperou que as mulheres se dedicassem somente ao lar, à família e à religião – elas foram diversas vezes distanciadas da 19 Disponível em: . Acesso em 15 março 2021. 20 Disponível em: . Acesso em: 15 março 2021. 34 criação e execução artística, privada de usar a sua arte como profissão, linguagem de expressão e comunicação com o mundo. Quando falamos sobre mulheres na indústria musical, devemos ter em mente que nos referimos a uma minoria que vem impondo mais visibilidade desde o final do século XX, e que vem tendo a coragem de enfrentar o sistema hegemônico com mais veemência somente nas últimas décadas. Essa coragem surge com a ajuda de importantes movimentos feministas, novas tecnologias e novos gêneros musicais que chegam para revolucionar a história da indústria, tanto no que diz respeito à presença das mulheres no meio musical, quanto no que diz respeito às músicas, aos álbuns e à identidade visual que elas passam a produzir. No capítulo seguinte, trataremos mais da mulher na música da indústria cultural e da música na cultura digital, tendo em vista que novos arranjos tecnológicos nos obrigam a pensar e criar novas formas de divulgação e reprodução do trabalho musical. 3 MULHERES E A MÚSICA POP: BUSCA PELA DIFERENCIAÇÃO NA INTERNET Embora ignoradas por muito tempo, a história da música está repleta de mulheres extraordinárias que perseveraram mesmo em condições difíceis, mesmo quando foram frequentemente impedidas de ter carreiras de sucesso. Sejam elas compositoras ou instrumentistas, cantoras ou musicólogas, seja no teatro ou na orquestra, na música clássica ou na música popular, no jazz, no blues, no country, no folk, no gospel, no rock ou no pop – as mulheres estiveram presente das mais variadas formas e abriram caminhos no universo musical, ao mesmo tempo em que quebraram paradigmas e as barreiras impostas a elas desde muito cedo. Com a evolução da tecnologia nos aparelhos e a digitalização das gravações, ficou ainda mais difícil se destacar em um mercado tão vasto e genérico, principalmente no gênero do pop contemporâneo. Afinal, como criar uma diferenciação dentro de uma indústria padronizada que busca acima de tudo a comercialização rápida da música e dos produtos atrelados a ela? Como criar uma marca pessoal relevante que aproxime e crie identificação com o público? A Internet, como grande catalizadora desta discussão, possibilitou muitas formas de manifestações artísticas e hoje é o principal meio de divulgação para as mulheres da indústria musical. Em um meio onde a imagem se tornou o centro de tudo, elas encontraram caminhos para promoverem seus trabalhos e a si próprias. A identidade visual entra em cena de novas maneiras e faz a sua parte ajudando na representação e reprodução de álbuns musicais e marcas pessoais. Para muitas destas artistas o que as torna únicas é a capacidade de não seguirem aquilo é imposto como padrão, é a capacidade de se reinventarem conforme a demanda cresce, conforme o público muda. Isso foi e continua sendo muito importante, pois deixa grandes legados para as gerações futuras da música ao mesmo tempo que as sustenta como grandes ícones e divas pop da indústria musical. 36 3.1 A TRAJETÓRIA DA MULHER NA MÚSICA: APROXIMAÇÕES COM A INDÚSTRIA CULTURAL Koskoff (1989, tradução nossa), em seus estudos sobre ideologia de gênero e seus efeitos na produção musical feminina, aponta que, quando os estudos etnográficos focam nos ritos de iniciação feminina, no nascimento ou no cuidado dos filhos, “as atividades musicais das mulheres associadas a tais eventos são frequentemente observadas.” Segundo a autora, a maioria das descrições existentes destas atividades musicais estão focadas nos papéis sociais primários das mulheres, porque são papéis centrais para a identidade de gênero delas em muitas sociedades. No século XIX, o modelo ideal de feminilidade ainda era aquele da mulher “verdadeira”, que se casava, ficava em casa, tinha filhos, criava-os e servia como uma espécie de “guia moral” para a família. Essa mulher podia se apresentar em particular e até compor músicas simples, mas se tentasse obter lucro através da música era acusada de minar sua feminilidade e o status social de sua família. Portanto, para ser uma musicista profissional, ou você tinha que ser freira e tocar música apenas para sua religião, ou nascer em uma família de músicos cuja reputação você não colocaria em risco. Foi a partir do final do século XIX que movimentações a respeito da forma como a mulher deveria ou não se comportar perante a sociedade e da sua participação na vida pública e profissional começaram a acontecer. Em termos históricos, vivia-se a “era industrial, urbana, positivista, cientificista, acadêmica, política e economicamente liberal: foi nela que vimos nascer questionamentos sobre a ideia de lucro a todo custo, sobre a luta por direitos dos operários, a luta por participação política” (FRANCHINI, 201721) – mas as mulheres não faziam parte de nada disso. Como consequência, as reivindicações da chamada primeira onda feminista foram por direitos básicos de igualdade e cidadania, como o direito ao voto, à educação, à propriedade e posse de bens, ao divórcio, ou seja, à participação das mulheres na política e na vida pública. O cenário em questão é bem 21 Disponível em: . Acesso em: 03 abril 2021. 37 retratado no filme As Sufragistas (201522), que relata a luta deste importante movimento – denominado como sufragista pelas próprias mulheres que dele participaram. Quando o sufrágio feminino atingiu seu auge em 18 de agosto de 1920, dia da ratificação da Décima-Nona Emenda dos Estados Unidos23, as mulheres passaram a ocupar novos lugares na sociedade. Trueman (2015, tradução nossa24) refere que, com o surgimento da "Era do Jazz", a figura da melindrosa liberal – conhecida como flapper na língua inglesa – choca as gerações mais velhas da época com seu novo estilo de cabelo (o chamado longbob), suas roupas curtas e suas meias de seda enroladas logo acima do joelho. Outra definição para o termo, encontrada no dicionário Merriam-Webster, é de “uma jovem mulher dos anos 1920 que demonstra liberdade em relação às convenções e condutas25.” Além disso, o jazz e o blues proporcionaram empregos para centenas de mulheres, o que fez com que elas estivessem presentes no mercado de trabalho após o fim da Primeira Guerra Mundial, dando-lhes mais independência financeira e social. A música acabou se tornando uma saída para a rebelião que ainda permanecia viva dentro delas: os salões de dança, os clubes e os bares clandestinos eram lugares onde as mulheres podiam, de certa forma, escapar dos papéis tradicionais exigidos delas por tanto tempo. Nestes locais elas tinham maior liberdade em sua linguagem, roupas e comportamento, graças aos ideais de igualdade e sexualidade livre que começaram a se espalhar (TOSIN, 2017, tradução nossa26). Artistas como Ella Fitzgerald, Lil 'Hardin, Bessie Smith e Ma Rainy (figura 10), também conhecida como a “Mãe do Blues”, abriram caminho para que outras mulheres buscassem carreiras nas populares artes performáticas. Agora havia muito mais possibilidades para as mulheres em termos de vida pública e entretenimento. 22 As Sufragistas (Suffragette). Sarah Gavron. Faye Ward, 2015. 1 DVD (106 min), son., color. 23 Emenda que garante o direito de voto à todas as mulheres em todo o território dos Estados Unidos. Disponível em: . Acesso em: 03 abril 2021. 24 Disponível em: . Acesso em: 03 abril 2021. 25 Disponível em: . Acesso em: 03 abril 2021. 26 Disponível em: . Acesso em: 03 abril 2021. 38 Figura 10 – Mulheres na música na década de 1920 Ella Fitzgerald, Lil ‘Hardin, Bessie Smith e Ma Rainy. Fonte: Discogs (202127). É importante frisar que, na mesma década, em 1924, surgia também a Escola de Frankfurt, uma grande vertente do pensamento filosófico e sociológico que trouxe conceitos muito importantes para a história musical. Um destes conceitos é o de Indústria Cultural, termo criado pelos frankfurtianos Adorno e Horkheimer (2006), para designar o conjunto de meios de comunicação como o cinema, o rádio, a televisão, os jornais e as revistas, que formam um sistema de manipulação social e controle sobre a sociedade, justamente porque são mais acessíveis às massas. Os autores mencionam que, a passagem do telefone para o rádio, em meados de 1922, foi fundamental para a disseminação da cultura de massa: A passagem do telefone ao rádio separou claramente os papéis. Liberal, o telefone permitia que os participantes ainda desempenhassem o papel do sujeito. Democrático, o rádio transforma-os a todos igualmente em ouvintes, para entregá-los autoritariamente aos programas, iguais uns aos outros, das diferentes estações. (ADORNO; HORKHEIMER, 2006, p. 100). Neste sentido, os autores tratam a música como uma mercadoria do sistema capitalista. De acordo com estudos de Adorno (1997) a respeito da música popular – principalmente do jazz norte-americano – a padronização, a repetição e o glamour são elementos que constituem a música da indústria cultural, são os mecanismos de promoção que formam um hit difundido radiofonicamente, e, posteriormente, em outros meios de comunicação. Ou seja, a música popular possui uma definição baseada em sua natureza comercial, orientada para a venda: “essencialmente é constituída de tradições, estilos e influências, mas também é um produto econômico 27 Disponível em: . Acesso em: 05 março 2021. 39 que é investido com significado ideológico por muitos de seus consumidores.” (SHUKER, 2001, p. 7, tradução nossa). Segundo Tosin (2017, tradução nossa), o jazz foi um destes estilos musicais populares que começou “nas sociedades afro-americanas, mas logo se espalhou para as comunidades brancas de classe média, onde o estilo continuou a evoluir.” Com a introdução das transmissões de rádio, o público pode experimentar diferentes estilos de música sem visitar fisicamente um clube de jazz. Além disso, Tosin (2017, tradução nossa) faz questão de pontuar que as estações de rádio urbanas tocavam o jazz afro-americano com mais frequência do que as estações suburbanas, devido à grande concentração de afro-americanos em áreas urbanas. O jazz desafiou a segregação racial e outras questões sociais na sociedade americana, foi responsável por muitas inovações tecnológicas, como estações de rádio comerciais. Surgiu como um fenômeno cultural homogêneo, popular em todas as divisões raciais, e ajudou a instrumentar mudanças culturais e tecnológicas na sociedade americana. (TOSIN, 2017, não paginado, tradução nossa28). Nina Simone foi a primeira pianista clássica, cantora e compositora negra de jazz a fazer sucesso em seu país. Tornou-se uma das primeiras artistas negras a estudar na aclamada Escola Juilliard, em Nova York, e teve seu estrelato marcado pelo ativismo na luta dos Direitos Civis da população negra estadunidense, entre 1954 e 1968. A partir do momento em que lançou sua primeira música, Simone virou “tópico de discussão em publicações que cruzavam divisões raciais, políticas e culturais” (FELDSTEIN, 2005, p. 6, tradução nossa) em diversos veículos de comunicação da época. Feldestein (2005, tradução nossa) analisa que, no cruzamento entre raça e gênero, a artista provocou rupturas profundas – caso contrário, mulheres seriam “apenas” cantoras, enquanto os homens seriam grandes instrumentistas. Na década de 1920, por exemplo, as cantoras de blues eram extremamente bem-sucedidas, mas muitas pessoas as consideravam simplesmente como animadoras populares e as associavam à sexualidade e aos vícios urbanos da classe trabalhadora mais do que à habilidade técnica ou ao talento artístico adquirido. (FELDSTEIN, 2005, p. 8, tradução nossa). 28 Disponível em: . Acesso em: 03 abril 2021. 40 Feldestein (2005, tradução nossa) também conclui que, embora Simone não fosse uma líder política, uma intelectual tradicional ou uma diplomata, através de sua posição como artista afro-americana ela absorveu e disseminou uma visão de gênero da liberdade e da cultura negra, que teve diversas implicações para as análises do feminismo da segunda onda. Essa fase, também conhecida como a fase do feminismo radical segundo Franchini (201729), se caracterizou pela luta por direitos reprodutivos e discussões acerca da sexualidade – como a distinção entre sexo e gênero. A segunda onda do feminismo acontece logo após os anos 1950, uma época em que a Segunda Guerra Mundial deu temporariamente às mulheres um certo senso de liberdade, mas que terminou assim que os homens retornaram as suas casas e elas foram retiradas da força de seus trabalhos (O’BRIEN, 1996, tradução nossa). Com tantas mulheres se tornando donas de casa novamente, sentindo-se reduzidas e desvalorizadas, esse papel precisava ser vendido pela mídia com algo doce e importante. De acordo com O’Brien (1996, p. 37, tradução nossa), “uma das maneiras mais eficazes de divulgar a imagem da feminilidade domesticada era por meio do pop do pós-guerra – um ideal personificado em Doris Day, a famosa loira- oxigenada de Hollywood.” (Figura 11). Essa imagem acabou criando o estereótipo da 50’s Baby Doll, um fenômeno baseado em vestidos de babados e sorrisos inocentes cobertos de maquiagem. No início da música pop “a beleza era construída para deslumbrar” (O’BRIEN, 1996, p. 43, tradução nossa). Havia um elemento de bravata em quão caro poderia ser o vestido de uma mulher, e quanto maior a estrela, mais caras eram as lantejoulas. Aqui nós podemos perceber claramente a influência da indústria cultural, pois a música pop surge na eclosão do movimento artístico da Pop Art, no início dos anos 1950. Descrita como uma arte “popular, transitória, consumível, de baixo custo, produzida em massa, jovem, espirituosa, sexy, glamorosa e um grande negócio” (STILES; SELZ, 1996, p. 297 apud TELES, 2017, p. 18), a Pop Art é exatamente aquilo que a figura das Baby Dolls transmitia. Alma Cogan e Connie Francis (figura 11) foram as maiores estrelas femininas da década em questão, pois conquistaram o público com sua beleza, carisma, 29 Disponível em: . Acesso em: 07 abril 2021. 41 talento para a música e habilidade em se encaixar ao padrão da época. O que Nina Simone fez logo em seguida pressagiou os anos 1960, “uma era em que o pop estava prestes a explodir, estilhaçando os mitos das Baby Dolls junto dele.” (O’BRIEN, 2018, p. 64, tradução nossa). Figura 11 – 50’s Baby Dolls Doris Day, Alma Cogan em fotografia com The Beatles e Connie Francis. Fonte: Discogs (202130). A partir do final da era Baby Dolls, a contracultura começou a crescer com força na América do Norte e não demorou a assumir uma dimensão internacional. Genericamente, Whiteley (2000) diz que esse movimento pode ser definido como um rótulo a um grupo “solto” de jovens, uma geração que desafiava os conceitos tradicionais de carreira, família, educação e moralidade e cujo estilo de vida era vagamente organizado em torno da noção de liberdade pessoal. A música teve um propósito muito importante para esse grupo, pois através dela podiam expressar suas atitudes, “proporcionando um local particular de autoidentidade e estabelecendo uma cultura e laços políticos comuns.” (WHITELEY, 2000, p. 23, tradução nossa). O rock progressivo e o rock psicodélico eram os subgêneros musicais do momento e o papel das mulheres dentro deles foi bastante marginalizado. Segundo Whiteley (2000, tradução nossa), elas ainda estavam longe de receber o status e a liberdade de seus colegas, eram castigadas por serem diferentes – principalmente na mídia – e cada vez mais projetadas nos papéis atribuídos a elas pelos grupos 30 Disponível em: . Acesso em: 05 março 2021. 42 masculinos mais poderosos da época. Musicalmente isso se refletia em duas divisões amplas: A escola do “amor” sendo geralmente representada por grupos como The Beatles e Donovan, e a escola do "sexo" por, por exemplo, The Rolling Stones, The Doors e Jimi Hendrix. Em ambos os casos, a mulher é posicionada como subserviente ao homem. [...] Os Beatles puderam projetar os dilemas da sociedade contemporânea, a paranoia, a angústia social, e estabelecer a estrutura de "Amor, Amor, Amor" como forma de reconstruir um senso de comunidade. [...] Os Rolling Stones igualaram a liberdade sexual, promiscuidade e hedonismo (simultaneamente identificando, descrevendo e caracterizando o estilo machista de performance). (WHITELEY, 2000, p. 25-26, tradução nossa). Esse rock mais sério e adulto que emergiu de uma composição de grupos contraculturais, do blues e de uma elevação do ‘músico impuro’ como artista, criou uma “cena masculina de elite baseada no virtuosismo da guitarra, letras errantes e na capacidade em ficar chapado.” (O’BRIEN, 1996, p. 100, tradução nossa). Ao entrar nesse mundo, Janis Joplin, um dos maiores nomes femininos da época, não viu outra opção senão imitá-los – porém, ao escolher esse som para acompanhar a força total de sua voz, ela acabou criando algo completamente original – impulsionado, expansivo e fora de controle. Segundo O’Brien (1996, p. 100, tradução nossa), a breve e ardente carreira de quatro anos de Joplin “simbolizou o dilema mais extremo para as mulheres no rock’n’roll: como competir com os homens, mas sem perder um senso de valor próprio.” Outra figura a importante no desenvolvimento do rock no final dos anos 1960 foi Grace Slick. Ao contrário de Joplin, O’Brien (1996, p. 106, tradução nossa) coloca que o ponto de vista de Slick “não era centrado em uma oposição do ‘eu contra o mundo’. Benigna, sarcástica, confiante, ela era uma figura graciosa com seu rosto curiosamente comprido, olhos marcantes e voz penetrante e autoritária.” Mas apesar de suas personalidades opostas, as duas artistas se encaixavam no ideal da rock chick, definidas por Inness (2003, p. 177, tradução nossa) como “mulheres dos homens, sexy, sexuais, um dos caras”. Elas vestiam o que queriam e não sentiam remorso em não se comportar como garotas. Com sua música, Grace Slick e Janis Joplin (figura 12) exerceram influência direta sobre as artistas femininas e grupos punk que surgiram nas décadas seguintes, como Joni Mitchell, Stevie Nicks, Patti Smith, The Raincoats, The Runaways, Joan Jett e Bonnie Raitt. 43 A verdade é que, apesar de seu início radical, “os códigos do rock mainstream31 são muito conservadores, muito religiosos e masculinos para que uma mulher encontre um lugar confortável.” (O’BRIEN, 1996, p. 130, tradução nossa). Elas tentaram empurrar as fronteiras de gênero ao longo dos anos 1960 e 1970 para tentar derrubar a “superioridade” dos homens, mas, independentemente do gênero musical, remanesceram mais como objeto do que como sujeito na indústria musical (INNESS, 2003, tradução nossa). Figura 12 – Mulheres no rock da contracultura Janis Joplin, Grace Slick e Pattie Smith. Fonte: Discogs (202132). Contudo, a música popular é muito importante porque ajuda a capturar a complexidade dos tempos, e assim como outras formas de cultura, fornece um lugar seguro para explorar possibilidades alternativas. [...] a música popular ajudou a expressar e conter algumas das maiores mudanças em andamento na sociedade. Por ser a música da juventude, ela refletia as experiências de mudança dos jovens com o movimento antiguerra, a contracultura, o movimento das mulheres e a revolução sexual. (INNESS, 2003, p. 174, tradução nossa). Segundo Inness (2003, tradução nossa), no início dos anos 1970 a música popular era mais doce e focada na composição, apelando para o público feminino de uma forma que o rock não fazia. As composições masculinas eram representativas 31 Expressão usada para aquilo que está em voga, sendo tido como tendência ou como o principal. Disponível em: . Acesso em: 12 abril 2021. 32 Disponível em: . Acesso em: 05 março 2021. 44 de um novo perfil identificado na mídia popular – o do homem sensível, que tinha um apelo para o público feminino muito mais intelectual do que sexual. A autora (INNESS, 2003, p. 178, tradução nossa) refere que “o estilo em si também era particularmente adequado para artistas do sexo feminino, que não precisavam invadir o playground mais masculino do rock.” Suas raízes estavam no folk, estilo em que as mulheres sempre estiveram mais presentes e, com a separação dos Beatles em 1970, havia mais espaço no mercado jovem, mais espaço para elas na música popular. Essas mulheres tocavam os instrumentos que queriam, casualmente dispensavam backing vocals, exploravam uma variedade de estilos musicais, escreviam suas próprias músicas e criavam suas próprias melodias. Elas se posicionavam exatamente na linha entre feminidade e feminismo, vestindo-se com roupas confortáveis, deixando seus cabelos soltos e naturais e usando pouca maquiagem, ou seja, “vestiam-se para si mesmas, não para impressionar ou atrair homens.” (INNESS, 2003, p. 183, tradução nossa). Porém, no final da década de 1970, os produtores musicais começaram a buscar um público maior e uma música com apelo mais amplo: O estilo mais suave e pessoal da compositora feminina foi eclipsado pela batida crescente do disco, e a compositora feminina assertiva foi substituída pela diva da discoteca, bonita, sexy e emblemática de um estilo de vida consumista mais hedonista. (INNESS, 2003, p. 174, tradução nossa). Para além de uma sonoridade, a era disco forjou outras formas de se relacionar com a música, consolidando a pista de dança e as discotecas como novos territórios de fruição e experiências estéticas da cidade (LIMA, 2017). Sob influência de outros gêneros musicais, essa era foi capaz de acolher uma parcela historicamente marginalizada da população dos Estados Unidos, “composta por negros, imigrantes latinos, hippies e gays que encontravam na cultura da noite espaços onde suas identidades e performatividades se mostravam possíveis.” (LIMA, 2017, p. 26). 45 Lima (2017) também coloca que a disco foi capaz de desviar os códigos heteronormativos33 de performance na sociedade, como víamos principalmente no rock, gênero que fez parte da cultura dominante por muito tempo. Ao se apropriar das minorias, sobretudo da comunidade gay, essa música foi capaz de colocar o padrão dominante em perspectiva. Assim como explica Dyer (2002, p. 153 apud LIMA, 2017, p. 26), “a anarquia do capitalismo está em lançar produtos dos quais um grupo oprimido pode se apoderar e usar para restaurar sua própria cultura.” A música disco gerou uma completa revolução estética, com roupas mais justas e decotadas, com passos de dança sem pudor e uma sexualidade explícita antes nunca manifestada. Também trouxe uma certa “sede de modernidade”, que levou os músicos a procurar um som tão novo quanto os espaços aos quais a sua música se destinava – as decorações se tornaram mais extravagantes, com luzes psicodélicas, fumo artificial e a clássica bola de espelhos – fazendo a disco evoluir numa vertente mais eletrônica, com predominância de arranjos em sintetizadores. (TELES, 2008). A febre da disco nos Estados Unidos também foi impulsionada pelo cinema, com o sucesso do filme “Nos Embalos de Sábado à Noite” (1977) – protagonizado por John Travolta e com trilha sonora dos Bee Gees –, e pela cristalização da figura da “diva” na música pop. [...] As chamadas “disco divas”, representadas por nomes como Diana Ross, Donna Summer, Patti LaBelle e Gloria Gaynor, foram cuidadosamente criadas por produtores cuja importância tornou-se tão simbólica quanto a das cantoras que produziram (LIMA, 2017, p. 28). 33 O termo “heteronormativo” define práticas regidas por códigos de ordem exclusivamente heterossexual, nas quais se ignora, por razões culturais, sociais, religiosas ou políticas, todos os outros tipos de orientação sexual. (LIMA, 2017, pg. 26). 46 Figura 13 – Nos Embalos de Sábado à Noite Fonte: Nos Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever). John Badham. Paramount, 1977. DVD (118 min), son., color. As disco divas (figura 14) citadas anteriormente encontraram nessa cultura um lugar de independência, de superação, livre de pressões, um reduto para habitar perceber o mundo de outras maneiras e gerar novos significados para elas e para todos aqueles que um dia foram julgados e excluídos da sociedade (LIMA, 2017). Em 1975, o estranho som sensual e surreal do orgasmo de uma mulher presente por 17 minutos em uma batida hipnótica sintetizada dominou as ondas de rádio – Love To Love You Baby, de Donna Summer, deu um tom completamente novo ao pop feminino (O’BRIEN, 1996, tradução nossa). Outras canções como I Will Survive (1978), de Gloria Gaynor, I’m coming out (1980), de Diana Ross, Dancing Queen (1976), do grupo ABBA e New Attitude (1984), de Patti LaBelle, se tornaram clássicos da era disco, hinos atemporais, ainda cantados e reproduzidos nas décadas que seguiram. 47 Figura 14 – Disco Divas Gloria Gaynor, Dianna Ross, Donna Summer, ABBA e Patti LaBelle & The Bluebelles. Fonte: Pinterest (202134). Ainda segundo Lima (2017, p. 30), “a vivência dessa materialidade na cultura disco, impressa sobretudo no corpo, pavimentou a ascensão da dance music, nos anos 1980, influenciando fortemente a produção, a experiência e a estética musical do pop naquela década.” Esse novo estilo começou a conquistar seu espaço e, em meio às mudanças, a figura da Madonna emergiu tão forte quanto os artistas masculinos que dominavam o cenário da música pop na década de 1980. As referências culturais pós-disco deixaram boas oportunidades para que o trabalho e a imagem inicial de Madonna fossem de fácil aceite e comercialmente vendáveis. Com o advento da televisão, segundo Palisca (2007, p. 697), os fatores sociais e tecnológicos desempenharam “um papel fundamental na evolução da cultura musical e estiveram na origem de um crescimento inédito do público dos diversos gêneros musicais.” Em agosto de 1981, a Warner Communications MTV abriu para negócios e, em uma questão de dois anos, o canal de TV à cabo se tornou o segundo meio de comunicação mais importante, atrás apenas do rádio, entre os veículos promocionais da indústria musical. Neste sentido, O’Brien (1996, p. 215, tradução nossa) destaca que “a imagem pop se tornou uma ferramenta crucial 34 Disponível em: . Acesso em: 15 abril 2021. 48 de marketing de massa, criando uma demanda por uma ‘apresentação sexual’ elegante.” Foi nessa lacuna que saltou Madonna. A partir de seu segundo álbum de estúdio, Like a Virgin (1984), a artista encontrou a ferramenta mais eficiente para promover seu trabalho e as transformações visuais que empreendia a cada single lançado: o videoclipe. Com a ascensão da MTV, uma nova gramática do audiovisual foi incorporada às estratégias de mercado das majors35, atualizando a forma de se usar a televisão como suporte de divulgação de seus produtos musicais. Se antes adquiriam emissoras de TV e rádio, facilitando a publicidade de seu casting, a partir dos anos 1980, as gravadoras se veem obrigadas também a se adequar à nova linguagem proposta pelo modelo lançado pela MTV. (LIMA, 2017, p. 35). Os vídeos de Madonna ajudaram a formar e eternizar personagens icônicas de sua carreira, além de marcarem não apenas figurinos que seriam copiados até a atualidade, mas um “jogo performático singular no pop, capaz de redefinir o modelo de negócio da indústria.” (LIMA, 2017, p. 35). Kellner (2001, p. 340) complementa que Madonna transgredia as “fronteiras do trajar tradicional e se entregava a um comportamento sexual desinibido, subvertendo os limites do ‘apropriado’ para a mulher”, envolvendo questões relacionadas a gênero, raça, sexo e religião na concepção de seu trabalho. O videoclipe, portanto, passou a funcionar como uma espécie de “vitrine” para Madonna, que também se tornou um suporte da mídia para as teorias acadêmicas pós-modernas sobre cultura pop, sexualidade e capitalismo. Cyndi Lauper foi outra artista da época que atingiu as paradas em 1984 com o desavergonhado hino feminista Girls Just Wanna Have Fun. De acordo com O’Brien (1996, tradução nossa), ela apimentou a cena pop com sua personalidade animada, roupas de brechó multicoloridas e uma música dance acessível, assim como Madonna fez mais tarde com o tule esfarrapado, renda e crucifixos no videoclipe de Like a Prayer (1989). Além disso, Lauper cantou sobre masturbação feminina no hit She Bop (1983) seis anos antes de Madonna “se contorcer em uma cama de palco em uma orgia de autoconsumo.” (O’BRIEN, 1996, p. 221, tradução nossa). 35 Gravadoras que lideram o mercado mundial da indústria da música. 49 Figura 15 – Artistas pop da década de 1980 Madonna no videoclipe de Like a Prayer e Cyndi Lauper no videoclipe de Girls Just Wanna Have Fun. Fonte: Youtube (202136). Já na metade da década de 1980, Whitney Houston foi responsável por “quebrar o modelo para mulheres negras cantoras de soul, acumulando o tipo de dinheiro, poder e influência que historicamente as escapava.” (O’BRIEN, 1996, p. 281, tradução nossa). A pureza ressonante de sua voz deu até mesmo ao material mais brega uma intensidade épica: alguns de seus principais sucessos – Saving All My Love For You (1985), I Wanna Dance With Somebody (1987) e, em seguida, I Will Always Love You (1992) – pulsaram com orgulho e autodeterminação. Foi apenas no início dos anos 1990 que Houston encontrou em Mariah Carey uma “rival” a sua altura, com uma ginástica vocal tão extravagante quanto a que ela era capaz de fazer. E para contrastar com esse cenário pop que crescia cada vez mais, é imprescindível falarmos sobre as bandas femininas de rock que nasciam e renasciam também no início dos anos 1990, mas desta vez através de um gênero musical no qual muitas delas encontraram sua verdadeira inspiração: o punk. Nesse período, várias organizações feministas foram fundadas por mulheres roqueiras, que começaram a tocar a música punk como uma forma de divulgar e espalhar 36 Disponível em: e . Acesso em: 16 abril 2021. 50 ensinamentos feministas através de concertos organizados por todo os Estados Unidos: Com o apoio da Feminist Majority Foundation e Fund, concertos foram organizados [...] "para encorajar o público a se educar, se manifestar, registrar- se para votar e aprender o que podem fazer para proteger seu direito ao aborto e ao controle da natalidade". Em 1993 um pequeno grupo de mulheres de Nova York formou Strong Women In Music (SWIM), 'para discutir seus papéis como mulheres na comunidade musical e trabalhar em possíveis soluções / apoios / ações de grupo para problemas que as mulheres tiveram que lidar anteriormente em um base individual'. (LEONARD, 2007, pg. 116, tradução nossa). Todo esse movimento acarretou no surgimento da terceira onda do feminismo e de uma rede de mulheres intitulada riot grrrl37. Leonard (2007, tradução nossa), em seus estudos sobre o assunto, refere que elas trabalharam diretamente em solidariedade com o movimento queercore38, aderindo à ideologia que enfatizava o reconhecimento da interseccionalidade e desafiava a construção e implementação de sistemas dominantes de opressão, como o gênero binário e a heterossexualidade compulsória. Além de bandas conectadas com a riot grrrl, como Huggy Bear e Bikini Kill, que se vinculavam ao queercore, essa identificação também foi feita por muitos escritores dos riot grrrl zines (figura 16) – textos independentes, auto publicados, sem fins lucrativos e dedicados a uma ampla variedade de tópicos – que discutiram questões como “a visibilidade lésbica, promoveram bandas queercore e incluíram relatos pessoais de garotas sobre sua sexualidade.” (LEONARD, 2007, pg. 138, tradução nossa). 37 Garotas rebeldes, em tradução livre. 38 Junção dos termos “queer” e “hardcore” para denominar um movimento que lutou contra a discriminação de minorias e LGBTQ+ dentro da cena musical punk da década de 1990. (LEONARD, 2007, tradução nossa). 51 Figura 16 – Riott Girrrl Zines Fonte: Leonard (2007, p. 119 e 139). Diferentemente de Madonna ou qualquer cantora pop da época, a música punk deu a garotas que nunca se sentiram em casa com os laços e vestidos tradicionais da infância feminina um novo jeito de ser mulher, um novo jeito de confrontar o sistema (MELTZER, 2010, tradução nossa). Em seus shows, os membros da Bikini Kill (figura 17) se rotulavam com palavras como ‘VADIA’ escritas com caneta hidrocor na barriga e nos braços, impedindo qualquer termo depreciativo que pudesse ser direcionado a elas de as atingirem pessoalmente. “Numerosas outras bandas riot grrrl também escreveram slogans em seus corpos, o que lhes permitiu oferecer respostas espontâneas a importunadores e brincar com códigos de exibição.” (LEONARD, 2007, p. 122, tradução nossa). Sobre o legado que estas mulheres deixaram, Meltzer (2010, p. 40, tradução nossa) cita algo que cientistas chamam de efeito borboleta – “a noção de que as asas de uma borboleta batendo em um lugar podem criar pequenas mudanças na atmosfera, que mais a diante, podem causar um enorme sistema climático.” O movimento riot grrrl teve um efeito borboleta na música feminina dos anos noventa e sua influência foi muito importante para o surgimento do termo girl power, popularizado em 1996 pelo grupo britânico feminino Spice Girls. O termo foi repetidamente usado no marketing e promoção do grupo, a tal ponto que as palavras realmente se tornaram sinônimos da música pop que elas produziam. 52 Figura 17 – Bikini Kill na cena punk da década de 1990 Fonte: Discogs (202139). O único obstáculo era que, como vários críticos apontaram, “a mensagem de ‘poder feminino’ promovido pelas Spice Girls era um tanto quanto contraditória e redutora” (LEONARD, 2007, p.158, tradução nossa), principalmente porque elas acabaram diminuindo a significação e o radicalismo das riot grrrl atribuídos ao slogan. A versão de girl power das Spice Girls encontrava-se dentro de um discurso de romance heterossexual ao mesmo tempo em que sua imagem se concentrava em preocupações femininas tradicionais, como maquiagem e figurino (LEONARD, 2007, tradução nossa). Com o sucesso crescente do grupo, essa imagem passou a ser licenciada para, praticamente, qualquer peça de mercadoria imaginável, desde bonecas até videogames, refrigerantes e roupas de cama. Unidas por uma empresa de gerenciamento em 1994, após uma rodada de testes, elas eram um produto totalmente construído pela indústria, cujo primeiro objetivo sempre foi o mesmo: vender. Porém, como coloca Shuker (2001), o pop não se importava em ser assim: O pop implica um conjunto de valores muito diferente do rock. O pop não guarda o segredo de ser mainstream. Ele aceita e abraça o requisito de ser imediatamente agradável e de fazer uma bela imagem de si mesmo. O rock, por outro lado, gostava de pensar que era de alguma forma mais profundo, não conformista, autodirigido e inteligente. (HILL, 1986, p. 8 apud SHUKER, 2001, p. 8). 39 Disponível em: . Acesso em: 05 março 2021. 53 Mesmo com a mensagem de girl power problemática, é impossível não elogiar o grupo pela promoção de uma ideia de empoderamento para um público feminino jovem. Apesar de reconhecer que as Spice Girls "não eram profundas", Whiteley (2000 apud LEONARD, 2007, p. 159) argumenta que “o grupo era importante por apresentar uma mensagem de feminismo popular para fãs jovens que fosse acessível e divertida.” Figura 18 – Spice Girls em 1996 Fonte: Discogs (202140). De acordo com Mayhew (2001, p. 174, tradução nossa), no final dos anos 1990 a mídia notou que o sucesso comercial de mulheres na música pop estaria relacionado a uma “equalização mais ampla das relações de gênero”. Artistas como Madonna, Whitney Houston, Celine Dion, Mariah Carey, Shania Twain, Alanis Morissette e as próprias Spice Girls, que estavam no topo das paradas na época, tem seu sucesso interpretado como um reflexo da igualdade das mulheres na sociedade em geral (MAYHEW, 2001, tradução nossa). Mesmo com a separação das Spice Girls nos anos 2000, o nascimento de grupos como Destiny’s Child – de onde Beyoncé sairia direto para o estrelato alguns anos depois – e o teen pop com divas como Britney Spears e Christina Aguilera marcaram o início da música pop no século XXI. Greene (p. 13, 2015, tradução nossa) coloca que, ao longo de sua carreira, Madonna foi “defendida e repreendida por estudiosas feministas por sua relação ambivalente com os objetivos políticos, culturais e sociais do movimento”, porém, apesar