O Stalinismo em Caxias do Sul: uma análise da atuação do Sindicato dos Metalúrgicos (1993-2010)
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2026-08-31
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Em um momento de aprofundamento das inúmeras contradições que compõem o modo de produção capitalista, torna-se cada vez mais urgente a busca por uma resposta que aponte para sua superação. Essencialmente baseado na acumulação incessante de capital, o capitalismo não é capaz de oferecer uma solução às contradições econômicas, políticas, sociais e ambientais postas por ele mesmo. Contudo, discutir uma alternativa que leve à sua superação é uma tarefa extremamente complexa, uma vez que passa pela necessidade de reestruturação da esquerda, em nosso país e no mundo. Após o impacto devastador que o colapso do "socialismo real" teve sobre ela, essa tarefa depende de um exame crítico, autocrítico e radical de sua atuação nos últimos cem anos. Fragmentada nas mais diversas correntes ideológicas (stalinismo, reformismo, luxemburguismo, trotskismo), a esquerda que reivindica o marxismo não será capaz de dar uma resposta à crescente barbárie capitalista enquanto não identificar os erros cometidos no passado, buscando superá-los. A partir da análise da grande experiência revolucionária que a humanidade testemunhou, iniciada em 1917, é necessário que reconheçamos, criticamente, os limites que determinadas linhas políticas contém e que levaram à derrota acachapante de 1991. Por isso, trata-se de uma tarefa imprescindível ao avanço da esquerda as reflexões científicas e radicais sobre o stalinismo, corrente hegemônica na esquerda mundial em todo o século passado. Se tivermos como horizonte a possibilidade de superação revolucionária e definitiva do capitalismo, a análise crítica dos fundamentos do stalinismo talvez seja o mais importante debate que a historiografia possa fazer no século XXI. Caxias do Sul é, historicamente, uma fortaleza dessa vertente ideológica. Atualmente, em 2026, parte significativa dos sindicatos da cidade é controlada pelo Partido Comunista do Brasil, braço tradicional do stalinismo no país. Dentre esses sindicatos, temos o mais importante da cidade: o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Metalúrgicas de Caxias do Sul e Região. É amplamente reconhecida a importância central que o operário fabril possui na tarefa histórica de superação do capitalismo, uma vez que a libertação do operariado da exploração patronal somente é possível como libertação de toda a sociedade. Essa importância é potencializada em Caxias, onde se localiza um dos maiores polos metalomecânicos do país, com uma categoria metalúrgica altamente concentrada e com amplo histórico de resistência. Dominando o Sindicato desde 1993, cabe perguntarmos: o PCdoB fez avançar a consciência de classe da categoria? Os stalinistas conseguiram, em alguma medida, fazer o operário fabril da cidade avançar de classe em si para uma classe para si? Partindo da compreensão de um sindicato como uma ferramenta que possibilita a autoconsciência histórica de uma categoria, convertendo-se em um ambiente onde o ensino de história se faz possível, mesmo de maneira não-institucional, o Sindicato dos Metalúrgicos contribuiu para que a categoria compreendesse a si mesma historicamente? Responder a estas perguntas, procurando entender a atuação do grupo político que hegemoniza o Sindicato há mais de três décadas, à luz de sua ideologia, o stalinismo, é a tarefa central desta pesquisa. Como veremos, ao estar preso às concepções e práticas stalinistas, o Sindicato não conseguiu escapar completamente à cooptação promovida pela reestruturação produtiva, terminando por travar o avanço da consciência da categoria. Não temos a pretensão de realizar, aqui, um estudo seminal. Mas buscamos uma contribuição, mesmo que mínima, ao debate de reestruturação da esquerda brasileira. [resumo fornecido pelo autor]
Resumo
At a time when the countless contradictions that constitute the capitalist mode of production are becoming increasingly acute, the search for an answer pointing toward its overcoming has become ever more urgent. Essentially based on the incessant accumulation of capital, capitalism is incapable of providing a solution to the economic, political, social, and environmental contradictions generated by capitalism itself. However, discussing an alternative that could lead to its overcoming is an extremely complex task, since it entails the need to restructure the Left, both in our country and throughout the world. Following the devastating impact that the collapse of "real socialism" had on the Left, this task depends upon a critical, self-critical, and radical examination of its activity over the past hundred years. Fragmented into the most diverse ideological currents (Stalinism, reformism, Luxemburgism, Trotskyism), the Left that claims Marxism as its own will be unable to respond to the growing barbarism of capitalism until it identifies the mistakes committed in the past and seeks to overcome them. Based on an analysis of the great revolutionary experience witnessed by humanity, which began in 1917, we must critically recognize the limits inherent in certain political lines and the ways in which they contributed to the crushing defeat of 1991. For this reason, scientific and radical reflections on Stalinism - the hegemonic current within the world Left throughout the last century - are an indispensable task for the advancement of the Left. If we take as our horizon the possibility of the revolutionary and definitive overcoming of capitalism, a critical analysis of the foundations of Stalinism may well be the most important debate that historiography can undertake in the twenty-first century. Caxias do Sul has historically been a stronghold of this ideological tendency. Currently, in 2026, a significant portion of the city's trade unions is controlled by the Communist Party of Brazil (PCdoB), the traditional political arm of Stalinism in the country. Among these unions is the city's most important: the Metalworkers? Union of Caxias do Sul and Region. The central importance of the industrial worker to the historical task of overcoming capitalism is widely recognized, since the liberation of the working class from exploitation by employers is possible only as the liberation of society as a whole. This importance is heightened in Caxias do Sul, which is home to one of the country's largest metalworking and machinery-manufacturing industrial hubs, with a highly concentrated metalworking workforce and an extensive history of resistance. Having controlled the Union since 1993, we must ask: has the PCdoB advanced the class consciousness of the workforce? Have the Stalinists, to any extent, enabled the city's factory workers to advance from a class in itself to a class for itself? Starting from an understanding of a trade union as a tool that enables the historical self-consciousness of a particular occupational group, thereby becoming an environment in which the teaching of history can take place, even in a non-institutional manner, did the Metalworkers? Union contribute to the workforce's historical understanding of itself? Answering these questions, while seeking to understand the activities of the political group that has held hegemony over the Union for more than three decades in light of its ideology, Stalinism, is the central task of this research. As we shall see, by remaining bound to Stalinist conceptions and practices, the Union was unable to completely escape the co-optation brought about by productive restructuring, ultimately hindering the advancement of the workforce's class consciousness. We do not claim to be conducting a seminal study here. Rather, we seek to make a contribution, however modest, to the debate on the restructuring of the Brazilian Left. [resumo fornecido pelo autor]
Citação
Vieira, Bruno
