UNVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL ÁREA DE HUMANIDADES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA MESTRADO PROFISSIONAL ALINE CARLA DE ALMEIDA CHEDID SAGRADO E HISTÓRICO: A CATEDRAL NOSSA SENHORA DA OLIVEIRA COMO LUGAR DE MEMÓRIA VACARIENSE VACARIA 2025 ALINE CARLA DE ALMEIDA CHEDID SAGRADO E HISTÓRICO: A CATEDRAL NOSSA SENHORA DA OLIVEIRA COMO LUGAR DE MEMÓRIA VACARIENSE Texto dissertativo para apresentação à banca do Mestrado/Doutorado Profissional com área em Ensino de História da Universidade de Caxias do Sul como requisito para a obtenção do título de Mestre/Doutor. Orientador: Dr. Rodrigo Luís dos Santos VACARIA 2025 Catedral Nossa Senhora da Oliveira (Moreira, 2022). Disponível em : https://www.facebook.com/share/p/16waEbAXoE/?mibextid=wwXIfr. Acesso em: 25 jul. 2005 Dedico este trabalho aos meus pais, Antônio Carlos de Almeida e Terezinha Lúcia Fontana de Almeida, minhas inspirações. AGRADECIMENTOS A Deus, fonte eterna de sabedoria, graça e consolo, por me conceder fé, força e coragem ao longo desta jornada acadêmica. Sua presença foi minha força nos dias mais difíceis e minha inspiração constante para seguir em frente, quando os desafios pareciam insuperáveis. Em cada passo, em cada conquista, senti sua orientação silenciosa, que me sustentou quando minhas forças se esgotavam. Através da sua luz, encontrei a serenidade para persistir e a motivação para alcançar meus objetivos. Sou grata por cada bênção, por cada ensinamento e por me permitir sentir a sua presença tão próxima, iluminando meu caminho. Aos meus pais, Terezinha e Antônio Carlos, que me ensinaram, com o exemplo, o valor da honestidade, da perseverança e do amor incondicional. Foram o meu porto seguro. Minha mãe, sempre rezando por mim, apoiando-me em todos os momentos e incentivando meus estudos com dedicação e ternura. Sua fé e seu carinho constante foram essenciais para que eu seguisse em frente, mesmo nos momentos de incerteza. Sempre acreditou na educação como caminho de transformação e prosperidade e fez de tudo para que eu pudesse seguir sonhando. Com seu amor e sua força, me ensinou a importância de nunca desistir, mesmo diante das dificuldades, e me proporcionou uma base sólida de valores para enfrentar os desafios da vida. Meu pai, com sua dedicação incansável, assegurava o sustento do lar e nunca deixou de acreditar no meu potencial. Sempre torceu por mim, com orgulho e fé firmes, mesmo quando os caminhos pareciam difíceis. Seu apoio constante foi um alicerce fundamental, e sua confiança em mim me deu coragem para seguir adiante. Seu exemplo de trabalho árduo e perseverança me motivou a continuar buscando meus sonhos, sabendo que, com determinação, tudo é possível. Cada uma de minhas vitórias carrega, em sua essência, o sacrifício, a generosidade e a confiança de vocês. Esta conquista também é de vocês. Às minhas filhas... À minha filha Natália, por todo o carinho, compreensão e apoio incondicional ao longo dessa caminhada. Mesmo diante da minha ausência em tantos momentos, acolheu-me com amor, paciência e uma doçura imensa que sempre me trouxe paz. Seu sorriso, suas palavras e a leveza com que enfrenta a vida foram fontes constantes de inspiração e força. A alegria que você transmite iluminou meus dias e me ajudou a seguir em frente com mais confiança e coragem. À minha filha Manuela, por sua ternura, generosidade e por estar sempre ao meu lado com um coração tão cheio de amor. Sua sensibilidade e capacidade de me fazer sorrir mesmo nos dias mais difíceis foram essenciais para que eu não desistisse. A luz que você trouxe para minha vida me deu equilíbrio e ânimo nos momentos em que mais precisei. Seu olhar atento, suas palavras doces e sua presença carinhosa aqueceram meu coração e renovaram minhas forças quando tudo parecia mais desafiador. Cada uma de vocês, com sua forma única de amar, tornou esta conquista possível. Vocês caminharam comigo com afeto, compreensão e alegria, sendo minhas maiores fontes de inspiração e força. Sou eternamente grata por ter filhas tão incríveis ao meu lado. Aos meus irmãos, cuja presença foi luz nos momentos escuros, alívio nas incertezas e força nos desafios. Em seus gestos de carinho, conselhos e silêncios cúmplices encontrei apoio e coragem. À Adriana, irmã e amiga, agradeço por estar sempre atenta, guiando-me com sabedoria e carinho quando as dúvidas surgiam. Sua serenidade e paciência foram fundamentais para que eu não desistisse, especialmente nos momentos em que as incertezas pareciam tomar conta de minha mente. Você sempre soube como me acalmar e me trazer de volta ao foco, oferecendo conselhos e palavras de conforto que iluminaram meu caminho. Sua presença foi um apoio essencial, e sem ela, a caminhada teria sido muito mais difícil. Sou grata por sua amizade, por sua sensibilidade e por compartilhar comigo sua experiência e visão tão valiosas. Você me deu a força necessária para seguir em frente. Ao meu irmão Edson, por seu apoio incansável e sua generosidade nos gestos do dia a dia. Mesmo exausto, sem dormir e precisando trabalhar logo em seguida, não hesitou em ser nosso motorista em uma viagem importante, demonstrando, mais uma vez, sua entrega silenciosa e sua preocupação com o bem- estar da família. Seu gesto de amor e sacrifício ficará para sempre marcado em meu coração, como prova do quanto posso contar com você em qualquer circunstância. Sua presença constante foi um alívio em momentos de tensão e sua disponibilidade reafirmou o valor dos vínculos que nos unem com tanta força. À Suelen, minha irmã e companheira inseparável de vida, de sonhos e de caminhada acadêmica. Nossa conexão é profunda, construída ao longo dos anos com afeto, respeito e apoio mútuo. Crescemos juntas, lado a lado, enfrentando desafios, celebrando conquistas e aprendendo uma com a outra. No mestrado, essa parceria ganhou novos contornos e se fortaleceu ainda mais. Sua presença constante, seus conselhos, sua escuta atenta e sua fé em mim foram fundamentais para que eu perseverasse nos momentos mais difíceis. Sua forma generosa de estar ao meu lado me deu força e me lembrou do poder da presença sincera. A você, meu carinho eterno, minha admiração profunda e minha gratidão sem medidas. À Elisangela, cunhada querida, que caminhou comigo nessa jornada. Sua presença afetuosa e solidária fez toda a diferença. Com seu jeito acolhedor, você esteve ao meu lado, oferecendo apoio, palavras de incentivo e companhia nos momentos decisivos dessa trajetória. Sua sensibilidade, seu carinho e sua confiança em mim ajudaram a tornar esse percurso mais leve e possível. A você, minha gratidão sincera por ter sido parte essencial dessa conquista. Ao meu esposo Gabriel, por seu amor paciente e incondicional, por sua generosidade nas renúncias e por caminhar ao meu lado, sempre, mesmo quando o percurso se tornou árduo. Agradeço profundamente por sua presença constante, por ser meu apoio nos momentos mais desafiadores e por sempre acreditar em mim, mesmo quando as dificuldades pareciam muitas. Sua disposição em sustentar meus sonhos, em me ajudar a realizá-los com tanto empenho, dedicação e carinho, foi essencial para que eu chegasse até aqui. Sei que minha ausência durante essa jornada trouxe saudades e desafios, e sou grata por sua compreensão, por cada escolha que fizemos juntos e por entender, com tanta sensibilidade, a necessidade de cada passo que dei. Obrigada por ser meu alicerce, por me incentivar a seguir em frente e por, com seu amor, fazer dessa caminhada algo mais leve e possível. À minha família extensa, por cada palavra de ânimo, por cada gesto de compreensão e por nunca deixarem de me apoiar, mesmo nos momentos em que a distância ou o tempo me afastaram fisicamente. Vocês estiveram comigo de muitas formas. Ao professor Rodrigo Luís dos Santos, meu orientador, por sua escuta atenta, orientação inspiradora e pela confiança em meu trabalho. Sua sensibilidade diante das minhas inseguranças, aliada à exigência acadêmica, foi essencial para meu crescimento como pesquisadora. Obrigada por acolher minhas dificuldades com compreensão e por transformar desafios em oportunidades de aprendizado. Sua orientação foi um exemplo de comprometimento e dedicação. Sou profundamente grata por sua paciência, apoio e por sempre acreditar no meu potencial. Agradeço, com imensa gratidão, ao Estúdio F18, equipe de produção do documentário, cujo comprometimento, sensibilidade e profissionalismo foram fundamentais para a realização desta obra. Cada etapa da captação das imagens à edição final foi conduzida com extremo cuidado e dedicação, possibilitando transformar a pesquisa em uma narrativa audiovisual envolvente e significativa. O trabalho coletivo dessa equipe não apenas deu vida às memórias e vozes que compõem este estudo, mas também contribuiu de forma essencial para a valorização da história e do patrimônio cultural de Vacaria. Muito obrigada por acreditarem neste projeto e por fazerem parte dele com tanto zelo e competência. Agradeço, com profunda admiração e respeito, a todas as pessoas que participaram do documentário, compartilhando generosamente suas memórias, experiências e percepções sobre a Catedral Nossa Senhora da Oliveira e a história de Vacaria. Minha sincera gratidão a Leila Chedid, Adhemar Pinotti, Dr. Luís Augusto Gonçalves Costa, Paulo Chedid Lisboa, Isabel Carneiro de Almeida, Laurita Baldi, Rafael Grazziotin, Dom Orlando Dotti, Lucas Volpatto e Juliana Tonini. Suas vozes e testemunhos foram fundamentais para a construção de uma narrativa sensível, plural e comprometida com a preservação da memória coletiva. Obrigada por confiarem nesta pesquisa e por contribuírem de forma tão significativa para a valorização da identidade cultural de nossa comunidade. Estendo também meu agradecimento especial ao Padre Elisandro Guindani, Marta Marques, Juliana Tonini, Adhemar Pinotti, André Guazelli, Antônio Chedid Lisboa, Diego Frigotto, Rafael Grazziotin e Dom Orlando Dotti, pelo generoso compartilhamento de fotografias, que enriqueceram visualmente este trabalho, permitindo registrar e preservar momentos significativos da história da Catedral. Suas contribuições foram essenciais para dar forma, cor e profundidade à memória audiovisual aqui apresentada. À Diocese de Vacaria e à Paróquia Nossa Senhora da Oliveira, meu agradecimento pela acolhida, pela disponibilidade e pelo apoio à realização deste projeto. O compromisso de ambas com a preservação da história e da fé da comunidade vacariense foi essencial para o desenvolvimento desta pesquisa. Muito obrigada por abrirem as portas, compartilharem saberes e acreditarem na importância da memória como instrumento de identidade e valorização cultural. A todos aqueles que, direta ou indiretamente, contribuíram com esta trajetória com palavras, gestos, escutas ou silêncios meu mais profundo agradecimento. Cada contribuição foi um tijolo nesta construção. No coração dos Campos de Cima da Serra, ergue-se um símbolo que transcende a fé: a Catedral Nossa Senhora da Oliveira, testemunha viva da história, arquitetura e identidade de Vacaria. Aline Chedid, 2025. RESUMO Esta dissertação, inserida no campo da História, analisa a Catedral Nossa Senhora da Oliveira, no centro de Vacaria, Rio Grande do Sul, como patrimônio cultural e lugar de memória coletiva. A devoção à padroeira tem sua origem por volta de 1750, quando a imagem de Nossa Senhora da Oliveira foi encontrada durante uma queima de campo no local onde atualmente está situado o Santuário Nossa Senhora da Oliveira, consolidando-se como marco fundador da religiosidade local e referência simbólica para a comunidade. O problema de pesquisa que orienta o estudo é: como a Catedral Nossa Senhora da Oliveira contribuiu para a construção da identidade vacariense e de que forma os processos de preservação, memória e disputas patrimoniais influenciam os significados atribuídos a esse espaço pela comunidade? O objetivo geral consistiu em analisar a Catedral como patrimônio cultural e símbolo identitário de Vacaria. Os objetivos específicos foram: contextualizar historicamente a origem e a construção da Catedral Nossa Senhora da Oliveira, situando-a no processo de formação da cidade de Vacaria; examinar as intervenções, reformas e restaurações realizadas no templo, destacando as controvérsias e disputas sobre preservação patrimonial; interpretar as narrativas e memórias coletivas relacionadas à Catedral, por meio da história oral e de registros documentais e visuais; discutir a Catedral como lugar de memória e símbolo identitário e avaliar o papel do patrimônio cultural na manutenção da identidade vacariense e na valorização da memória coletiva, considerando também a produção do documentário como ferramenta de preservação e difusão cultural. A metodologia combinou análise documental e história oral, com entrevistas de pessoas com conhecimento aprofundado e envolvimento direto na história da Catedral e da cidade. Essas contribuições foram essenciais para compreender sua relevância histórica, arquitetônica, cultural, espiritual e de ambiência, evidenciando a relação entre o templo, a memória e a identidade da comunidade vacariense. Os resultados indicam que a Catedral é percebida não apenas como monumento arquitetônico, mas como espaço de fé, pertencimento e memória, atravessado por disputas em torno da preservação e tensões entre tradição e modernidade. O documentário produzido integra vozes, imagens e lembranças da comunidade, funcionando como recurso de registro, difusão e ensino de História, reforçando a centralidade da memória coletiva e do patrimônio cultural na construção da identidade vacariense. Palavras-chave: Catedral Nossa Senhora da Oliveira (Vacaria/RS); Patrimônio Cultural; Identidade; Lugar de Memória; Ensino de História. ABSTRACT This dissertation, situated in the field of History, analyzes the Cathedral of Nossa Senhora da Oliveira, located in downtown Vacaria, Rio Grande do Sul, as a cultural heritage site and a place of collective memory. Devotion to the patron saint originated around 1750, when the image of Nossa Senhora da Oliveira was found during a field burn at the site where the Sanctuary of Nossa Senhora da Oliveira currently stands, consolidating itself as a founding landmark of local religiosity and a symbolic reference for the community. The research problem guiding the study is: how has the Cathedral in what ways do processes of preservation, memory, and heritage disputes influence the meanings attributed to this space by the community? The general objective was to Specific objectives included: historically contextualizing the origin and construction of process; examining interventions, renovations, and restorations carried out on the temple, highlighting controversies and disputes over heritage preservation; interpreting collective narratives and memories related to the Cathedral through oral history and documentary and visual records; discussing the Cathedral as a place of memory and an identity symbol; and evaluating the role of cultural identity and promoting collective memory, also considering the production of the documentary as a tool for preservation and cultural dissemination. The methodology combined documentary analysis and oral history, with interviews of individuals possessing in- history. These contributions were essential to understanding its historical, architectural, cultural, spiritual, and environmental significance, highlighting the relationship between the temple, memory, and the identity of the Vacarian community. The results indicate that the Cathedral is perceived not only as an architectural monument but also as a space of faith, belonging, and memory, marked by disputes over preservation and tensions between tradition and modernity. The produced documentary integrates voices, images, and recollections of the community, functioning as a resource for historical documentation, dissemination, and education, reinforcing the centrality of Keywords: Cathedral of Nossa Senhora da Oliveira (Vacaria/RS); Cultural Heritage; Identity; Place of Memory; History Teaching. LISTA DE FIGURAS Figura 1- Mapa com a Localização do Município de Vacaria-RS. ............................ 255 Figura 2- Mapa do Rio Grande do Sul em 1902 ......................................................... 26 Figura 3- Construção da Catedral Nossa Senhora da Oliveira .................................. 30 Figura 4 - Catedral Nossa Senhora da Oliveira já concluída, rodeada por árvores e construções que compõem a praça central.................................................................31 Figura 5- Vista aérea histórica de Vacaria .................................................................. 32 Figura 6- Catedral Nossa Senhora da Oliveira: símbolo de fé nos Campos de Cima da Serra ............................................................................................................................ 33 Figura 7- Celebração religiosa da Catedral ................................................................ 36 Figura 8- Momento significativo da vida social e religiosa de Vacaria ....................... 37 Figura 9- Desfile de automóveis percorre a rua central da cidade ............................. 38 Figura 10- A Catedral Nossa Senhora da Oliveira em meados do século XX ........... 39 Figura 11- A Catedral Nossa Senhora da Oliveira já concluída ................................. 39 Figura 12- A Catedral Nossa Senhora da Oliveira se impõe ao fundo, compondo a paisagem urbana ......................................................................................................... 41 Figura 13- Imagem aérea da Catedral Nossa Senhora da Oliveira ...........................42 Figura 14- Fachada da Catedral ................................................................................. 42 Figura 15- Entrada da Catedral Nossa Senhora da Oliveira ...................................... 43 Figura 16- Lateral da Catedral Nossa Senhora da Oliveira ........................................ 44 Figura 17- Abóbada da Catedral ................................................................................. 45 Figura 18- Vitrais da Catedral ..................................................................................... 46 Figura 19- Imagem de Nossa Senhora da Oliveira no altar-mor da Catedral Nossa Senhora da Oliveira ..................................................................................................... 47 Figura 20- Expressões de fé na Catedral ................................................................... 48 Figura 21- Réplica de madeira da imagem de Nossa Senhora da Oliveira ...........4949 Figura 22- Imagem de Nossa Senhora da Oliveira encontrada por volta de 1747 .... 50 Figura 23- Primeira igreja de Vacaria .........................................................................53 Figura 24- Réplica da primeira igreja de Vacaria........................................................ 54 Figura 25- Impactos das intervenções na preservação da Catedral Nossa Senhora da Oliveira ........................................................................................................................ 64 Figura 26- Rachaduras na estrutura da Catedral Nossa Senhora da Oliveira durante a restauração..................................................................................................................65 Figura 27- Registro das intervenções arquitetônicas durante a restauração da Catedral Nossa Senhora da Oliveira ......................................................................................... 66 Figura 28- Intervenções estruturais na parede da Catedral Nossa Senhora da Oliveira durante o processo de restauração ............................................................................ 68 Figura 29- Imagem de Nossa Senhora da Oliveira entre as torres da Catedral ........ 82 Figura 30- Remoção da imagem de Nossa Senhora da Oliveira ............................... 85 Figura 31- Imagem de Nossa Senhora da Oliveira ao lado da Catedral .................... 88 Figura 32- A Catedral em destaque na paisagem urbana ........................................ 138 Figura 33- Catedral Nossa Senhora da Oliveira ....................................................... 141 Figura 34- Entrevista com Isabel Carneiro de Almeida ............................................ 142 Figura 35- Entrevista com Laurita Baldi .................................................................... 143 Figura 36- Entrevista com Dom Orlando Dotti .......................................................... 144 Figura 37- Entrevista com Rafael Grazziotin ............................................................ 145 Figura 38- Entrevista com Lucas Volpatto ................................................................ 146 Figura 39- Entrevista com promotor Dr. Luís Augusto Gonçalves Costa ................. 147 Figura 40- Entrevista com Paulo Fernando Chedid Lisboa ...................................... 148 Figura 41- Entrevista com Leila Chedid .................................................................... 149 Figura 42- Entrevista com Adhemar Antônio Martins Pinotti .................................... 150 Figura 43- Entrevista com Juliana Tonini .................................................................. 151 Figura 44- Abertura do documentário ....................................................................... 153 Figura 45- Catedral no centro da cidade .................................................................. 160 Figura 46- Abertura do documentário com a autora ................................................. 161 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ABNT Associação Brasileira de Normas Técnicas FNA Fundação Nacional de Artes GZH Gaúcha Zero Hora MÉTIS Revista Métis História & Cultura Pe. Padre RBS Rede Brasil Sul RS Rio Grande do Sul SABRA Sociedade Amigos do Bairro Rosa Araújo UCS Universidade de Caxias do Sul UNISINOS Universidade do Vale dos Sinos ZH Zero Hora SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 16 2. A TRAJETÓRIA HISTÓRICA DA CATEDRAL DE VACARIA ............................. 25 2.1 RETROSPECTIVA HISTÓRICA ......................................................................................... 25 2.1.1 Mapa de Situação e Localização.............................................................. 25 2.1.2 Vacaria e sua História: A Conexão com Nossa Senhora da Oliveira .. 26 2.1.3 A Catedral Nossa Senhora da Oliveira: História e Herança Religiosa de Vacaria ................................................................................................................. 34 2.2 O PROCESSO DE RESTAURAÇÃO DA CATEDRAL DE NOSSA SENHORA DA OLIVEIRA: DESAFIOS, CONTROVÉRSIAS E PRESERVAÇÃO PATRIMONIAL ...... 62 2.2.1 Imagem de Nossa Senhora da Oliveira: Desafios e Decisões.............. 79 3 CATEDRAL NOSSA SENHORA DA OLIVEIRA: MEMÓRIA, PATRIMÔNIO CULTURAL E IDENTIDADE VACARIENSE ................................................................. 90 3.1 ENTRE FONTES, VOZES E IMAGENS: UM OLHAR SENSÍVEL À CATEDRAL................. .................................................................................................... 121 4 A CATEDRAL EM CENA: O DOCUMENTÁRIO COMO MEIO DE CONSTRUÇÃO E TRANSMISSÃO DA MEMÓRIA COLETIVA ............................................................ 137 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................................... 170 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS......................................................................... 181 7. APÊNDICES ................................................................................................................ 191 16 1. INTRODUÇÃO O presente estudo tem como objetivo refletir sobre a importância histórica, cultural, espiritual, arquitetônica e de ambiência da Catedral Nossa Senhora da Oliveira, situada na Rua Borges de Medeiros, s/n, no centro de Vacaria, Rio Grande do Sul. Mais do que uma edificação, a Catedral constitui-se como um expressivo patrimônio cultural material e, simultaneamente, como um lugar de memória, símbolo identitário da cidade, frequentemente retratado em livros, cartazes, eventos e produções culturais. Sua presença marcante estabelece um elo com o passado, reafirmando a continuidade das tradições e a valorização da memória coletiva, consolidando-se como referência para a construção e preservação da identidade vacariense. A Catedral Nossa Senhora da Oliveira não se limita a ser um marco físico no espaço urbano; ela representa um ponto de convergência entre passado e presente, conectando a comunidade vacariense às suas raízes. A dimensão histórica evidencia os eventos e transformações sociais que moldaram a cidade, enquanto a dimensão cultural reflete as práticas, rituais e manifestações artísticas que se desenvolveram em seu entorno. A espiritualidade, presente nas celebrações e na devoção dos fiéis, reforça o papel da Catedral como espaço de fé e acolhimento. A arquitetura, com sua imponência e riqueza de detalhes, não apenas testemunha técnicas construtivas e estilos estéticos, mas também simboliza a identidade coletiva. Por fim, a ambiência, composta por sons, luzes, circulação e interações humanas, cria uma experiência sensorial que integra memória, emoção e educação, transformando o templo em um espaço vivo de pertencimento e reflexão para a comunidade. Inserida no campo da História, esta dissertação analisa a Catedral como patrimônio cultural e lugar de memória coletiva, destacando os processos de construção, preservação e significação desse patrimônio ao longo do tempo. Ao mesmo tempo em que considera a dimensão sensorial e simbólica do espaço, o estudo articula a análise histórica à compreensão do papel da Catedral como referência para o ensino de História, tanto em espaços formais quanto não formais. Reconhece-se, assim, a Catedral como ambiente de vivência cultural e espiritual para a comunidade vacariense, integrando memória, identidade e educação em um único lugar de experiência coletiva. 17 A pesquisa considera a Catedral como um espaço que integra dimensões materiais e simbólicas, proporcionando uma experiência de ambiência capaz de conectar passado e presente, reforçando a continuidade das tradições e a valorização da identidade local. A investigação evidencia, ainda, a relevância do registro e da difusão cultural por meio de narrativas, documentos e da produção de um documentário, reconhecendo-os como instrumentos essenciais para fortalecer a centralidade da memória coletiva e consolidar a preservação do patrimônio cultural na construção da identidade de Vacaria. Minha trajetória acadêmica e profissional está fortemente vinculada à educação. Atuo como professora da rede municipal de ensino de Vacaria desde 2005, dedicando-me à formação de crianças e adolescentes. Graduei-me em Pedagogia pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), onde recebi a láurea acadêmica em reconhecimento ao desempenho durante o curso. Em busca de constante aprimoramento, concluí especializações em Educação Especial e Inclusiva, Gestão Escolar e Psicopedagogia, e atualmente amplio minha formação por meio da especialização em Psicomotricidade e do Mestrado Profissional em História, ambos em andamento. A pesquisa desenvolvida neste mestrado nasce do diálogo entre essa trajetória e meu interesse em compreender e valorizar a história local. A escolha da Catedral Nossa Senhora da Oliveira como objeto de investigação reflete não apenas meu compromisso como educadora em integrar ensino, pesquisa e extensão, mas também a intenção de contribuir para a preservação da memória e para o fortalecimento da identidade da comunidade vacariense. Esta pesquisa possui, para mim, um significado ainda mais especial, pois a Catedral Nossa Senhora da Oliveira sempre esteve profundamente entrelaçada à minha trajetória pessoal e familiar. Foi nesse espaço sagrado que conheci meu marido, que mais tarde se tornou diácono, passando a exercer um papel relevante na comunidade religiosa. A Catedral, portanto, é mais do que um patrimônio cultural, histórico ou arquitetônico, é um lugar de espiritualidade, religiosidade e afeto, no qual cultivo valores fundamentais para minha vida. Além disso, a imagem externa de Nossa Senhora da Oliveira, que hoje integra a paisagem da Catedral, foi doada por minha família, a família Chedid. Esse gesto confere ao templo um valor simbólico e emocional ainda mais profundo, expressando a fé e a história que nos une há gerações. 18 A Catedral Nossa Senhora da Oliveira transcende sua função original de templo religioso e se consolida como um símbolo coletivo da cidade de Vacaria. Mais do que um espaço sagrado voltado à prática da fé católica, a Catedral constitui um marco de pertencimento e afeto para moradores, visitantes e turistas, independentemente de suas crenças, que se conectam com o lugar por tudo o que representa. Assim, a Catedral se configura como um espaço de memória, cultura e identidade compartilhadas, um verdadeiro patrimônio cultural vivo que fortalece os laços da memória coletiva vacariense. A Catedral atua como um ponto de convergência entre o sagrado e o histórico, simbolizando a força da fé da comunidade vacariense ao longo do tempo. Esta pesquisa propõe-se a analisar a origem da construção da Catedral, de reconhecido valor cultural, histórico, espiritual, ambiental e arquitetônico, bem como o episódio da descoberta da imagem de Nossa Senhora da Oliveira por volta de 1750, nos campos de Vacaria, local onde atualmente se situa o Santuário Nossa Senhora da Oliveira. Esse acontecimento consolidou-se como marco fundador da religiosidade local e referência simbólica para a comunidade, iniciando uma devoção que atravessa gerações e reforça o significado identitário e simbólico da igreja. A atual estrutura da Catedral substituiu a antiga matriz de madeira, erguida em 1870. Sua construção em estilo neogótico, iniciada no início do século XX, foi influenciada pela atuação dos capuchinhos franceses, especialmente por Frei Teófilo de Villards, que contratou o arquiteto Anton Printzmann, de Berlim, para elaborar o projeto. A obra foi executada por Frei Pacífico de Bellevaux, com apoio de Frei Efrem, responsável por adaptações que definiram as principais características arquitetônicas do templo. Com arcos, vitrais e uma estrutura de pedra, a Catedral se aproxima esteticamente das catedrais europeias, sendo considerada um marco arquitetônico e espiritual na região. Sua construção, que durou cerca de duas décadas, culminou na inauguração em 8 de setembro de 1934. O envolvimento da comunidade e dos religiosos foi fundamental para a realização desse projeto, evidenciando o comprometimento coletivo com a criação de um espaço sagrado. A pesquisa desenvolve-se a partir de uma abordagem qualitativa e empírica, articulando análise teórica com investigação direta da realidade estudada. A perspectiva qualitativa permite compreender os significados, percepções e interpretações atribuídos à Catedral Nossa Senhora da Oliveira, considerando 19 dimensões históricas, ambientais, culturais, simbólicas e afetivas. O caráter empírico se manifesta por meio de entrevistas semiestruturadas, observações diretas, análise de documentos históricos e registros visuais, permitindo o acesso a experiências vividas, práticas culturais e memórias compartilhadas que não constam em fontes escritas tradicionais. Dessa forma, o estudo integra teoria e evidências concretas, oferecendo uma compreensão aprofundada da Catedral enquanto patrimônio cultural e lugar de memória coletiva no contexto da comunidade vacariense. Para complementar a revisão bibliográfica, a pesquisa adota a história oral como metodologia central, valorizando relatos e depoimentos de pessoas com vínculo direto e profundo conhecimento sobre a Catedral Nossa Senhora da Oliveira. Os entrevistados foram selecionados em razão de sua relação com o templo e da relevância de suas experiências para a compreensão de sua história, preservação e significado cultural. Entre eles estão: Lucas Volpato, mestre em Arquitetura e Urbanismo, responsável pela restauração da Catedral em 2024; Isabel Carneiro de Almeida, mestre em História, criadora do canal História Legal no YouTube e autora do livro O Frigorífico Vacariense nos Campos de Cima da Serra e o Milagre Brasileiro (1964-1997): família, trabalho e progresso (2010); Laurita Baldi, professora, idealizadora e administradora da página Vacaria Nativista no Facebook; Adhemar Pinotti, advogado, ex-vereador e autor do livro Só para Lembrar Vacaria em Fotos (2011); Dr. Luís Augusto Gonçalves Costa, promotor de justiça que acompanhou o processo de preservação do patrimônio cultural; Paulo e Leila Chedid, membros da família responsável pela doação da imagem externa de Nossa Senhora da Oliveira; Rafael Grazziotin, escritor do livro Vacaria: origem e povoamento (2024); Dom Orlando Dotti, bispo emérito e autor do livro Pe. Mário Deluy: Missionário e Pastor (2009); e Juliana Tonini, produtora cultural, responsável por projetos de conservação e preservação da Catedral, entre eles Conservação e preservação da Catedral Nossa Senhora da Oliveira (2022) e Descrição da análise arquitetônica da Catedral Nossa Senhora da Oliveira , Vacaria-RS (2024), além da produção de um documentário sobre o templo em 2024. A contribuição desses participantes foi essencial para compreender não apenas a relevância histórica, arquitetônica e cultural da Catedral, mas também seu papel como elemento central na construção da memória e identidade da comunidade vacariense. Por meio de suas experiências e relatos, foi possível identificar práticas culturais, valores simbólicos e percepções sobre a preservação do patrimônio cultural 20 que não se encontram registrados em documentos oficiais, enriquecendo significativamente a análise histórica. Essa abordagem metodológica reafirma a importância da integração entre teoria, fontes documentais e história oral, possibilitando compreender a Catedral como patrimônio cultural, lugar de memória coletiva e espaço de vivência cultural e espiritual. A metodologia adotada permite resgatar experiências individuais e coletivas, revelando dimensões que não estão presentes em documentos oficiais e possibilitando a reconstrução de vivências, sentimentos, práticas culturais e valores. Além disso, a pesquisa integra a análise documental, contemplando livros, artigos científicos, jornais, legislações, dissertações e registros visuais, em formatos físico e digital. Essa combinação metodológica de revisão teórica, fontes documentais e história oral proporciona uma visão abrangente sobre a trajetória histórica da Catedral, os processos de preservação e os significados atribuídos pela comunidade ao longo do tempo. A pesquisa também prevê a produção de um documentário sobre a Catedral Nossa Senhora da Oliveira, como forma de registrar e divulgar narrativas significativas que reforcem a identidade local, evidenciem o vínculo da comunidade com sua fé, história e tradições, e funcionem como instrumento de preservação da memória coletiva e reflexão sobre a importância da conservação do patrimônio cultural. Inserida no campo da História, esta dissertação analisa a Catedral Nossa Senhora da Oliveira enquanto patrimônio cultural e lugar de memória coletiva, evidenciando sua centralidade na memória vacariense, sua função como instrumento de valorização cultural e construção identitária, e sua relevância como espaço de vivência cultural e espiritual, considerando os acontecimentos recentes que marcaram sua história. Dessa forma, o estudo não apenas registra e interpreta os processos históricos e culturais relacionados à Catedral, mas também contribui para a reflexão sobre a preservação do patrimônio cultural e a valorização da memória coletiva da comunidade de Vacaria. Dessa forma, a pesquisa evidencia que a Catedral Nossa Senhora da Oliveira transcende seu valor material, constituindo-se como um espaço central para a memória, a identidade e a vida cultural da comunidade vacariense. A articulação entre análise teórica, investigação empírica e história oral permitiu reconstruir não apenas a trajetória histórica e os processos de preservação da Catedral, mas também os significados simbólicos, afetivos e culturais atribuídos a ela pelos diversos atores 21 envolvidos. Ao integrar essas múltiplas perspectivas, o estudo reforça a importância da Catedral como patrimônio cultural e lugar de memória coletiva, contribuindo para a reflexão sobre a preservação do patrimônio cultural, a valorização das tradições locais e o fortalecimento da identidade comunitária em Vacaria. Diante desse contexto, a investigação estrutura-se a partir da seguinte questão de pesquisa: Como a Catedral Nossa Senhora da Oliveira contribuiu para a construção da identidade vacariense, e de que forma os processos de preservação, memória e disputas patrimoniais influenciam os significados atribuídos a esse espaço pela comunidade? Para responder a essa problemática, definiu-se como objetivo geral analisar a Catedral Nossa Senhora da Oliveira como patrimônio cultural e símbolo identitário de Vacaria, investigando sua trajetória histórica, os conflitos em torno de sua preservação e os significados atribuídos pela comunidade ao longo do tempo. Os objetivos específicos foram: contextualizar historicamente a origem e a construção da Catedral Nossa Senhora da Oliveira, situando-a no processo de formação da cidade de Vacaria; examinar as intervenções, reformas e restaurações realizadas no templo, destacando as controvérsias e disputas sobre preservação patrimonial; interpretar as narrativas e memórias coletivas relacionadas à Catedral, por meio da história oral e de registros documentais e visuais; discutir a Catedral como lugar de memória e símbolo identitário e avaliar o papel do patrimônio cultural na manutenção da identidade vacariense e na valorização da memória coletiva, considerando também a produção do documentário como ferramenta de preservação e difusão cultural. A pesquisa está estruturada em três capítulos. O primeiro capítulo apresenta um contexto histórico da cidade de Vacaria, abordando desde sua origem e processo de ocupação até os elementos que contribuíram para a construção de sua identidade cultural. São discutidos aspectos relacionados à formação social, econômica e religiosa da região. Nesse contexto, explora-se a relação entre a fundação da Catedral Nossa Senhora da Oliveira e a descoberta da imagem da padroeira, evidenciando como se entrelaça às narrativas locais e fortalece a centralidade da Catedral como marco físico e espiritual da comunidade. O segundo capítulo aborda o processo de restauração da Catedral Nossa Senhora da Oliveira, evidenciando os desafios, controvérsias e esforços relacionados à preservação desse patrimônio histórico e cultural. Destaca-se a intensa mobilização da comunidade de Vacaria diante de denúncias ao Ministério Público sobre possíveis 22 descaracterizações durante as intervenções. O capítulo também analisa a remoção da imagem de Nossa Senhora da Oliveira, instalada entre as torres da Catedral desde 1952, cuja origem envolve diferentes versões presentes na memória coletiva. A decisão pela retirada da escultura foi motivada por questões estruturais do templo, especialmente o peso excessivo da imagem e a ausência de vigas de sustentação. A análise contempla não apenas os aspectos técnicos, mas também os impactos simbólicos e emocionais desse processo para a população. O terceiro capítulo da dissertação se dedica a aprofundar a relação entre memória, identidade e patrimônio cultural. Para essa análise, parte-se de uma fundamentação teórica que compreende o patrimônio cultural como uma construção social e simbólica, discutida por diversos autores, articulando conceitos como o de lugar de memória, de Pierre Nora (1993), e identidade cultural, abordada por pensadores como Stuart Hall (2006), Néstor García Canclini (1990) e Michel Pollak (1989; 1992). Esses referenciais contribuem para compreender como os bens patrimoniais assumem valor não apenas por sua materialidade, mas também pela carga simbólica e afetiva que lhes é atribuída socialmente (Pollak, 1989; 1992). A Catedral é compreendida, nesse contexto, como um espaço onde memórias individuais e coletivas se cruzam, configurando-se como alicerce identitário para a comunidade vacariense (Hall, 2006; Canclini, 1990; Nora, 1993). A abordagem será aprofundada ao longo do capítulo, em diálogo com os depoimentos reunidos na pesquisa empírica por meio da metodologia da história oral, evidenciando como os sujeitos locais atribuem significados ao templo, ressignificando-o continuamente como símbolo de pertencimento, fé e memória social (Pollak, 1989; 1992). Além disso, o terceiro capítulo trata da preservação do patrimônio cultural histórico e cultural como elemento fundamental para a construção e manutenção da identidade coletiva. A partir do reconhecimento da Catedral Nossa Senhora da Oliveira como bem tombado, o capítulo analisa os dispositivos legais que asseguram sua proteção, como a Constituição Federal, leis municipais e o recente Decreto nº 219/2024, que formaliza seu tombamento definitivo em Vacaria. A discussão aborda tanto os aspectos materiais da Catedral como sua arquitetura e relevância histórica. A partir de uma abordagem qualitativa, que valoriza a escuta sensível, a análise documental e o uso da história oral, o capítulo busca compreender como esse espaço sagrado e simbólico é vivenciado, ressignificado e preservado pela comunidade vacariense. 23 Desse modo, ao articular memória, identidade e patrimônio cultural, o capítulo evidencia que a Catedral Nossa Senhora da Oliveira ultrapassa sua materialidade arquitetônica e religiosa, tornando-se um lugar de memória (Nora, 1993) que condensa afetos, tradições e narrativas coletivas. Sua preservação não apenas assegura a continuidade histórica, mas também fortalece os vínculos identitários da comunidade vacariense, que a reconhece como símbolo de pertencimento e de fé. Assim, a análise demonstra que o patrimônio cultural, mais do que um bem herdado do passado, constitui-se como um processo vivo, constantemente ressignificado pelos sujeitos sociais (Pollak, 1989; 1992; Hall, 2006; Canclini, 1990), reafirmando a Catedral como referência cultural e identitária essencial para a memória coletiva. Os resultados indicam que a Catedral Nossa Senhora da Oliveira é percebida pela comunidade vacariense muito além de um simples monumento arquitetônico. Ela se configura como um espaço vivo de fé, pertencimento e memória coletiva, marcado por tensões e disputas entre tradição e modernidade no âmbito da preservação patrimonial. As entrevistas e análises documentais revelaram um forte sentimento de orgulho e identificação em relação à Catedral, que funciona como ponto de encontro, símbolo espiritual e marco identitário que atravessa gerações. Particular destaque foi dado aos desafios e controvérsias enfrentados durante os processos de restauração, especialmente no que tange à retirada da imagem de Nossa Senhora da Oliveira, cujo impacto simbólico e emocional reverbera profundamente na comunidade. A articulação entre teoria, fontes históricas e história oral possibilitou um entendimento abrangente das práticas culturais, dos valores simbólicos e das disputas patrimoniais relacionadas à Catedral, confirmando que sua preservação é essencial para a manutenção da memória local e da coesão social. A produção do documentário, por sua vez, integrou vozes, imagens e memórias, atuando como recurso valioso para o registro, a difusão e o ensino da história, reforçando a centralidade da memória coletiva e do patrimônio cultural na construção e fortalecimento da identidade vacariense. Dessa forma, esta dissertação busca não apenas aprofundar a compreensão sobre a Catedral Nossa Senhora da Oliveira, mas também promover reflexões a respeito da preservação dos bens culturais e da centralidade da memória coletiva. Ao valorizar os acontecimentos históricos que moldaram a cidade, evidencia-se como a fé e a dedicação dos moradores foram determinantes para a permanência desse símbolo, que continua vivo na paisagem urbana e na espiritualidade da população. 24 Assim, o estudo propõe analisar a Catedral como patrimônio cultural, lugar de memória e símbolo identitário de Vacaria, ressaltando sua relevância histórica, arquitetônica, espiritual e afetiva para a comunidade. Por meio da articulação entre análise teórica, investigação empírica, documentação histórica e história oral, a busca é por compreender os processos de construção, preservação e ressignificação do templo ao longo do tempo. Pretende-se, portanto, contribuir não apenas para o registro e a valorização da memória coletiva vacariense, mas também para o fortalecimento da reflexão sobre a preservação do patrimônio cultural e sobre seu papel na consolidação das identidades locais. 25 2. A TRAJETÓRIA HISTÓRICA DA CATEDRAL DE VACARIA 2.1 RETROSPECTIVA HISTÓRICA 2.1.1 Mapa de Situação e Localização Para uma melhor visualização da área de abrangência do local de estudo, apresenta-se, inicialmente, o mapa de situação da cidade de Vacaria, localizada no estado do Rio Grande do Sul, no contexto da América do Sul. Esse recurso permite compreender a inserção geográfica do município tanto em relação ao estado quanto ao país. Figura 1- Mapa com a Localização do Município de Vacaria-RS. Fonte: Rosa (2023). A seguir, apresenta-se a localização geográfica de Vacaria, município situado na região Nordeste do estado do Rio Grande do Sul. Este contexto espacial é 26 fundamental para compreender as especificidades culturais, históricas e patrimoniais que permeiam a Catedral Nossa Senhora da Oliveira, símbolo da identidade local. Figura 2- Mapa do Rio Grande do Sul em 1902 Fonte: A autora (2025), adaptado de IBGE (2020). Disponível em: https://atlassocioeconomico.rs.gov.br/evolucao-administrativa-1809-a-2013. Acesso em: 25 abr. 2022. 2.1.2 Vacaria e sua História: A Conexão com Nossa Senhora da Oliveira A Catedral Nossa Senhora da Oliveira está situada na Rua Borges de Medeiros, s/n, no Centro de Vacaria, no estado do Rio Grande do Sul. Como um dos principais marcos históricos, culturais, arquitetônicos, espirituais e de ambiência da cidade, sendo um ponto de referência tanto para a comunidade religiosa quanto para os visitantes, além de ser um símbolo da história e do patrimônio cultural de Vacaria. O nome Vacaria, em castelhano Baquería, nome dado às grandes extensões de campos, sendo uma área estratégica para o gado e o cultivo, tem uma forte conexão com as atividades agropecuárias que caracterizam a região, refletindo a importância da pecuária e da agricultura na formação da cidade (Bettanin, 2020). Em 1740, fixavam-se os primeiros povoadores na região, e dava-se início ao tropeirismo. Os pioneiros buscavam terras férteis para o pastoreio de gado e áreas 27 propícias ao cultivo, o que impulsionou o rápido crescimento do povoado (Rosa, M., 2015). Portanto, a história de Vacaria se entrelaça com a passagem dos tropeiros que poderiam ter deixado a imagem de Nossa Senhora da Oliveira, um símbolo religioso que se associaria às movimentações de povoamento na região. O encontro da imagem de Nossa Senhora da Oliveira não apenas fortaleceu a devoção religiosa local, como também é lembrado como um marco simbólico para o surgimento de Vacaria. A partir disso, teve início a formação do povoado, com a construção das primeiras casas em torno da capelinha erguida no campo. A doação de terras por parte de um proprietário da área contribuiu para a fixação das famílias, dando origem ao que viria a se consolidar como a cidade de Vacaria. Nesse sentido, a fé e o território se entrelaçam como fundamentos da identidade vacariense. Dotti (2024) afirma que: A partir do encontro da imagem, eu acredito que também foi o início da povoação. Porque até lá não havia povoação nenhuma. Havia apenas um campo, onde se foi queimado. Mas, a partir disso, então, começam a vir construções de casas. Porque também o dono dessa propriedade toda, ele cedeu a propriedade para construções de outras moradias, de outras casas. Ele fez uma doação. E essa doação, evidentemente, passou de geração em geração. E aí, começou o início da cidade de Vacaria. No dia 8 de setembro, possivelmente no ano de 1750, foi encontrada a imagem de Nossa Senhora da Oliveira. Inicialmente colocada em uma ermida e, posteriormente, em uma capela, a descoberta da imagem impulsionou a construção das primeiras moradias, marcando o início da formação do povoado que, mais tarde, se tornaria a cidade de Vacaria (Barbosa, 1984, p.19; Dalcim, 2022, p.41). Corroborando esse entendimento, cite-se Borges (2001, p. 43 apud Brochetto 2022, p. 22), cujas palavras afirmam que na ermida levantada pelos moradores, no local onde foi encontrada uma imagem de Nossa Senhora da Oliveira. O encontro de uma imagem de Nossa Senhora da Oliveira, que desempenhou um papel fundamental na aceleração do desenvolvimento da cidade e da região, não só reforçou a fé, mas também consolidou a identidade religiosa de Vacaria, tornando- se um marco de grande importância histórica e cultural para seus habitantes. 28 Com o crescimento da povoação em torno da imagem de Nossa Senhora da Oliveira, surgiu a necessidade de um espaço religioso estruturado, que garantisse a assistência espiritual à comunidade. Assim, manifestou-se o desejo coletivo de instituir uma Capela Curada, ou seja, uma capela com a presença de um padre. Esse desejo não era apenas uma formalidade religiosa, mas uma exigência prática de uma comunidade em formação. Dotti (2024) destaca que: Houve, da parte da povoação, interesse de construir uma capela chamada Capela Curada. A capela com a presença de um cura. A capela com a presença de um padre. Essa presença podia ser esporádica ou podia ser permanente. Sabe-se que, nessa capelania, trabalhou o padre Roriz. O padre doutor Roriz. Que foi um padre que, certamente, tinha residência fora, trabalhava em outros lugares, mas vinha aqui cumprir a sua obrigação de cuidar da capela. De fazer dessa capela um lugar de atendimento do povo. A trajetória da fé católica em Vacaria não se limita ao âmbito devocional, mas revela um processo gradativo de institucionalização religiosa que acompanha o surgimento e a organização da própria cidade. Desde os primeiros sinais de povoamento, a presença eclesiástica passou a ocupar papel central na vida da comunidade, contribuindo para a estruturação do espaço social e simbólico da região. Um marco decisivo nesse percurso foi a criação da Capela Curada, seguida pela elevação à condição de freguesia. Dotti (2024) ainda ressalta que: E, é interessante, porque a partir de 1761, foi então decretada a Capela Curada. E no fim desse mesmo ano, no dia 21 de dezembro de 1761, foi inaugurada a Capela Curada, que servia para os ofícios religiosos e o atendimento do povo dessa região. E essa capela durou muito tempo. Em 1768, precisamente, no dia 20 de dezembro, foi decretada a freguesia. Isto é, a criação da paróquia de Vacaria, da freguesia de Vacaria. Isso pelo então bispo do Rio de Janeiro, Dom Antônio do Desterro. Criou a freguesia. E, no documento que criava a freguesia, se dizia claramente que era dedicada à Nossa Senhora da Oliveira e que havia quem desse a imagem de Nossa Senhora da Oliveira. Então, está certamente ligado ou ligada com a imagem que havia sido encontrada. Nossa Senhora da Oliveira, que se tornou um símbolo de fé e união para muitos os habitantes de Vacaria, marcou um momento fundamental para a história da cidade. A intensificação da devoção atraiu um número crescente de visitantes, o que contribuiu diretamente para o desenvolvimento econômico e populacional da cidade. As festividades religiosas em honra a Nossa Senhora da Oliveira não apenas 29 fortaleceram os laços comunitários, mas também ajudaram a consolidar Vacaria como um centro de peregrinação e encontro religioso. Segundo Barbosa (1984, p.19): Orando os devotos obtinham graças. Cumpriam-se promessas. Sem demora, começaram a construir ranchos de barro ao redor da ermida. Vários ranchos que deram início a formação de um povoado, a futura cidade de Vacaria, cuja padroeira é Nossa Senhora da Oliveira. A crescente necessidade de um espaço mais amplo para acolher os fiéis levou à decisão de construir a Catedral de Nossa Senhora da Oliveira, um projeto que ultrapassava a simples resposta à demanda religiosa. Essa iniciativa representava, sobretudo, o reflexo do crescimento acelerado de Vacaria e a afirmação de sua identidade enquanto cidade em pleno desenvolvimento. A edificação do templo não apenas atenderia às necessidades espirituais da comunidade, mas também se tornaria um símbolo tangível do progresso, do orgulho local e da consolidação de um espaço público de encontro e pertencimento para seus habitantes. Vacaria, ao longo de sua trajetória, carrega uma rica história marcada pela fé profunda e pelas tradições que moldaram a cultura regional. A comunidade, unida por esses valores, buscava um símbolo que transcendesse o aspecto religioso, traduzindo também sua identidade cultural e social. Assim, a construção da Catedral Nossa Senhora da Oliveira surgiu como um marco de esperança e transformação, refletindo o compromisso coletivo de transformar não apenas a paisagem urbana, mas também a vida espiritual e cultural da cidade. Esse empreendimento representou a união entre tradição e modernidade, reforçando o papel de Vacaria como um centro importante dos Campos de Cima da Serra A seguir, apresenta-se uma fotografia colorizada que registra um momento singular da história de Vacaria: a construção da Catedral Nossa Senhora da Oliveira. Ainda envolta por andaimes de madeira, a imponente estrutura de pedra ergue-se no horizonte como símbolo do esforço coletivo da comunidade em edificar um templo destinado a unir fé e identidade cultural. Ao redor, campos abertos e casas, reforçando o contraste entre a simplicidade do cotidiano e a monumentalidade da obra em andamento, compondo um retrato de 30 época em que tradição, devoção e trabalho se entrelaçavam na formação do patrimônio cultural histórico e cultural vacariano. Figura 3 - Construção da Catedral Nossa Senhora da Oliveira Fonte: Antônio Chedid Lisboa (s.d.) Com o avanço da urbanização ao longo do século XX, Vacaria passou a incorporar novos elementos em sua paisagem, refletindo tanto o crescimento populacional quanto as transformações sociais, culturais e religiosas da comunidade. A cidade, antes marcada por vastas áreas rurais e construções modestas, começou a desenvolver um centro urbano mais definido, tendo como referência a imponência da Catedral Nossa Senhora da Oliveira. Esse processo de consolidação urbana evidenciou a Catedral não apenas como símbolo da fé católica, mas também como ponto de convergência da identidade vacariense, articulando o passado rural com as aspirações de modernidade. Na sequência, observa-se uma fotografia aérea de Vacaria, na qual a Catedral Nossa Senhora da Oliveira se destaca em primeiro plano, já concluída, com suas torres imponentes e rodeada por árvores e construções que compõem a praça central. O traçado urbano, marcado por ruas e casas de diferentes estilos, evidencia um período de transição da cidade, no qual a monumentalidade da Catedral contrasta com a simplicidade das residências e edificações ao redor, que reforçam a centralidade do espaço religioso e social na vida vacariense. 31 Figura 4 - Catedral Nossa Senhora da Oliveira já concluída, rodeada por árvores e construções que compõem a praça central. Fonte: Antônio Chedid Lisboa (s.d.) O encontro da imagem de Nossa Senhora da Oliveira e a construção da Catedral estão interligados, pois ambos representam momentos importantes na formação de Vacaria, ligando a fé ao processo de crescimento urbano, social e econômico da cidade. Conforme Dalcim (2022, p.41): Vacaria tem a honra e a missão de preservar a histórica imagem de Nossa volta de 1750, pouco a pouco, ranchos e mais casas foram sendo erguidas até surgir uma povoação, inicialmente Chamada de Vila de Nossa Senhora da Oliveira, e posteriormente de Vacaria, que hoje se orgulha do título de Porteira do Rio Grande. Vacaria vivia um período de transformações marcantes, em que o crescimento urbano começava a se desenhar sobre os traços ainda fortemente rurais da paisagem. A expansão da cidade refletia não apenas o aumento populacional, mas também o fortalecimento de suas instituições sociais, religiosas e culturais. Nesse contexto, a construção da Catedral Nossa Senhora da Oliveira tornou-se um marco simbólico do progresso e da coesão comunitária, representando o desejo coletivo de afirmar uma identidade própria, enraizada na fé e no trabalho. 32 A imagem aérea colorizada apresentada a seguir revela um panorama amplo da cidade em suas primeiras décadas de urbanização. No centro da cena, a Catedral se destaca, projetando-se sobre casas simples que se espalham em ruas de terra batida. O contraste entre a monumentalidade da igreja e a singeleza das construções ao redor evidencia seu papel central na vida comunitária, funcionando não apenas como espaço religioso, mas também como marco visual e simbólico de Vacaria. A disposição das moradias, cercadas por quintais e pequenas áreas verdes, sugere um ritmo de vida marcado pela integração com a natureza, capturando o momento de transição de um espaço essencialmente rural para uma cidade que se consolidava em torno de sua fé, de sua gente e de seus símbolos. Figura 5 - Vista aérea histórica de Vacaria Fonte: Antônio Chedid (s.d.) A imponência da Catedral, em contraste com a simplicidade urbana, revela mais do que uma diferença arquitetônica: traduz a força da fé como elemento estruturante da comunidade. Erguido no coração da cidade, o templo tornou-se referência não apenas visual, mas também espiritual e social, reunindo as pessoas em torno de valores comuns. Sua centralidade ajuda a compreender como a religiosidade se enraizou no cotidiano vacariano, ganhando relevância em um território historicamente marcado por conflitos e disputas. 33 A imagem colorizada apresentada a seguir evidencia como a fé em Vacaria se afirmava tanto pela devoção quanto pela necessidade de cultivá-la em um cenário permeado pela violência. O município havia sido palco da Guerra dos Farrapos em 1845 e carregava episódios de tensões relacionados, em grande parte, ao plantel de gado existente na região. Esse gado, introduzido pelos jesuítas, atraiu os paulistas, portugueses inicialmente estabelecidos em São Paulo, que desciam ao sul em busca rivalidades, a religiosidade surgia como elemento pacificador, capaz de acalmar tensões e permitir a continuidade das atividades econômicas e sociais, reafirmando seu papel central na organização da vida comunitária. Figura 6 - Catedral Nossa Senhora da Oliveira: símbolo de fé nos Campos de Cima da Serra Fonte: Antônio Chedid Lisboa (s.d.) Dessa forma, a história e a identidade cultural de Vacaria mostram-se indissociáveis da religiosidade católica e das tradições rurais. A presença da Catedral e das celebrações tradicionais reflete não apenas a dimensão espiritual da comunidade, mas também seu compromisso com a preservação de valores históricos e culturais. Nesse sentido, Vacaria se constitui como um verdadeiro lugar de memória, onde as práticas cotidianas e festivas permitem consolidar identidade, pertencimento 34 e memória coletiva, evidenciando a riqueza de uma cultura profundamente enraizada na terra e na fé. A Catedral Nossa Senhora da Oliveira, enquanto símbolo de identidade local, desempenha um papel importante, funcionando como um ponto de convergência entre as diversas atividades econômicas e culturais da cidade. Sua presença não apenas reforça a tradição religiosa da comunidade, mas também contribui para o desenvolvimento do turismo, refletindo como o patrimônio cultural pode ser integrado ao crescimento econômico e social de uma região. Dessa maneira, a Catedral Nossa Senhora da Oliveira se apresenta não apenas como um marco arquitetônico de destaque em Vacaria, mas também como um espaço simbólico capaz de articular fé, memória e identidade coletiva. Ao observar sua imponência física e o papel que desempenha na vida social e religiosa da comunidade, percebe-se como o patrimônio cultural material se entrelaça com valores históricos, culturais e espirituais. Essa perspectiva amplia o olhar para além da arquitetura, revelando a Catedral como um território de significados, memórias e experiências compartilhadas, preparando o terreno para a análise detalhada de sua história, de sua herança religiosa e da função que cumpre na construção da identidade vacariense, como será explorado a seguir. 2.1.3 A Catedral Nossa Senhora da Oliveira: História e Herança Religiosa de Vacaria A Catedral Nossa Senhora da Oliveira constitui-se como um dos principais marcos históricos, culturais, arquitetônicos, espirituais e de ambiência de Vacaria, destacando-se não apenas pela sua estrutura física, mas também pelo papel simbólico que desempenha na construção da identidade coletiva da comunidade. Sua trajetória está intrinsecamente ligada ao desenvolvimento da cidade, à vivência da fé e à preservação da memória local. Nesse sentido, as imagens apresentadas cumprem a função de reforçar a compreensão desse patrimônio cultural como lugar de memória, permitindo visualizar sua arquitetura e reconhecer sua relevância cultural e espiritual para a população vacariense. Mais do que um monumento arquitetônico, a Catedral é compreendida como elemento central da história, da fé e da memória coletiva de Vacaria. A dimensão histórica refere-se à trajetória do templo e ao contexto em que a cidade se desenvolveu, enquanto a dimensão religiosa evidencia sua relevância espiritual e 35 simbólica na construção da identidade cultural e comunitária. Dessa forma, o espaço sintetiza uma abordagem integrada do patrimônio religioso, articulando aspectos históricos, arquitetônicos, culturais e afetivos de maneira complementar e interdependente. Além de sua função religiosa, a Catedral atua como espaço de encontros e vivências coletivas, onde rituais, celebrações e práticas culturais se entrelaçam, fortalecendo laços comunitários e gerando experiências afetivas que atravessam gerações. Sua ambiência, marcada pela interação entre luz, som, circulação e presença humana, transformando o templo em um espaço vivo de reflexão, pertencimento e educação cultural. Dessa forma, a Catedral transcende a mera materialidade arquitetônica, consolidando-se como símbolo de continuidade histórica e de coesão social. A preservação da Catedral, por meio de restaurações, tombamentos e ações de conscientização da comunidade, evidencia o compromisso coletivo com a memória e a identidade local. Cada intervenção, seja técnica ou simbólica, reflete o cuidado em manter não apenas a integridade física do templo, mas também o significado afetivo e cultural que ele carrega. Esse processo de preservação demonstra que o patrimônio cultural não é estático, mas se constrói continuamente na interação entre as pessoas, os espaços e as memórias compartilhadas. A Catedral representa um elo entre passado e presente, conectando moradores e visitantes à história de Vacaria e às tradições religiosas e culturais que moldaram a cidade. Ao incorporar as dimensões arquitetônicas, históricas, espirituais e afetivas, o templo se torna referência para educação patrimonial e vivência cultural. Sua presença na paisagem urbana e na memória coletiva reforça a importância de reconhecer, valorizar e proteger bens culturais que constituem não apenas marcos físicos, mas símbolos duradouros da identidade e da memória de uma comunidade. A imagem publicada apresenta a Catedral Nossa Senhora da Oliveira ainda padres capuchinhos. O registro, de caráter ilustrativo e difusor, evidencia a intenção de valorizar a arquitetura do templo, ressaltando-o como símbolo religioso e cultural da Serra Gaúcha. Ao retratar a igreja em meio à circulação de fiéis, a publicação reforça a centralidade da Catedral não apenas como espaço de devoção, mas também como representação do progresso e da identidade comunitária de Vacaria no início do século XX. A imagem captura um momento emblemático na história de 36 Vacaria, mostrando a Catedral Nossa Senhora da Oliveira em toda a sua grandiosidade neogótica. Suas duas torres altas e esguias dominam a paisagem, enquanto a fachada em pedra revela detalhes arquitetônicos. Em frente ao templo, uma multidão vestida com roupas da época se reúne para um evento religioso, evidenciando a importância da Catedral como centro espiritual e social da comunidade vacariana. Figura 7 - Celebração religiosa da Catedral Fonte: Antônio Chedid Lisboa (s.d.) A fotografia publicada na Revista Militar Pindorama (Ano 1, Vol. 8, novembro de 1926) registra um momento significativo da vida social e religiosa de Vacaria, ao retratar um grupo reunido diante da Catedral Nossa Senhora da Oliveira, em construção. A imagem, além de testemunhar a imponência arquitetônica do templo em seu estilo neogótico de pedra, evidencia a presença da comunidade local, de autoridades civis, militares e religiosas, revelando o papel central que a igreja desempenhava na organização social da cidade. Trata-se, portanto, de um documento 37 histórico que permite compreender não apenas a materialidade do patrimônio, mas também as relações comunitárias e de poder que se articulavam em torno dele no início do século XX. Figura 8 - Momento significativo da vida social e religiosa de Vacaria Fonte: Antônio Chedid Lisboa (s.d.) A fotografia a seguir retrata uma cena urbana de Vacaria, na qual um desfile de automóveis percorre a rua central da cidade, enquanto ao fundo ergue-se a Catedral Nossa Senhora da Oliveira, já concluída. O registro evidencia o contraste entre os veículos, modernos para a época, e a monumentalidade do templo religioso, reforçando o papel da Catedral como marco visual, cultural e espiritual da comunidade vacariense. Mais do que documentar um momento da vida urbana, a imagem funciona como elo entre passado e presente, revelando como Vacaria conciliava tradição e modernização em seu cotidiano. A Catedral domina a paisagem, simbolizando a fé e a integração comunitária, enquanto os automóveis, recém-introduzidos na cidade, indicam o avanço tecnológico e a transformação do espaço urbano. Esse contraste evidencia o entrelaçamento entre práticas históricas e novas formas de sociabilidade, mostrando como a cidade preservava sua memória coletiva ao mesmo tempo em que incorporava mudanças significativas. 38 Figura 9 - Desfile de automóveis percorre a rua central da cidade Fonte: Antônio Chedid Lisboa (s.d.) A fotografia não apenas registra um momento concreto da vida urbana de Vacaria, mas também evidencia como a Catedral Nossa Senhora da Oliveira permanece como eixo estruturante da cidade, articulando tradição, modernidade e identidade coletiva. Esse olhar prepara uma análise, que, ao apresentar a Catedral e seu entorno urbano, amplia a compreensão de sua centralidade arquitetônica, simbólica e cultural, reforçando o papel do templo como patrimônio histórico e lugar de pertencimento para a comunidade vacariense. Já a próxima imagem, uma fotografia de jornal, em preto e branco, e marcada pela granulação típica das impressões da época, apresenta a Catedral Nossa Senhora da Oliveira em sua monumentalidade arquitetônica, já consolidada como marco paisagístico de Vacaria. O registro, provavelmente de meados do século XX, destaca suas torres góticas e para a simetria da cantaria de pedra. A escolha da Catedral como objeto de 39 publicação demonstra sua relevância para além do espaço religioso, projetando-a como símbolo urbano e cultural que identificava a cidade diante da região e do estado. Figura 10 - A Catedral Nossa Senhora da Oliveira em meados do século XX Fonte: Antônio Chedid Lisboa (s.d.) Na fotografia da década de 1940, observa-se a Catedral Nossa Senhora da Oliveira já concluída, destacando-se em meio à paisagem urbana de Vacaria com suas torres majestosas e fachada em cantaria de pedra. O registro evidencia não apenas a consolidação do templo como marco religioso e arquitetônico, mas também sua presença como elemento ordenador do espaço urbano, situada em uma área ainda marcada por ruas de chão batido e construções baixas. Figura 41 - A Catedral Nossa Senhora da Oliveira já concluída 40 Fonte: Antônio Chedid Lisboa (s.d.) Essa figura revela o contraste entre a monumentalidade da Catedral, inspirada no estilo neogótico europeu, e a simplicidade do entorno, simbolizando o esforço coletivo da comunidade em erguer um patrimônio que ultrapassava sua dimensão espiritual para se tornar referência identitária da cidade. Na sequência, a fotografia publicada em periódico destaca a Praça General como um dos mais belos logradouros públicos do Estado. No enquadramento, a praça aparece em primeiro plano, cuidadosamente urbanizada e repleta de pessoas, enquanto a Catedral Nossa Senhora da Oliveira se impõe ao fundo, compondo a paisagem urbana como referência visual e simbólica. O registro não apenas valoriza a modernização dos espaços públicos, mas também reforça a centralidade da Catedral no imaginário coletivo, articulando-se como elemento de identidade e orgulho local em diálogo com a expansão urbana de Vacaria. 41 Figura 5 - A Catedral Nossa Senhora da Oliveira se impõe ao fundo, compondo a paisagem urbana Fonte: Netto (1940) A figura da Catedral, impressa no papel e no imaginário coletivo como compósito da paisagem do lugar conta histórias de permanência e solidez, perpetuando a sua imponente presença. A seguir, apresenta-se uma imagem aérea da Catedral, que permite visualizar não apenas sua arquitetura, mas também a posição estratégica que ocupa na área urbana de Vacaria. A perspectiva evidencia a integração do templo com o entorno, destacando seu papel como marco físico e simbólico da cidade. O registro visual complementa a análise histórica e cultural desenvolvida neste estudo, ao revelar como a arquitetura da Catedral se articula à memória coletiva, à espiritualidade e à identidade da comunidade vacariense. Além disso, a imagem possibilita perceber a escala, a proporção e a complexidade estrutural do templo, reforçando sua relevância como patrimônio cultural, lugar de memória e símbolo de pertencimento para moradores, visitantes e demais atores envolvidos na preservação e valorização desse espaço sagrado. 42 Figura 6 - Imagem aérea da Catedral Nossa Senhora da Oliveira Fonte: A autora (2025). (Print da tela do trailer do documentário). A imagem apresenta a fachada da Catedral Nossa Senhora da Oliveira, permitindo apreciar seus elementos arquitetônicos característicos, como arcos, torres e ornamentos neogóticos, que revelam a influência de estilos europeus em sua construção. Figura 7 - Fachada da Catedral Fonte: A autora (2025). 43 A imponência do templo, destacada na perspectiva da fotografia, evidencia não apenas sua estrutura, mas também o significado simbólico que ocupa na paisagem urbana de Vacaria. Ao analisar a fachada, é possível compreender como a arquitetura se articula à memória coletiva, funcionando como expressão material da fé, da tradição e da identidade cultural da comunidade vacariense. A figura a seguir apresenta a entrada da Catedral Nossa Senhora da Oliveira, destacando não apenas os elementos arquitetônicos do portal, mas também a elegância da composição que anuncia o interior do templo. O acesso principal, com suas portas, arcos e ornamentos neogóticos, evidencia a influência de estilos europeus na construção e revela a preocupação com a integração entre funcionalidade e simbolismo religioso. Figura 8 - Entrada da Catedral Nossa Senhora da Oliveira Fonte: A autora (2025). (Print da tela do trailer do documentário). A entrada funciona como um ponto de transição entre o espaço urbano e o sagrado, oferecendo aos visitantes e fiéis uma experiência de acolhimento e reverência. Ao mesmo tempo, representa um elemento material da identidade cultural e histórica de Vacaria, comunicando visualmente valores de fé, tradição e pertencimento. Essa perspectiva reforça a importância da entrada não apenas como elemento arquitetônico, mas como lugar de memória, significando a continuidade das 44 práticas religiosas e a presença da comunidade na preservação e valorização do patrimônio cultural local. A imagem a seguir apresenta a lateral da Catedral Nossa Senhora da Oliveira, permitindo observar detalhes arquitetônicos, como arcos, vitrais, e a disposição das torres, que evidenciam a riqueza do estilo neogótico do templo. Na composição visual, destaca-se também a imagem externa de Nossa Senhora da Oliveira, doada por Nicolau Chedid, que integra simbolicamente o ambiente e reforça o valor afetivo e religioso da Catedral. Essa perspectiva lateral evidencia a escala, a proporção e a harmonia entre os elementos estruturais e decorativos no contexto urbano de Vacaria. Além de contribuir para a análise estética, a visualização da lateral da Catedral possibilita compreender a relação entre o espaço arquitetônico e as práticas religiosas e culturais desenvolvidas em seu entorno. A imagem também ressalta o papel da Catedral como lugar de memória e símbolo identitário, consolidando-a como referência histórica, espiritual e cultural para a comunidade vacariense. Figura 9 - Lateral da Catedral Nossa Senhora da Oliveira Fonte: A autora (2025). (Print da tela do trailer do documentário). Ao evidenciar a imponência das linhas neogóticas e o uso da pedra em sua construção, a lateral da Catedral reforça a ideia de permanência e resistência do 45 patrimônio ao longo do tempo. Esse enquadramento permite perceber como a edificação dialoga com a paisagem urbana, ao mesmo tempo em que se distingue como marco visual e simbólico. Assim, a imagem não apenas registra a materialidade arquitetônica, mas também traduz o significado da Catedral como guardiã da memória coletiva, da religiosidade e da identidade cultural de Vacaria. A figura a seguir apresenta a abóbada da Catedral Nossa Senhora da Oliveira, permitindo observar a complexidade estrutural e a riqueza estética do teto do templo. Os detalhes arquitetônicos, como os arcos ogivais, nervuras e a ornamentação interna, evidenciam a influência do estilo neogótico e a sofisticação da engenharia empregada na construção. Figura 10 - Abóbada da Catedral Fonte: A autora (2025). (Print da tela do trailer do documentário). A abóbada não apenas cumpre uma função estrutural, distribuindo o peso da cobertura, mas também possui grande valor simbólico, direcionando o olhar dos fiéis e visitantes para o espaço sagrado e reforçando a experiência de transcendência espiritual. A seguir, apresenta-se a representação dos vitrais da Catedral Nossa Senhora da Oliveira, elementos que se destacam tanto pela função estética quanto simbólica. Compostas por peças de vidro colorido unidas por estruturas de metal, essas obras permitem a entrada de luz filtrada, criando efeitos luminosos que 46 transformam a percepção do espaço interno, evidenciando a profundidade e a espiritualidade do templo. Além de sua função decorativa, os vitrais frequentemente retratam imagens de grande significado para a história e a religiosidade da comunidade, funcionando como narrativas visuais que educam, inspiram e conectam os fiéis à tradição religiosa. Figura 11 - Vitrais da Catedral Fonte: Vacaria Nativista (2020), Disponível em: https://www.facebook.com/share/p/1CUKcFmzph/?mibextid=wwXIfr. Acesso em: 25 jul. 2025. Esses elementos artísticos também contribuem para a construção da identidade cultural da cidade, ao transformar a luz em linguagem simbólica, reforçando o valor afetivo da Catedral para a população vacariense. Dessa forma, os vitrais não apenas embelezam, mas consolidam-se como elementos centrais da experiência religiosa e cultural, reafirmando a Catedral como patrimônio cultural histórico, lugar de memória e símbolo identitário da comunidade. 47 A imagem de Nossa Senhora da Oliveira, localizada no altar-mor da Catedral, foi colocada na igreja em 1936, dez anos antes da construção do próprio altar-mor. Posteriormente, em janeiro de 1946, foi encomendado o altar-mor à casa Aloys de J. Aloy Friederich, em Porto Alegre, totalmente confeccionado em mármore e com nove metros de altura, sendo inaugurado em dezembro do mesmo ano Pacheco (2010). Figura 12 - Imagem de Nossa Senhora da Oliveira no altar-mor da Catedral Nossa Senhora da Oliveira Fonte: A autora (2025). (Print da tela do trailer do documentário). Esse contexto histórico evidencia o cuidado e a dedicação da comunidade e do clero na criação de um espaço sagrado que valorizasse a imagem central de Nossa Senhora da Oliveira, fortalecendo seu caráter simbólico, religioso e identitário. A imagem e o altar, integrados ao espaço da Catedral, consolidam-se como elementos centrais na vivência espiritual, na memória coletiva e na expressão da fé da população vacariense, reafirmando a importância da Catedral enquanto patrimônio cultural e lugar de memória. Consolida-se, pois, a percepção de que a Catedral Nossa Senhora da Oliveira não se configura apenas como patrimônio cultural arquitetônico e histórico, mas também como espaço de intensa vivência espiritual e expressão de fé da comunidade vacariense. Seus ambientes internos, rituais litúrgicos, imagens sacras, vitrais e demais elementos simbólicos possibilitam a manifestação de devoção, religiosidade e pertencimento coletivo. As práticas religiosas, como missas, novenas, procissões e 48 celebrações especiais, constituem momentos em que a comunidade se reúne para expressar crenças, valores e tradições transmitidos ao longo de gerações. Figura 130 - Expressões de fé na Catedral Fonte: Vacaria Nativista, (2020). Disponível em: https://www.facebook.com/share/p/1B44CVc9QB/?mibextid=wwXIfr. Acesso em: 25 jul. 2025. Além disso, como se observa na figura acima, atos individuais de fé, como orações, acendimento de velas e oferendas, reforçam o vínculo afetivo dos fiéis com o templo, evidenciando a Catedral como lugar de memória viva, patrimônio cultural simbólico e centro de identidade cultural e espiritual de Vacaria. A figura a seguir apresenta a réplica de madeira da imagem de Nossa Senhora da Oliveira, elemento central de devoção e patrimônio cultural simbólico da Catedral, permitindo que a comunidade se aproxime da padroeira em momentos de culto, celebração ou contemplação individual, sem comprometer a integridade da imagem original. Produzida com cuidado artesanal, a réplica mantém as características estéticas e iconográficas da obra histórica, reforçando a continuidade da tradição religiosa e a preservação da memória coletiva. Sua presença evidencia a preocupação da comunidade e da igreja em conciliar a conservação do patrimônio cultural com a vivência espiritual, garantindo que a prática devocional permaneça acessível e significativa para fiéis de diferentes gerações. Além de cumprir função litúrgica, a 49 réplica atua como elo afetivo e identitário, permitindo que os moradores e visitantes reforcem seus vínculos de fé, cultura e pertencimento à história de Vacaria. Figura 14 - Réplica de madeira da imagem de Nossa Senhora da Oliveira Fonte: Vacaria Nativista (2022) Disponível em: https://www.facebook.com/share/p/15oMHmrLjw/?mibextid=wwXIfr. Acesso em: 25 jul. 2025. Dessa forma, a réplica de madeira não é apenas uma reprodução artística, mas também um símbolo vivo da continuidade das práticas religiosas, da memória coletiva e da identidade cultural vinculada à Catedral Nossa Senhora da Oliveira. Reforce-se que a imagem de Nossa Senhora da Oliveira, descoberta por volta de 1747 nos campos de Vacaria, local onde atualmente se situa o Santuário de Nossa Senhora da Oliveira, constitui um marco histórico e simbólico para a comunidade local, sendo considerada o ponto inicial da devoção à padroeira na região. Esse episódio é narrado como acontecimento fundador da religiosidade vacariense, representando a estreita relação entre fé, história e identidade cultural da 50 cidade. A imagem original, carregada de significado religioso e afetivo, tornou-se referência espiritual para diversas gerações de fiéis, consolidando-se como elemento central na construção da memória coletiva. Sua descoberta não apenas motivou a edificação de templos dedicados à padroeira, culminando na construção da atual Catedral, mas também fortaleceu práticas devocionais e tradições que perduram até os dias atuais, evidenciando a fé como vetor de coesão social e elemento estruturante da identidade cultural em Vacaria. Figura 15 - Imagem de Nossa Senhora da Oliveira encontrada por volta de 1747 Fonte: Padre Elisandro Guindani (s.a.) A história da Catedral Nossa Senhora da Oliveira, começou por volta do ano de 1750 (Barbosa, 1984, p.18, Xavier, 2022, p. 39; Dalcim, 2022, p. 9), nos campos de Vacaria, com os camponeses que costumavam queimar capim no final do inverno. 51 A imagem de Nossa Senhora da Oliveira foi encontrada após a queima do campo, não sofrendo nenhuma deterioração com o fogo (Barbosa, 1984, p.18; Dalcim, 2022, p. 10), considerando-se um milagre (Xavier, 2022, p. 39). Sob a perspectiva de Oliveira (1959, p.167): Era hora do Angelus, e o campônio preparava-se para prosseguir o seu caminho. Mas, nesse instante, por entre a espessa nuvem de fumaça e o clarão produzido pelas labaredas das únicas toiças que ainda restavam, algo estranho fulgura e desperta a atenção. Aproxima-se e enxerga a imagem de uma santa sôbre a pedra a que acima se alude. Em meio a queimada, cae de joelhos e, alçando os olhos ao céu, eleva o pensamento a Deus. Há uma dúvida recorrente em relação à data do encontro da imagem de Nossa Senhora da Oliveira. Enquanto algumas publicações indicam o ano de 1750, outras mencionam 1747. A origem da imagem está cercada por relatos transmitidos oralmente ao longo das gerações, o que contribui para a imprecisão cronológica. Ainda assim, a força simbólica dessa tradição permanece viva, sustentando a devoção popular e fortalecendo o sentimento de pertencimento à cultura local. Trata-se de uma narrativa que, mesmo sem comprovação documental precisa, mantém seu valor enquanto expressão da fé e da memória coletiva da comunidade. Segundo Dotti (2024): A imagem foi encontrada, segundo a tradição oral e também uma tradição popular, na data de 8 de setembro de 1750. E muitos põem certa dúvida nessa data. Porque já havia uma capelinha, uma pequena capela, feita as paredes de barro, a cobertura de capim, e se guardava a imagem que tinha sido encontrada. E do encontro eu não ponho dúvidas, pessoalmente. Acho que há, de fato, uma imagem que foi encontrada. Quanto à data, a gente pode por certas restrições. E alguns a fazem, digamos assim, com interesse da história. Interesse histórico mesmo. O relato evidencia a distinção entre a aceitação popular do relato tradicional e a cautela metodológica exigida pela historiografia. Embora não se conteste a ocorrência do fato relacionado ao encontro da imagem, adota-se uma postura crítica quanto à fixação exata da data, sobretudo em razão da escassez de fontes documentais que sustentem essa cronologia. Nesse sentido, o depoimento reforça a relevância da tradição oral como elemento constitutivo da identidade local. A história da Catedral está profundamente enraizada na devoção religiosa que marcou os primórdios da formação de Vacaria. Nos campos região, o encontro da imagem de Nossa Senhora da Oliveira constituiu um marco significativo tanto para a consolidação da religiosidade quanto para o surgimento da comunidade, originando 52 uma tradição de fé que, ao longo do tempo, tornou-se parte essencial da identidade cultural e espiritual da cidade. Segundo texto expresso no Jornal Correio Vacariense (p. 1,1995): Aproxima-se, apeia do cavalo e ajoelha-se para fazer a primeira prece campeira de Deus pela presença de sua Mãe, Maria Santíssima naquele local. Era uma pequena imagem de madeira retratando Nsª. Srª da Oliveira, título mantido até hoje. A história em torno da imagem de Nossa Senhora da Oliveira tem origem em uma prática comum entre os camponeses da época, que era a queima do capim no final do inverno. Esse processo era utilizado para renovar as pastagens para o gado, o que era uma atividade fundamental para o desenvolvimento agropecuário da região. Durante uma dessas queimadas a imagem de Nossa Senhora da Oliveira foi encontrada, intacta, apesar da proximidade do fogo (Barbosa, 1984, p.18; Dalcim, 2022, p. 10). A imagem, que não sofreu nenhuma deterioração, foi considerada protagonista de um milagre (Xavier, 2022, p. 39). Para muitos moradores, o fato de a imagem ter resistido ao fogo representava uma proteção divina, sendo então adotada como padroeira da cidade, e sua presença foi central na formação de uma comunidade religiosa em torno da Catedral Nossa Senhora da Oliveira. A origem da devoção à Nossa Senhora da Oliveira é uma parte importante da história de Vacaria. O milagre associado à imagem de Nossa Senhora da Oliveira serviu para consolidar a fé e a espiritualidade ao longo dos séculos. A elevação da primeira Capelinha, em 21 de dezembro de 1761, marca um ponto crucial nesse processo de fortalecimento da devoção (Bettanin, p.1, 1995). A primeira igreja do povo Vacariano era de madeira, sua construção foi em 1870 pelo carpinteiro José Santana (Barbosa, 1984 p.31; Dalcim, 2022, p. 32), mas segundo relatos do bispo do Rio Grande do Sul, poderia ser construída uma igreja com pedra e cal, rica em ornamentos e objetos necessários para realização das missas Dotti (2009, p.51 apud livro tombo; Dalcim, 2022 apud livro tombo ll, p.31-32). A figura a seguir apresenta a primeira igreja de Vacaria, datada de 1870, localizada na antiga Rua do Vinagre (atual Ramiro Barcelos). Além de exercer função religiosa, o espaço também abrigava o primeiro cemitério central da cidade, onde ocorreram alguns sepultamentos antes da inauguração do cemitério da Praça da Bandeira, em 1888. Este registro histórico evidencia as origens da comunidade 53 vacariense e os primeiros marcos de sua organização urbana e religiosa, oferecendo uma perspectiva sobre o desenvolvimento social, cultural e espiritual da cidade. Figura 16 - Primeira igreja de Vacaria Fonte: Vacarianos no mundo (2025). Disponível em: https://www.facebook.com/groups/368524766941918/permalink/2253544378439938/?rdid=DysnYaIyx GKmW67X Acesso em 2 out. 2025. A primeira igreja representava o início da organização religiosa no município, funcionando como ponto de partida do que mais tarde se tornaria um dos principais marcos históricos de Vacaria. Na figura a seguir, observa-se a réplica da primeira igreja de Vacaria, que antecedeu a atual Catedral Nossa Senhora da Oliveira. Tratava-se de uma construção simples, em madeira, e dimensões modestas, mas que desempenhava um papel central na vida religiosa e comunitária do povo vacariano. Esse pequeno templo, erguido em um período em que a cidade ainda se consolidava, simbolizava a fé e a união da comunidade, servindo como espaço de devoção, encontros e celebrações. 54 A preservação da memória da primeira igreja, hoje simbolizada por sua réplica no Parque de Exposições Nicanor Kramer da Luz, reforça a importância de reconhecer os alicerces da religiosidade e da vida comunitária de Vacaria. Figura 17 - Réplica da primeira igreja de Vacaria Fonte: Vacarianos no mundo (2025). Disponível em: https://facebook.com%2Fshare%2Fp%2F1CBMiYmiyn%2F%3Fmibextid%3DwwXIfr&type=custom_url &app_absent=0. Acesso em: 24 set. 2025. Embora a construção original não tenha resistido ao tempo, sua lembrança permanece viva na história local, representando o ponto inicial de uma trajetória de fé que culminaria na edificação da atual Catedral Nossa Senhora da Oliveira. Dessa forma, a imagem não apenas registra um espaço físico desaparecido, mas também evoca a continuidade de tradições, valores e sentimentos que atravessam gerações, constituindo parte essencial da identidade cultural vacariense. Em 1897, o padre Mário Deluy assumiu o projeto de construção de uma nova matriz, baseado no projeto arquitetônico elaborado pelo engenheiro Manuel Silveira Gusmão. Apesar do empenho do sacerdote, a execução da obra encontrou grandes dificuldades, especialmente na obtenção de materiais. Um dos principais entraves foi a produção dos tijolos necessários, e isso acabou comprometendo seriamente o andamento da construção (Dotti, 2024). 55 Segundo Dotti (2024): Mas, apesar de todos os esforços do padre Mário Deluy, ele não conseguiu realmente realizar o seu projeto. Houve muitos problemas. Em primeiro lugar, os tijolos. Ele tinha contratado o capitão Rolim, que tinha dado a ele a fazenda do Turvo, em Lagoa Vermelha, em troca de tijolos, esperando que ele realmente entregasse tijolos de qualidade para a construção da igreja. Ele não conseguiu montar a olaria. E por isso, então, a coisa foi se protelando. No ano de 1900, foi realizado o lançamento da pedra fundamental da Catedral Nossa Senhora da Oliveira, um marco simbólico que deu início à construção do templo. Esse ato solene foi conduzido pelo padre Mário Deluy (Dalcim, 2022, p.31), a quem é atribuído o mérito não apenas de liderar esse momento inaugural, mas também de ter escolhido o local onde a Catedral seria edificada (Dotti, 2009, p. 57), uma decisão estratégica que influenciou significativamente o desenvolvimento urbano e religioso da região. A Catedral Nossa Senhora da Oliveira, em seu estilo neogótico, é uma das construções mais importantes de Vacaria, e sua história está profundamente ligada à atuação dos capuchinhos franceses. Chegando à cidade em 1903, os capuchinhos tiveram um papel fundamental no desenvolvimento religioso de Vacaria. Eles se dedicaram não apenas à construção do templo, mas também à criação de uma base sólida para a fé católica na região, marcando de forma duradoura a identidade religiosa da cidade. Em 1906, Frei Teófilo de Villards assumiu a paróquia de Vacaria. Sua atuação foi fundamental para o desenvolvimento da fé católica, marcando um período significativo na história religiosa e cultural da cidade. Em 1907, Frei Teófilo solicitou ao arquiteto Anton Printzmann, da cidade de Berlim, na Alemanha, a elaboração de um projeto para a construção da Catedral. A igreja, assim, tornou-se um símbolo não apenas para os vacarienses, mas também para turistas e fiéis de outras localidades, que visitam a cidade em busca de uma experiência religiosa e arquitetônica única (Tonini, 2024). Segundo (Dotti, 2024): Daí vieram os capuchinhos. E os capuchinhos assumiram a paróquia. Em 1903, o padre Alfredo assumiu a paróquia. E ele se interessou muito pela construção da igreja. Escreveu várias cartas ao bispo de Porto Alegre. Naquele tempo, Dom Claúdio Ponce de Leão. E sempre dizendo um pouquinho dos problemas que houve e dos problemas que ele estava tendo para construir a igreja. E, de fato, ele também saiu, não completou, não fez absolutamente nada. Não pôs uma pedra, não pôs um tijolo no projeto da 56 igreja. Aí, veio o padre Teófilo. O padre Teófilo, então, não sei porque razão, deixou de lado o projeto do engenheiro Guzmão e assumiu um outro projeto. Então nós temos a planta na Cúria e também tem a planta nos arquivos da igreja Catedral. Em 1910, Frei Teófilo deixa a paróquia de Vacaria (Tonini, 2024), sendo sucedido por Frei Pacífico de Bellevaux (Dotti, 2009, p. 59), que também não estava de acordo com o projeto de Manuel da Silveira Gusmão, dando continuidade ao novo projeto, (Barbosa, 1984 p.71), seguindo a ideia de grandiosas igrejas europeias. Em 1913, Frei Pacífico recebeu como seu assessor Frei Efrem (Dotti, 2009, p. 59), que exposta ao público, chamando l Catedral em madeira, motivando a concretização e o desejo do projeto tornar-se realidade o mais breve possível (Dalcim, 2022, p.38), ficando a maquete na Catedral até 1950 (Barbosa, 1984 p.71). Frei Pacífico de Bellevaux, pároco da igreja, repassou a obra para o Frei Efrem de Bellevaux, que alterou o projeto inicial, definindo as características da obra (Rosa, R., 2023). Foi descoberta nas proximidades uma pedreira de cantaria (Barbosa, 1984 p.71; Lopes, 1996, p. 244), que poderia fornecer as pedras para construção, substituindo o tijolo, considerado muito difícil de encontrar naquela época, sendo a obra não materializada em tijolo, mas em pedra. (Dotti, 2009, p.59). Há diferença de planta entre a proposta original e a do Frei Efrem, expressa na construção da igreja, sendo introduzidos vários detalhes arquitetônicos (Rosa, R., 2023). Frei Pacífico de Bellevaux e Frei Efrem, assumiram a direção das obras da igreja, com a colaboração do povo vacariense que participou ativamente, sendo celebrada a primeira missa em 1914, quando a construção da igreja atingiu 4 metros de altura. (Xavier, 2022, p. 47). Nesse ponto dos escritos, reforce-se o entendimento de que a Catedral Nossa Senhora da Oliveira é o principal símbolo de Vacaria, representando um legado transmitido entre gerações. Sua relevância a qualifica como patrimônio cultural não apenas local, mas também estadual, vinculado ao estilo característico dos capuchinhos nas áreas de colonização italiana. Para ressaltar essa ideia, emergem as palavras de Volpatto (2024): Bom, a Catedral é o símbolo máximo da cidade. Eu não sou daqui, mas a gente já sabe que as pessoas comentam isso. Já foram protagonizadas cenas incríveis que foram difundidas por todo o Estado e o mundo, tipo a 57 Nevasca. A importância da manutenção desse bem, desse edifício, transcende a vontade religiosa, do símbolo religioso. Ela é a materialização daquele legado construído no passado, que é transmitido como herança para as próximas gerações, e está muito fortemente ligada à identidade da cidade. Essa identificação com a cidade, com a região do Campos de Cima da Serra, está fortemente ligada a esse edifício. Além de tudo, a importância arquitetônica, que se diga assim. Ele foi construído por imigrantes italianos, tem as técnicas construídas italianas muito expressivas no monumento, as pedras, a cantaria de pedra, a questão do telhado que a gente descobriu que ainda é de tabuinha, que está lá em cima, então de escândalo. Então, isso tudo é muito representativo, então como arquitetura, como símbolo, como edifício, e também como patrimônio cultural histórico, não só de Vacaria, mas patrimônio cultural do Rio Grande do Sul, porque o estilo arquitetônico que ele traz aqui é muito característico dos capuchinhos, por exemplo, na região da colonização italiana principalmente. Então, isso tudo é argumentação para a manutenção do bem, para a manutenção da igreja, e a declaração de que ela é um patrimônio cultural do município, né. Diante de tão veementes palavras, infere-se que a Catedral de Vacaria não é apenas um edifício religioso, mas um símbolo da história da colonização italiana no estado, representando a identidade de uma comunidade que, com suas particularidades culturais, contribuiu de forma significativa para o desenvolvimento da região. O estilo arquitetônico que ela apresenta, carrega não apenas a expressão estética de um período histórico, mas também técnicas construtivas que são um reflexo dos imigrantes italianos, se transformando em um símbolo de identidade coletiva do munícipio. Na visão de Lopes, R., (2020): Símbolo arquitetônico do município de Vacaria e um dos mais belos exemplares sacros do Estado, a Catedral Nossa Senhora da Oliveira tem sua construção atrelada à trajetória de centenas de trabalhadores e obreiros que atuaram por lá a partir de 1900, quando do lançamento da pedra fundamental. Entre eles figura o imigrante italiano Giovanni Luigi Toigo. É, portanto, a Catedral Nossa Senhora da Oliveira, um ícone significativo da cidade e um exemplar notável da arquitetura sacra no Rio Grande do Sul. Sua construção, marcada pela dedicação de imigrantes como Giovanni Luigi Toigo, transcende a simples edificação de um templo. Ela reflete a herança cultural e histórica deixada por es